Dessalinização é projeto caro e pouco vantajoso

O Governo do Estado publicou, recentemente, edital para manifestação de interesse para elaboração de projeto de dessalinização da água do mar. No documento é previsto, também, o desenvolvimento de estudo de viabilidade para a potabilidade da água e abastecimento da Região Metropolitana da Grande Vitória, além de Anchieta e Aracruz. 

De acordo com o vice-governador e secretário de Estado de Desenvolvimento, Ricardo Ferraço, a publicação do edital é inspirada na experiência chilena de combate à escassez de água. 

“Estivemos no Chile para conhecer de perto a experiência exitosa da usina de dessalinização em operação no deserto de Atacama, que desenvolve o processo usando água do Oceano Pacífico para abastecer residências na localidade. No final do ano passado, a empresa espanhola GS Inima protocolou manifestação de interesse na Sedes para instalar usinas de dessalinização em território capixaba. Nossa expectativa é de que com a publicação do edital de PMI mais empresas com qualificação comprovada demonstrem interesse no processo”, disse Ferraço.

O processo, no entanto, não é algo que traga entusiasmo a especialistas em meio ambiente e recursos hídricos, que apontam um possível esforço desnecessário frente aos benefícios da empreitada.

De acordo com o especialista Marcelo Morretti, professor do mestrado em Ecologia e Sistemas da Universidade de Vila Velha, apenas o custo em energia para dessalinização da água deve ser um fator contrário à chegada da tecnologia por aqui.

“É um processo muito custoso em termos de energia elétrica. Existem diferentes maneiras de se extrair a água do mar e, em nenhuma delas, isso é algo barato de se fazer. Acredito que, se associado a fontes de energia limpa, como solar ou eólica, o projeto possa até se tornar algo próximo do viável, mas certamente não é o recomendado para nossa região”, afirma o professor.

Ele também cita a dificuldade de se tornar a água extraída em algo próprio para o consumo humano. “Tirar o sal é um processo diferente de potabilidade. Existe, por exemplo, água destilada que utilizamos em laboratório e é descartada para consumo humano justamente pela total ausência de sais ou qualquer outro mineral. Definitivamente não é algo simples”.

Impactos

O posicionamento de Marcelo é baseado justamente na experiência utilizada como exemplo pelo governo para tentar a empreitada por aqui. No Chile, assim como no Oriente Médio ou mesmo em áreas remotas dos Estados Unidos, o processo de dessalinização é utilizado pela ausência total de outros recursos, o que impossibilita o tratamento de água doce. No caso dos EUA, especificamente, algumas usinas de dessalinização são instaladas ao lado de termoelétricas com a tentativa de amenizar os impactos do processo utilizando parte do calor gerado na fabricação de energia.

Outro ponto levantado por Marcelo está no impacto ambiental gerado por uma usina como a pretendida. Segundo o professor, é necessário um estudo para além da nada simples produção de água potável, visando também o descarte de materiais gerados no processo. 

“Pense que é o mesmo processo que utilizamos para a produção de sal de cozinha e que, de toda água que extrairmos, também estaremos extraindo uma quantidade muito grande de sal. Isso deve ser aproveitado de alguma forma e não pode simplesmente ser devolvido ao mar”, alerta o professor, que fala sobre a alteração no PH da água e impacto direto na vida marinha.

“O que temos é um mau uso dos recursos hídricos”

Questionado sobre qual seria sua alternativa, enquanto especialista, para a proposta, o professor é categórico em dizer que a saída não deveria ser por este caminho. 

“Há outras maneiras e realmente fico surpreso de ver uma proposta como essa sendo levantada em um lugar rico em bacias hidrográficas como o Espírito Santo. Nós estamos dentro de uma região de mata atlântica e não sofremos esse nível de escassez de água. Ao contrário, o que temos é um mau uso de nossos recursos hídricos e isso deve ser combatido através de políticas públicas, educativas e de incentivo à preservação de nossas nascentes, por exemplo”, concluiu.

O Procedimento de Manifestação de Interesse (PMI) Nº 001/2024, publicado na última sexta-feira (9), é o chamamento público para que empresas possam apresentar estudo de viabilidade e realizar o levantamento de dados sobre o projeto de dessalinização de água do mar e abastecimento da Região Metropolitana. A partir da publicação do edital de PMI, as empresas interessadas terão 30 dias para manifestar interesse quanto à elaboração dos estudos de viabilidade do projeto. 

A iniciativa faz parte da carteira do Programa de Parcerias de Investimentos do Espírito Santo (PPI-ES) e será conduzido pela Secretaria de Desenvolvimento (Sedes) e a Companhia de Saneamento Espírito-santense (Cesan).

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