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Geração Z: desafios dos novos adultos e conflitos sociais com gerações anteriores

Quatro entrevistados da geração Z, entre 25 a 30 anos, expõem os desafios enfrentados na vida adulta e destacam os conflitos sociais vividos com gerações anteriores. Mas afinal quem são os novos adultos? Especialistas explicam.

A psicóloga conselheira do Conselho Regional de Psicologia da 16ª região, Stéfani Martins, destaca que existem várias abordagens científicas para classificar a fase adulta de desenvolvimento. “As áreas biológicas irão apresentar aspectos do desenvolvimento físico, por exemplo, enquanto as humanas irão apontar para aspectos históricos e socioculturais. Em psicologia do desenvolvimento esses dois aspectos são considerados, somando-se também aos aspectos cognitivos do desenvolvimento humano”, explica.

Apesar dos 18 anos serem classificados como o marco da maioridade legal, a especialista aponta que na psicologia a idade consta como uma transição da adolescência para a idade adulta e dura até os 20 anos. “A idade adulta corresponde dos 20 aos 25 anos, quando o sujeito desenvolve o Pensamento Pós-formal, com a capacidade de estabelecer raciocínio abstrato e lógico de forma mais complexa”.

O psicólogo, André Zonta, destaca que estudos recentes sobre o cérebro apresentam que a fase adulta pode começar definitivamente a partir dos 30 anos, época que as regiões do lobo frontal estão mais definidas e apresentando maior estabilidade emocional e capacidade de raciocínio crítico.

“Vale ressaltar que se trata da ótica sobre o pleno funcionamento cerebral. Para a nossa sociedade, pode ser considerada como uma época de alta produtividade e performance do ser humano. Ou seja, pessoas que trabalham, pagam boletos e assumem responsabilidades podem ser consideradas “adultas””, detalha o especialista.

No entanto, Martins aponta que essa idade precisa ser observada com cautela, pois pode operar em uma lógica capacitista e segregacionista. “Por exemplo, se considerarmos adultos não neurotípicos que se desenvolvem em outra temporalidade. Também é importante os recortes de classe, raça e de gênero, pois as experiências de uma adultez chegam antes quando consideramos esses marcadores”.

Comparações

De acordo com a psicóloga, é muito comum ver jovens da geração Z se compararem e serem comparados aos feitos das gerações anteriores. “Essas gerações são delineadas de acordo com marcadores sociais e culturais que aproximam-se entre si e diferenciam-se das outras. Desta forma, o que distingue a geração Z das gerações Y e X são justamente esse contexto em que estão inseridos e que as diferenciam”.

Um dos conflitos nessa comparação da geração Z urbana com a anterior diz da temporalidade da vida cotidiana, como aponta Martins. “Essa geração faz muito, deseja fazer muito mais e não tem tempo para nada. Na geração anterior vivia outra velocidade, menos ágil e menos atravessada por tecnologias do instantâneo e imediato como a geração Z”.

“Esses mitos criados na infância sobre os vinte e pouco anos consistem na ideia de sucesso construída socialmente. Espera-se de um sujeito adulto que alcance o ápice de realizações, que em nossa sociedade ainda estão ligados à carreira, relações amorosas e bens materiais”, destaca a conselheira.

Diante as expectativas de casamento, formatura, adquirir bens e ter filhos, muitas vezes as pessoas se frustram e acabam adoecendo por não atingir aos parâmetros sociais imposto como pontua Stéfani. “É frustrante ao adulto quando se depara com a realidade dessa sociedade de consumo, que demanda por produtividade e resultados imediatos para percursos que demandam tempos mais longos para se alcançar (ou não são alcançados) por quem não vivencia uma condição de privilégios”.

Atualmente com o crescimento das redes sociais a comparação com outras pessoas e conquistas se tornou muito comum. “Jovens se comparando com outros jovens e se sentindo bem frustrados com a própria vida”, destaca Zonta.

A especialista aproveita ainda para frisar que que essa mitologia criada a respeito dos feitos sociais “obrigatórios” da idade escancaram as desigualdades sociais e econômicas que atravessam nosso contexto atual. “Quem ocupa lugares sociais e econômicos de maior privilégios tem mais condições de alcançar os ideais de sucesso”.

Adoecimento e esgotamento mental

O psicólogo aponta que quando uma geração procura se comparar com os feitos de gerações anteriores é inegável que isso pode contribuir para gerar frustrações, desesperança e ansiedade quanto ao futuro. “Pode gerar emoções desagradáveis como tristeza, angústia, medo, ansiedade, depressão e sensação de incapacidade e fracasso frente a vida”.

Alguns teóricos, segundo Martins, falam sobre a chamada “sociedade do cansaço” e do esgotamento, em que os adultos, jovens adultos, e até adolescentes, entram em lógicas produtivas de excesso de tarefas e demandas, se distanciando dos próprios desejos diante as cobranças externas enormes.

“Uma das consequências é a medicalização da vida para dar conta de tudo, a busca pelo não sentir (porque sentir é considerado perda de tempo) leva a buscar formas imediatas de não ficar triste, não sentir sono, não sentir fome, se concentrar a todo momento, etc. Outra consequência de tudo isso é o adoecimento psicológico, o aparecimento de sinais, de sintomas e de transtornos”, alerta a conselheira do CRP.

Flexibilidade e redução de expectativas: chaves para saúde mental

Zonta destaca os comportamentos que podem ajudar na melhora da qualidade de vida dessa geração. “É importante entender que a sua jornada não deve e nem ter que ser igual a de ninguém mesmo que você faça parte de uma determinada geração que tem expectativas. Afinal, é a sua jornada da vida”.

Ser flexível diante aos obstáculos da vida, como aponta o especialista,  é um bom sinal de saúde mental. “Rotas podem ser refeitas e você pode voltar a ter novos planos. Isso é viver a vida. Isso é lidar de modo maduro com a sua vida. Claro que é importante sim, compreender que haverá objetivos que talvez você não consiga alcançar, mas nada o impede de começar de novo”.

“E claro, é preciso entender se você realmente quer tudo isso do jeito que “tem que ser” ou que é “socialmente esperado”, ou se você está disposto a objetivos diferentes em sua vida. Afinal, é a sua vida e você pode e deve escolher como quer vive-la. Se essas dificuldades forem muito significativas pode ser importante buscar ajuda profissional de um psicólogo”, recomenda o psicólogo.

Relatos da Geração Z

Segundo a empresária de 29 anos, Sabrina Mulinario, as dificuldades enfrentadas no inicio de sua carreira há dez anos atrás eram muitas. “A falta de experiência e por ser mulher nova muitas pessoas acabavam desacreditando e descredibilizando meu trabalho”.

A desafiadora vida adulta traz consigo obstáculos que sobrecarregam, destaca a empresária. “Com o passar do tempo os principais desafios encontrados durante a vida adulta são a alta demanda de responsabilidades que acabamos adquirindo, acaba que uma pessoa só exercer muitas funções ao mesmo tempo”.

Para Sabrina, existem comparações entre familiares desta e de outras gerações, e às vezes até entre amizades. “Partes da família e amigos não entende como eu consegui crescer e desenvolver saindo do mesmo lugar e eles não”.

No meio do caminho de ter atingido todas as expectativas criadas aos 25 para os 30, Mulinario deixa um conselho para aqueles de sua geração que se comparam e cobram demais. “Façam no seu tempo, cada um tem a sua hora, mas necessita de muito esforço próprio. Nunca se compare com os outros ou diminua o trabalho ou as dores do outro por ser diferente do seu, cada um tem sua luta e seu modo de sentir e absorver a vida”.

A analista administrativa, Maria Eduarda Bersot, destaca que a realidade financeira é um dos seus principais obstáculos. “Absolutamente tudo tem um custo, a gente paga pra respirar e infelizmente o salário não acompanha. Nós, assalariados e meros mortais, temos que estar sempre abdicando de algo e/ou de um estilo de vida para”.

Bersot conta que a ajuda dos pais tem um grande peso diante ao problemas da vida. “Confesso que me sinto extremamente privilegiada em contar ainda com meus pais, o que facilita em todos os âmbitos da minha vida. Mas além do dinheiro, as preocupações do dia a dia e os problemas que aparecem a todo momento tem se tornado cada vez mais frequentes e o mais triste de tudo é saber que eles nunca acabam”.

“Com certeza existem comparações entre membros da família. Minha sorte é que acontece muito pouco com meus pais, mas sempre tem uma tia ou um tio que lança aquela famosa frase “sua prima passou no concurso”, entretanto, no meu caso, foi a minha irmã que se tornou servidora pública”, destaca a analista.

“Sonhe, mas não crie tanta expectativa. A vida faz seu curso, a gente deve ser água”, aconselha Bersot.

O auxiliar contábil, Matheus Teodoro, conta que ainda tem um percurso a encarar antes dos trinta e detalha os desafios encontrados. “Ser uma pessoa produtiva, sempre correr atrás de uma fonte de renda e redução do tempo de lazer, são de longe os principais desafios da idade. Ainda não cheguei aos 30, mas tenho planos grandes para quando chegar e que necessitam de muita disciplina para alcançar. Para os companheiros da minha geração aconselho que sejam disciplinados e façam o que tem que ser feito. Cada um tem seu tempo, respeite o seu”.

A jornalista, Thaís Martins conta que teve um choque de expectativa e realizada de quando de repente fez 30 anos. “É meu segundo ano morando com meu namorado, fora da casa dos meus pais. Tive problemas com dinheiro. Uma coisa é você morar com seus pais e pagar uma conta de luz, água, internet, fazer uma compra, etc. Outra coisa é administrar toda uma casa. Sigo aprendendo”.

“O que mais senti foi choque de gerações, muito carregado de achismos e, principalmente, machismo. Já escutei muito “vai casar quando?” de mãe, tias e até briguei por determinado comportamento. Mas isso tem muito a ver com criação. Tento mudar com diálogo”, pontua Thaís sobre as comparações entre gerações.

Martins aconselha aqueles de sua geração que se comparam e cobram demais que sempre se ponham em primeiro lugar sem competições. “Seja você mesma (o) e viva um dia de cada vez. Você não precisa de um carro antes dos 30 anos, de um diploma, de filhos. As coisas tem tempo pra acontecer (mesmo). Corra atrás do seu, mas sem ceder a pressões. É difícil, mas não impossível. A grama da vizinha (o) não é mais verde, acredite. E muita coisa não é culpa sua, e sim do machismo, racismo, sexismo, etc”.

 

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