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13 de janeiro de 2026
terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Na era da produtividade, o Natal nos lembra que não somos Deus

Na era da produtividade, o Natal nos lembra que não somos DeusEm tempos de exaltação do desempenho, da produtividade e do autodomínio, o Natal cristão surge como uma interrupção incômoda. Ele não confirma o potencial humano; ele o limita. Não reforça a ideia de que “basta querer”; proclama que não damos conta sozinhos.

À luz da fé reformada, o Natal não é apenas uma celebração afetiva, mas, sim, um freio teológico. A encarnação afirma algo profundo e desconcertante: o mundo não se salva a si mesmo. A humanidade precisa ser visitada, interrompida e redimida de fora.

O Verbo entra em um mundo que não o reconhece

O prólogo do Evangelho de João é um dos textos mais densos do Novo Testamento:

“Aquele que é a verdadeira luz, que ilumina a todos, estava chegando ao mundo. Veio ao mundo que ele criou, mas o mundo não o reconheceu” (João 1:9-10 – NVT)

A encarnação não acontece em um mundo receptivo, preparado ou espiritualmente sensível. Pelo contrário: Cristo entra em um mundo que não o reconhece, apesar de ter sido criado por ele.

João Calvino observa que esse texto revela a profundidade da cegueira humana após a queda. Para o reformador, o problema central da humanidade não é a falta de informação, mas a corrupção da percepção espiritual. A luz vem, mas não é acolhida.

O Natal, portanto, não confirma a autonomia humana. Pelo contrário, ele a questiona radicalmente.

Na plenitude do tempo, não na plenitude humana

O apóstolo Paulo reforça essa lógica ao escrever aos gálatas:

“Vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para resgatar os que estavam sob a lei” (Gálatas 4.4–5 – ARA).

Na era da produtividade, o Natal nos lembra que não somos Deus
Bavinck explica que a encarnação é uma resposta à falência humana

É decisivo notar: Paulo fala da plenitude do tempo, não da plenitude da humanidade. Cristo não vem quando o ser humano finalmente amadurece moralmente, politicamente ou espiritualmente. Ele vem quando o tempo de Deus se cumpre.

Herman Bavinck explica que a encarnação não é resposta ao progresso humano, mas à sua falência. Para ele, o Natal revela que a história não caminha naturalmente para a redenção; ela precisa ser interrompida pela graça.

Isso confronta uma visão muito comum, inclusive no discurso religioso contemporâneo: a ideia de que a humanidade está sempre “evoluindo” e que Deus apenas acompanha esse processo. O Natal diz o oposto.

Cristo vem quando somos fracos

Essa verdade fica ainda mais clara em Romanos:

“Porque Cristo, quando nós ainda éramos fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios” (Romanos 5.6).

A encarnação não acontece quando o ser humano demonstra força, mérito ou disposição moral. Ela acontece no auge da fragilidade.

A tradição reformada chama isso de total depravação, um conceito muitas vezes mal compreendido. Não significa que o ser humano seja o pior possível, mas que ele é incapaz de se auto-redimir.

R. C. Sproul insistia que o Natal desmente qualquer teologia baseada na autoajuda espiritual. A salvação não começa quando o homem melhora, mas quando Deus entra.

A graça não é complemento do esforço humano. Ela é sua substituição.

O Natal contra a ilusão do controle

Em nosso tempo, essa mensagem é especialmente necessária. Vivemos sob a lógica do controle: controle emocional, financeiro, corporal, espiritual. Até o Natal é pressionado a ser “perfeito”.

Na era da produtividade, o Natal nos lembra que não somos Deus
Bonhoeffer afirma que o Natal “dissolve” a centralidade humana; Deus é o centro

Famílias exaustas, relações tensionadas, expectativas irreais. Um Natal performático, que cobra alegria, gratidão e harmonia, mesmo quando nada disso é possível.

Dietrich Bonhoeffer escreveu que o Deus que nasce na manjedoura “desloca o homem do centro”. Para ele, o Natal não reforça a centralidade humana, mas a dissolve. Deus entra na história justamente para nos libertar do fardo de sermos deuses de nós mesmos.

Nesse sentido, o Natal é terapêutico não porque afirma nossa força, mas porque autoriza nossa fragilidade.

Aplicações para a nossa vida

Na era da produtividade, o Natal nos lembra que não somos Deus
O Natal anuncia que o valor da vida não está na performance, mas na graça de Jesus

Uma sociedade exausta

O Natal confronta uma cultura produtivista que exige desempenho até o último dia do ano. Ele anuncia que o valor da vida não está na performance, mas na graça.

A Igreja

A encarnação lembra à Igreja que sua mensagem não é “você consegue”, mas “Deus veio”. Toda tentativa de transformar o Natal em motivação moral esvazia seu núcleo redentor.

A vida pessoal

O Natal liberta da obrigação de estar bem o tempo todo. Ele permite descansar. Deus não espera que tudo esteja em ordem para agir.

A boa notícia

O Natal é um limite amoroso. Deus entra na história para dizer, com graça e autoridade: vocês não são Deus. Que maravilhosa notícia!

A encarnação proclama que a salvação não nasce de dentro para fora, mas de cima para baixo. Não é conquista humana, é visita divina.

À luz da fé cristã reformada, celebrar o Natal é aceitar esse limite, abandonar a ilusão do controle e descansar na soberania daquele que veio quando éramos fracos.

Esse é o escândalo silencioso do Natal. E é no seu protagonista que reside a nossa esperança.

Gustavo Gouvêa
Gustavo Gouvêahttps://eshoje.com.br/author/gustavo-gouvea/
Jornalista graduado pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) em 2009; atuou nos principais veículos de comunicação do ES; tem mestrado em Ciências Sociais pela Ufes (2019) e é teólogo formado pelo Cetebes (Centro Teológico Batista do ES).

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