O longo período sem chuvas já começa a deixar marcas no Espírito Santo. Em diferentes regiões do Estado, produtores rurais observam pastagens mais secas, aumento dos gastos com alimentação do rebanho e necessidade de maior atenção ao uso da água. Ao mesmo tempo, os incêndios em vegetação cresceram neste ano, superando em apenas seis meses os números de 2025, cenário que deve ganhar força com a influência do El Niño nos próximos meses.
Segundo o secretário de Estado da Agricultura, Enio Bergoli, embora a estiagem seja comum entre abril e setembro, os primeiros impactos já são percebidos no campo.
“Hoje já estamos observando as pastagens começando a secar. Com menos pasto disponível, há menos alimento para os animais. Também aumenta o risco de queimadas. Na pecuária, o gado perde peso, a produção de leite diminui e o produtor precisa gastar mais com ração para compensar a falta de pastagem”, explica Bergoli.
Na agricultura, segundo ele, o impacto ainda é limitado porque as principais culturas de café já estão praticamente colhidas. O conilon teve a colheita praticamente concluída e o arábica está na reta final, o que reduz os efeitos da estiagem sobre a safra deste ano. Porém, caso o calor e a falta de chuva persistam, a produção de 2027 poderá ser afetada.
“O calor prejudica o metabolismo das plantas, provoca abortamento das flores, reduz o tamanho dos frutos e, consequentemente, pode diminuir a produção de café. Por isso, os reflexos mais significativos devem aparecer nas safras do ano que vem”, destaca o secretário.
Além da preocupação com as lavouras e a pecuária, a disponibilidade de água também entra no radar. Segundo Bergoli, os produtores devem usar os recursos hídricos com cautela para garantir o abastecimento da irrigação nos próximos meses.
“Estamos orientando os produtores a utilizarem a água de forma racional, aplicando apenas a quantidade necessária na irrigação, sem desperdícios. A preocupação é que as chuvas esperadas possam ser insuficientes para recarregar os reservatórios”, afirma.
Além disso, Bergoli acrescenta que o Estado já se prepara para um possível agravamento da estiagem, com medidas de apoio ao setor rural.
“Temos linhas de crédito do Plano Safra, possibilidade de prorrogação de parcelas de financiamentos, acionamento do seguro rural e do Proagro. Também distribuímos silagem, disponibilizamos mais de 140 ensacadoras para todas as regiões produtoras e criamos um centro integrado para monitorar o El Niño e dar suporte aos produtores”, destaca.
Queimadas já superam todo o ano de 2025
Os impactos da estiagem também já são percebidos no aumento dos incêndios em vegetação. Dados do Corpo de Bombeiros Militar mostram que, entre janeiro e junho deste ano, o Espírito Santo registrou 2.696 atendimentos para esse tipo de ocorrência. O total já supera os 1.753 casos contabilizados durante todo o ano de 2025.
Segundo o tenente-coronel Malacarne, do Corpo de Bombeiros, o cenário exige atenção porque o período mais crítico da estiagem está apenas começando.
“Os meses de julho a outubro concentram o maior número de incêndios porque temos redução das chuvas e baixa umidade do ar. Com a vegetação mais seca, o fogo se propaga com muito mais facilidade”, explica.

O oficial ressalta que, apesar de o El Niño influenciar as condições climáticas, não é possível relacionar diretamente o fenômeno ao aumento das queimadas no Estado. Segundo ele, os incêndios estão ligados principalmente à estiagem e, na maioria das vezes, começam por ação humana.
“As principais causas são a falta de chuva e a baixa umidade relativa do ar. No Espírito Santo, a maior parte dos incêndios florestais tem origem em ações humanas. O caso mais comum é quando uma pessoa faz uma queimada para limpeza de terreno ou área rural e perde o controle das chamas. Durante a estiagem, esse risco aumenta porque a vegetação está mais seca e o fogo se espalha com muito mais facilidade.”
Para enfrentar o período mais seco do ano, de acordo com Malacarne, o Corpo de Bombeiros colocou em prática a Operação Estiagem. Atualmente, cinco equipes extras atuam exclusivamente no combate aos incêndios florestais. O reforço será ampliado para sete equipes a partir de 9 de agosto e chegará a oito equipes em setembro. Caso o número de ocorrências ultrapasse o previsto, novas equipes poderão ser mobilizadas.
Entre os municípios com maior número de incêndios em vegetação neste ano estão Serra (127 ocorrências), São Mateus e Vitória (88 cada), Guarapari (74), Linhares (72), Vila Velha (64), Cariacica (61), Aracruz (58), Baixo Guandu (57) e Domingos Martins (51). Alguns municípios também registraram crescimento expressivo em relação ao ano passado, como Aracruz, que quase dobrou o número de ocorrências (+97%), Linhares (+88%), Serra (+78%) e São Mateus (+75%).
Cenário vai exigir atenção nos próximos meses
Embora os impactos mais visíveis da estiagem já apareçam nas pastagens e no aumento das queimadas, especialistas alertam que o período mais desafiador ainda está por vir. A expectativa é de que a influência do El Niño mantenha o tempo mais quente e seco no Espírito Santo, aumentando a pressão sobre os recursos hídricos, a agropecuária e o meio ambiente.
Segundo o Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), a previsão é de chuvas abaixo da média entre julho e setembro em grande parte do Estado, com tendência de períodos secos mais prolongados e temperaturas acima da média histórica ao longo do segundo semestre. O órgão também prevê que o El Niño permaneça ativo até o início de 2027 e possa ganhar intensidade entre o fim deste ano e os primeiros meses do próximo.
“As projeções indicam temperaturas acima da média histórica, redução e irregularidade das chuvas, aumento dos períodos secos, maior demanda hídrica para a agropecuária e maior risco de incêndios florestais”, afirma o meteorologista do Incaper, Ivaniel Fôro.

Com menos chuva, a tendência é de redução gradual dos níveis de rios, reservatórios, lagoas e aquíferos que abastecem cidades, propriedades rurais e atividades produtivas. Além da menor disponibilidade de água, o pesquisador explica que a diminuição das vazões também pode comprometer a qualidade dos mananciais.
“A menor ocorrência de chuvas pode favorecer o aumento da necessidade de irrigação justamente em um período de menor reposição hídrica. Além disso, a redução da umidade do solo pode comprometer o desenvolvimento das culturas mais sensíveis ao déficit hídrico e afetar a produtividade agrícola em algumas regiões”, explica Ivaniel Fôro.
Segundo o Incaper, alguns efeitos da seca, como a redução da umidade do solo, o ressecamento da vegetação e a diminuição da água em alguns cursos d’água, já são esperados durante o inverno. Caso a previsão para o El Niño se confirme, no entanto, esses impactos tendem a se intensificar na primavera, elevando o estresse hídrico nas lavouras e ampliando o risco de perdas de produtividade em culturas como café, hortaliças, frutas e pastagens.
O instituto também recomenda o acompanhamento contínuo das principais bacias hidrográficas do Estado para monitorar a evolução dos níveis dos rios e reservatórios e permitir a adoção antecipada de medidas de prevenção, caso o cenário de estiagem se agrave.

“O acompanhamento contínuo das condições meteorológicas, aliado a campanhas de conscientização e à preparação das equipes de emergência, será essencial para reduzir riscos à população, proteger áreas vulneráveis e minimizar os impactos decorrentes da seca e dos incêndios florestais”, destaca Ivaniel Fôro.
Apesar das projeções, o meteorologista ressalta que o momento é de prevenção, e não de alarme.
“O cenário não exige pânico, mas impõe planejamento estruturado. As ações governamentais e privadas devem focar na gestão preventiva da água, conscientização do consumo, planos de contingência contra incêndios florestais e suporte técnico aos produtores rurais”, conclui.









