João Crisóstomo, as exigências do Evangelho e a profecia contra os poderosos

João Crisóstomo, as exigências do Evangelho e a profecia contra os poderososSe vivesse nos dias atuais, muito provavelmente João Crisóstomo (347 – 407 d.C) seria aquele religioso chamado de “comunista” por conservadores, mas também de “fascista” por progressistas – ambos néscios para o significado da fidelidade cristã, que tende a confundir cabeças arraigadas em conceitos humanos temporais.

Este parece ter sido o preço pago por esse Bispo de Constantinopla (398 d.C) ao viver uma vida de obediência ao seu Senhor e ao chamado pastoral, com todas as implicações deste ministério para a Igreja e o mundo, incluindo a voz profética contra os poderosos e as injustiças sociais, algo tão ausente – e tão necessário – nos tempos em que vivemos.

Nesta terça-feira (13) o nome de João Crisóstomo é celebrado em todo o mundo. Embora a data seja instituída pela Igreja Católica para o “santo”, Crisóstomo é uma referência genuína para todos os cristãos – e sobretudo para líderes – da fidelidade a Deus diante das ameaças dos poderes humanos: “Mais importa obedecer a Deus do que aos homens” (Atos 5.29).

Crisóstomo: o púlpito como cenário da batalha

Crisóstomo é conhecido na história como “o homem da língua dourada”. O historiador Justo Gonzáles nos informa que o púlpito não era somente “uma tribuna onde ele oferecia brilhantes peças de oratória” – era considerado o gigante dos gigantes da oratória de seu tempo – mas “a expressão oral de toda a sua vida, cenário da sua batalha contra os poderes do mal”[1], o que lhe custaria o desterro e, mais tarde, sua própria vida.

João Crisóstomo, as exigências do Evangelho e a profecia contra os poderosos
Historiador Justo Gonzáles descreve João Crisóstomo: de pequena estatura, cabeça grande, testa ampla e rugosa, e olhos profundos

Diante de uma Constantinopla rica, dada ao luxo e às intrigas políticas, onde os que detinham o poder o utilizavam para satisfazer suas próprias ambições e a de seus amigos, onde os conchavos para o bem deles e a desgraça do povo eram constantes – opa, alguma semelhança com o cenário brasileiro? – emerge a voz de Deus através da repreensão e das exortações deste Bispo tanto aos ricos da cidade, que queriam adaptar o Evangelho aos seus próprios luxos e comodidades, quanto ao próprio clero, que vivia na luxúria e na avareza.

João Crisóstomo enfrentou todos esses problemas, exigindo que os sacerdotes levassem uma vida cristã austera. “As finanças foram submetidas a um sistema de controle detalhado. Os objetos de luxo que havia no palácio do bispo foram vendidos para dar de comer aos pobres. E o clero recebeu ordens para abrir as igrejas durante as tardes, para que as pessoas que trabalhavam pudessem entrar nelas”[2], descreve o historiador Justo Gonzáles.

Profecia contra os poderosos e exortação à obediência

Mas essa reforma não se restringia ao clero. O Bispo instava os leigos de Constantinopla para que vivessem uma vida de acordo com o Evangelho. “Por isso o orador de língua dourada trovejava do púlpito: ‘Esse freio de ouro na boca do teu cavalo, este aro de ouro no braço do teu escravo, esses adornos dourados em teus sapatos, são sinal de que estás roubando o órfão e matando de fome a viúva. Depois de morreres, quem passar pela tua casa dirá: ‘Com quantas lágrimas ele construiu esse palácio? Quantos órfãos se viram nus, quantas viúvas injuriadas, quantos operários receberam salários injustos?’. Assim nem mesmo a morte te livrará dos teus acusadores’”.[3]

Obviamente, ao passo que Crisóstomo conquistava o respeito de muitos, grangeava o ódio de outros, sobretudo dos poderosos, pois os convocava a uma obediência absoluta ao Evangelho no qual diziam crer. Suas palavras abalavam os fundamentos da sociedade, não pela sua “língua dourada”, mas pela sua autoridade do Alto.

Episódios do ministério de João Crisóstomo

Alguns episódios emblemáticos marcaram o ministério de João Crisóstomo. O administrador do palácio do imperador, chamado Eutrópio, que o tinha nomeado Bispo, esperava de Crisóstomo favores e concessões especiais. Mas o Bispo o tratava como um crente para o qual precisava pregar o Evangelho com todas as suas exigências.

João Crisóstomo abriu a Igreja de Santa Sofia, a qual cuidava, para que pessoas que fugiam da tirania de Eutrópio se refugiassem. Mesmo diante dos soldados enviados pelo administrador para buscar os refugiados, o Bispo foi inflexível, barrando a entrada deles no santuário, o que levou Eutrópio a apelar ao imperador. Entretanto, a voz de Crisóstomo bradou do púlpito e, pela primeira vez, o imperador se recusou a ouvir a voz de Eutrópio, que direcionava todas as decisões do mandatário. Foi o início do fim do administrador tirano.

João Crisóstomo, as exigências do Evangelho e a profecia contra os poderosos
Crisóstomo e a imperatriz Eudóxia: pregações contra as pompas dos poderosos (Imagem: Jean Paul Laurens)

Mas a voz que vinha do púlpito de Santa Sofia denunciando a pompa e a insensatez dos poderosos de Constantinopla também caíram como uma luva contra a esposa do imperador, Eudóxia, que, se sentindo ameaçada pelo povo que teve “seus olhos abertos”, fez donativos especiais à igreja buscando calar aquela voz. O Bispo agradeceu e seguiu pregando contra aqueles pecados.

A imperatriz, em complô com outros bispos e líderes religiosos, os convenceu a tecer uma longa lista de acusações ridículas contra Crisóstomo. O Bispo fez pouco caso, continuou pregando e cumprindo seus deveres pastorais. O grupo o declarou, posteriormente, culpado e pediu que o imperador o desterrasse, o que foi aceito pelo imperador, ordenando que Crisóstomo abandonasse a cidade.

O profeta no exílio

O povo estava indignado, e parte do clero e do bispado declarou apoio a Crisóstomo. O Bispo só precisava dar a ordem. Do outro lado, o imperador sabia disso e também se preparava para a luta. “Mas ele amava demasiadamente a paz, e por isto se preparava para o exílio. Três dias depois de receber a ordem imperial ele se despediu dos seus e se entregou às autoridades”[4], afirma Gonzáles.

Depois deste exílio, o Bispo ainda voltou para a cidade, mas as causas do conflito ainda não estavam solucionadas e as tensões continuavam. Mais uma vez, secretamente e serenamente, ele se entregou aos soldados a fim de evitar distúrbios sociais.

Desta vez foi exilado na remota aldeia de Cucusso. Seu ministério passou do púlpito para a pena. E, de lá, continuava pastoreando suas ovelhas e mexendo nas estruturas daquela sociedade desequilibrada.

João Crisóstomo, as exigências do Evangelho e a profecia contra os poderosos
Exílio de São João Crisóstomo. Foi durante a sua viagem à Abecásia, para onde havia sido exilado, que João morreu em 14 de setembro de 407

Mais tarde seus inimigos ordenaram que o Bispo deposto fosse levado ainda mais longe, a um lugar frio e desconhecido na margem do Mar Negro. Assim Justo Gonzáles descreve os últimos momentos da vida do gigante João Crisóstomo de Constantinopla:

“Os soldados que deviam acompanhá-lo em sua viagem receberam instruções de que não era necessário se preocupar demais com a saúde de seu prisioneiro, e se ele não chegasse ao seu destino, isto não seria muito lamentável. A saúde de Crisóstomo fraquejava, e quando sentiu que chegara o momento de morrer pediu que o levassem a uma pequena igreja no caminho, onde tomou a ceia, se despediu dos que o rodeavam, e terminou sua vida com seu sermão mais curto e eloqüente: ‘Em todas as coisas, glória a Deus. Amém’”[5].

O que a vida de João Crisóstomo nos ensina hoje?

É inegável que, numa época em que o cristianismo tinha se tornado a religião oficial do Império, o grande legado de João Crisóstomo é a fidelidade a Deus e sua integridade, mesmo diante de todos os prazeres e pompas aos quais o próprio clero estava exposto. Uma vida fácil e de vantagens estava diante dele, mas ele escolheu uma vida de obediência ao Senhor.

Hoje vivemos numa época em que muitos dos líderes cristãos se renderam aos prazeres da carne, se tornaram amantes das riquezas e da boa vida, e perderam sua relevância diante da igreja e da própria sociedade, corrompendo o rebanho às suas próprias concupiscências. Algo amplamente contrário ao “Evangelho e suas exigências”, que pregava Crisóstomo. Certamente, esses líderes seriam alvos de repreensões e exortações do Bispo de Constantinopla para que se arrependessem e voltassem à simplicidade do Evangelho que salva e transforma.

Outra situação é a associação irrestrita e iníqua de parte da igreja com os poderes políticos e com os poderosos visando amentar o poder e influência de ambas as partes. Um tipo de associação que João Crisóstomo deixa bem claro com seu ministério que não pode existir, uma vez que a Igreja é somente de Cristo e, como tal, precisa preservar sua fidelidade a Ele e seu poder profético contra as iniquidades do mundo, que mata e morre em busca de poder e riquezas. O Evangelho não pode ser adaptado aos luxos dos poderosos, mas estes sim devem se permitir ser transformados pela Verdade evangélica. Caso contrário, precisam ser alvo constante da pregação do Evangelho e da profecia da Igreja.

Por fim, como nos ensina a vida de João Crisóstomo, as próprias ovelhas devem ser alvos da constante lembrança das exigências do Evangelho e da nova vida em Cristo. A pregação deve lembrá-las sempre de que são novas criaturas em Cristo, e que a salvação deve gerar frutos dignos de arrependimento. Isso significa dizer que a disciplina eclesiástica, deve estar em dia na Igreja de Cristo, de forma que esta seja purificada e revele cada vez mais a imagem de seu Senhor.

Numa época em que os números falam mais alto do que a exortação à fidelidade, nunca é demais lembrar que a fidelidade a Deus, conforme nos ensinou Crisóstomo com sua vida, é uma característica do fruto da presença do Espírito Santo na vida dos cristãos. E, portanto, uma característica indelével da Igreja Triunfante de Jesus Cristo.

[1] GONZALES, Justo. Uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos gigantes. tradução Hans Udo Fuchs. São Paulo: Vida Nova, 1995. p. 147
[2] Idem, p. 150
[3] Idem, p. 150 e 151
[4] Idem, p. 152
[5] Idem, p. 153

Gustavo Gouvêa
Gustavo Gouvêahttps://eshoje.com.br/author/gustavo-gouvea/
Jornalista graduado pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) em 2009; atuou nos principais veículos de comunicação do ES; tem mestrado em Ciências Sociais pela Ufes (2019), é teólogo formado pelo Cetebes (Centro Teológico Batista do ES) em 2023 e é músico.

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