Você sabe quantos monumentos a cidade de Vitória tem? Pois quem respondeu que não terá uma oportunidade de conhecer cada um deles e suas histórias, não apenas os que estão na capital mas em todas as cidades do Espírito Santo. O Laboratório de Extensão e Pesquisa em Arte (LEENA) da UFES está realizando um projeto utilizando impressora 3D para confecção de miniaturas de monumentos capixabas.
O professor do Centro de Artes, coordenador do LEENA e do Programa de Pós-graduação em Artes da UFES, José Cirillo, explica que em 2011 o Laboratório começou a realizar uma grande pesquisa de inventário geral dos monumentos nos 78 municípios do Espírito Santo.
Hoje já existe um inventário principal desses municípios. Durante a pesquisa foi levantada a pauta de trabalhar a questão dos monumentos com cegos ou pessoas que tem baixa visão ou deficiência de visão, porque descrever um monumento é diferente de tocá-lo. Com isso, surgiu a ideia e a coragem em um projeto de pesquisa para a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Espírito Santo (Fapes) com a perspectiva de pedir uma impressora 3D e tentar fazer essas miniaturas dos monumentos em modelagem.
“Com o andamento dos trabalhos, começamos a perceber que essa ação educativa que visava, inicialmente, os portadores de deficiência visual, podia ser muito amplificada e que poderíamos trabalhar uma perspectiva formalmente de educação patrimonial, colaborando para a preservação e a conservação dos monumentos”, conta ele.
Segundo o professor, os monumentos são esquecidos na cidade e essa ampliação de uso nas miniaturas 3D pensava em uma ação educativa, que forma os professores e alunos da educação básica para a chamada aprendizagem afetiva, de estabelecer uma relação de afeto com estes monumentos.
Dessa forma, foi pensado em todo um conjunto de materiais chamado de kit paradidático, formado pelas miniaturas 3D, mas também outros processos em desenvolvimento, como gesso, uma tecnologia mais acessível nas escolas, em especial nas públicas, para que o professor de arte possa trabalhar com os alunos.
Segundo Cirillo, se o professor de arte leva esses monumentos para dentro da sala de aula, passa a fazer parte daquilo que constitui o aluno enquanto sujeito e cidadão. “Se a gente trabalhar nessas relações lúdicas e de afeto com essas crianças, vamos ter um adulto que olha para aquele monumento não de uma maneira insignificante, mas que o entende, porque aquele momento fez parte da vida dele”, explica ele.
O coordenador acredita que esse projeto vai formar um cidadão que compreende a importância e vai desenvolver estratégias de preservação desses monumentos. “Automaticamente, isso é um trabalho de educação patrimonial, porque um povo sem entender o seu passado é um povo que dificilmente constrói um futuro que seja significativo”.

Das ruas para os tabuleiros
Está sendo desenvolvido um conjunto de jogos de tabuleiro que tratam destes monumentos, com jogos de memória, quebra-cabeças físicos e digitais, disponíveis para que o professor possa usar no celular dos alunos ou no tablet da escola.
“O sistema que usamos para criar esses quebra-cabeças permite que o professor trabalhe no aplicativo tanto com seis peças, quanto com 300, com 1 mil peças. Isso permite que o mesmo instrumento atravesse todo o processo de formação na escola”, informa ele.
Uma das impressões é a miniatura do Monumento Dona Domingas, uma mulher negra e idosa, catadora de papel, que está na Avenida Jerônimo Monteiro, na área lateral da escadaria do Palácio Anchieta, Centro de Vitória.
Outros monumentos já impressos são o Índio Araribóia, a Cruz Reverente, alguns bustos entre eles o do Tiradentes, o monumento universitário do professor Vilar, o Cristo de Colatina e o monumento aos imigrantes na entrada da Ilha do Boi, mas a grande maioria dos monumentos são encomendados pelo poder público.
“Ao longo deste nosso percurso pelo Espírito Santo, havia objetos que ocupam o espaço do monumento, mas que não foram feitos pelo poder público. Um desses grandes exemplos é o Tigrão de Guarapari, uma escultura pública que chamamos de monumento espontâneo porque ela não nasce do poder público, mas da própria vontade das pessoas de fazer uma intervenção na cidade”, relata ele.
O professor ressalta que é interessante porque esses objetos são carregados de afeto e são mais protegidos do que monumentos que estão bronzeados pela cidade. “É nisso que a gente acredita, que se os professores trabalharem essa relação de afeto com esses monumentos de concreto, eles vão ter tanta relação de pertencimento quanto os monumentos espontâneos”.
Monumento Dona Dominga

A professora e pesquisadora do LEENA, Fabíola Fraga explica que o Monumento a Dona Dominga é um verdadeiro símbolo da resiliência de uma população invisibilidade no cotidiano, mas que insiste em desafiar com sua luta.
“Sobre essa senhora, o que se pode afirmar é que se tratava de uma negra, periférica, catadora de papel e outros materiais que pudessem ajudar na subsistência da família”, informa ela.
Segundo Fabíola, o monumento foi inaugurado no início da década de 1970 e idealizado em 1959/60 pelo artista italiano Carlo Crepaz, radicado no Espírito Santo e vizinho de Dona Domingas no Morro do Pinto, Santo Antônio.
“A academia nos ensina que monumentos são guardiões da memória e dialogam com as pessoas de forma atemporal, unindo passado, presente e futuro. No caso específico de Dominga, nos convida a uma reflexão sobre verdadeiramente qual o papel dessa mulher e seus iguais na contemporaneidade”, comenta ela.
Segundo a professora, através desse estatuário, espera-se que a história de um lugar, muitas vezes contada através dos monumentos públicos, seja restaurada assim como a dessa mulher.
“Domingas nunca foi mendiga, tampouco ex-escrava, era simplesmente um extrato da sociedade que, infelizmente, está presente cada vez mais forte nas grandes metrópoles: os esquecidos pelo poder”, afirma ela.









