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13 de janeiro de 2026
terça-feira, 13 de janeiro de 2026

O Evangelho como discernimento no ano eleitoral

O Evangelho como discernimento no ano eleitoralO ano de 2026 será marcado por uma das decisões mais relevantes da vida pública brasileira. E, para os cristãos comprometidos, o discernimento do Evangelho é fundamental nessa escolha.

Em outubro, os eleitores irão às urnas para escolher presidente da República, senadores, governadores, deputados federais e estaduais. Como costuma acontecer em períodos eleitorais, o ambiente político já começa a se aquecer — e, com ele, a polarização tende a se intensificar, ocupando conversas familiares, igrejas, redes sociais e espaços de trabalho.

É nesse contexto que a Coluna Fé Pública propõe esta reflexão. Não para indicar candidatos ou alinhar o leitor a um campo ideológico específico, mas para ajudar cristãos a prepararem o coração, a consciência e o discernimento diante das escolhas que precisarão ser feitas no dia 4 de outubro.

Em tempos de promessas fáceis e discursos inflamados, a fé cristã oferece algo cada vez mais raro no debate público: critérios, limites e sobriedade.

Uma disputa por lealdade

No cenário político contemporâneo, dois grandes espectros costumam disputar a lealdade dos eleitores.

A esquerda tende a interpretar os problemas sociais a partir das estruturas econômicas e das desigualdades históricas, defendendo o Estado como agente central de transformação. A direita, por sua vez, enfatiza a responsabilidade individual, os limites do poder estatal, o valor das tradições e a força do mercado como motor de prosperidade. Ambos os diagnósticos tocam em aspectos reais da experiência humana. O problema surge quando essas leituras são absolutizadas.

Correspondências e críticas à esquerda

À luz das Escrituras, a preocupação da esquerda com a pobreza, a exclusão e a injustiça encontra ressonância profunda na fé cristã. Os profetas bíblicos não pouparam palavras contra a exploração do pobre, o acúmulo desmedido de riquezas e a indiferença social. A tradição reformada sempre afirmou que a dignidade humana não nasce de políticas públicas, mas da criação: todo ser humano carrega a imagem de Deus. Nesse sentido, a sensibilidade social não é concessão ideológica, mas exigência moral.

O Evangelho como discernimento no ano eleitoral
Ideia central de Karl Marx, um dos principais expoentes da esquerda, é que a história é movida pela luta de classes, e o capitalismo produz alienação e exploração. “A história de todas as sociedades até hoje é a história da luta de classes”, ele diz. Marx fundamenta a crítica econômica ao capitalismo e a ideia de que desigualdade não é acidente, mas estrutura.

O choque ocorre quando o Estado passa a ser tratado como solução última para o mal humano. A fé cristã lembra que a injustiça não reside apenas nas estruturas, mas também no coração. Sistemas são importantes, leis são necessárias, políticas públicas são legítimas — mas nenhuma delas é capaz de redimir a humanidade. Quando a esperança é deslocada para o poder estatal, corre-se o risco de transformar governos em salvadores e eleições em atos de fé.

Correspondências e críticas à direita

A direita, por outro lado, acerta ao desconfiar do poder concentrado e ao insistir que toda autoridade precisa de limites. Essa desconfiança dialoga diretamente com uma convicção central da teologia reformada: o pecado corrompe indivíduos e instituições. A valorização da ordem, da estabilidade e da responsabilidade também encontra respaldo bíblico. A vida em sociedade exige pactos, continuidade e respeito às instituições.

O Evangelho como discernimento no ano eleitoral
Para Adam Smith, um dos principais expoentes da direita, a busca individual por interesse próprio pode gerar bem-estar coletivo. Uma de suas sentenças emblemáticas diz: “não é da benevolência do padeiro que esperamos nosso jantar, mas de seu interesse próprio”. Smith fundamenta a defesa do livre mercado.

O erro aparece quando o mercado passa a ocupar um lugar quase sagrado ou quando o individualismo se torna critério absoluto. A Escritura é clara ao advertir que a riqueza pode se tornar um ídolo poderoso, capaz de justificar injustiças e romper laços comunitários. A tradição reformada nunca entendeu a propriedade como um fim em si mesma, mas como mordomia. A fé cristã é pessoal, mas nunca solitária; ela é vivida em comunidade e exige cuidado mútuo.

Atalho, não; critério, sim

Diante disso, a fé cristã se recusa a entrar no jogo da polarização cega. Ela critica a esquerda quando esta espera demais do Estado. Critica a direita quando esta espera demais do mercado. E confronta ambas quando passam a esperar demais do ser humano. O Evangelho não oferece atalhos ideológicos, mas um critério mais alto, capaz de julgar todo projeto de poder.

Essa postura é especialmente necessária em um ano eleitoral. No dia 4 de outubro, cristãos irão às urnas como cidadãos do Brasil, mas também como cidadãos do Reino de Deus. Isso exige mais do que paixão política: exige discernimento, oração, memória bíblica e senso de responsabilidade. Votar é um ato cívico, mas também moral — e jamais deve ser feito de forma acrítica ou movida por idolatria política.

O Evangelho como discernimento no ano eleitoral
Para o cristão, votar exige mais do que paixão política: exige discernimento, oração, memória bíblica e senso de responsabilidade.

A fé cristã não se ajoelha nem diante do Estado nem diante do mercado — nem diante da esquerda e nem da direita. Ela se ajoelha apenas diante de Deus — e, por isso mesmo, mantém distância crítica de todos os projetos de poder.

Em um tempo de escolhas difíceis, essa convicção não afasta o cristão da vida pública; ao contrário, o capacita a participar dela com lucidez, humildade e fidelidade ao Evangelho.

Gustavo Gouvêa
Gustavo Gouvêahttps://eshoje.com.br/author/gustavo-gouvea/
Jornalista graduado pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) em 2009; atuou nos principais veículos de comunicação do ES; tem mestrado em Ciências Sociais pela Ufes (2019) e é teólogo formado pelo Cetebes (Centro Teológico Batista do ES).

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