Competente, mulher e negra, Rosemary de Paula quer ser desembargadora

“Muitos dizem que o Tribunal não vai colocar uma mulher negra lá este ano. Mas eu digo o seguinte: Não se trata de uma mulher negra, mas se trata de uma mulher competente, profissional, que sabe o que faz e que é negra”, dispara a advogada Rosemary Machado de Paula, de 63 anos, que está concorrendo à vaga de desembargadora do Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES) pelo Quinto Constitucional.

Ela ressalta que não quer ir para o Tribunal por ser negra e mulher, e diz que chama a sua atenção o fato de nunca uma mulher ter sido escolhida desembargadora do TJES pelo Quinto Constitucional.

“Eu acho isso uma vergonha, uma lástima. Numa OAB [Ordem dos Advogados do Brasil] que é maioria mulher, numa população que é maioria mulher, numa população que é maioria negra e parda, como é que eu não tenho um espelho pra me refletir no TJ?”, questiona.

A candidatura de Rosemary ao Quinto Constitucional é um passo em direção a um sonho maior. “Representatividade. Ter uma mulher competente no lugar que lhe pertence. Não se esquecendo de citar que nós somos maioria. Eu peço voto não só pra mim, eu peço para todas as mulheres, porque se é difícil aceitarem uma mulher negra no Tribunal, que seja uma branca, mas que seja uma mulher desta vez. Acredito muito que a nossa vez é agora. E eu espero que seja uma mulher militante, no sentido de estar ladeada com os propósitos femininos”, reforça.

Lutas e vitórias

Rosemary nasceu e cresceu em Jardim Marilândia, um bairro humilde de Vila Velha. “Minha infância foi pobre, infelizmente. Nós éramos cinco irmãos, um já falecido. Minha mãe é negra e meu pai era branco. Sou uma mulher negra periférica e isso, lamentavelmente, me trouxe muitas dificuldades na vida. Nós tivemos uma dificuldade financeira muito grande. Meu pai era analfabeto, mas muito trabalhador, minha mãe tinha pouco estudo, e ela não queria que a gente tivesse a vida que eles tiveram”, detalha.

Segundo Rosemary, sua mãe criou os irmãos e ela para a vida, para o sucesso. “’Vocês vão ter apartamento, vocês vão ter casa, vocês vão ter carro’. Isso era o que ela sempre quis que conquistássemos para a nossa vida pelos nossos próprios méritos”, relata a advogada, contando que sua mãe sempre encorajou os filhos a lutarem pelo próprio sucesso em vez de desejar que eles construíssem as vidas baseados em casamento ou dependência.

“Era comum na época da minha mãe ir para a casa dos pais depois de casada morar num puxado, era comum na periferia. E a mamãe deixava claro que ela nunca ia querer isso pra nossa vida, nunca ela ia aceitar que a gente fizesse um puxadinho pra morar lá. E isso se concretizou porque, ao invés de eu morar num puxado na casa da minha mãe, eu dei moradia para os meus pais”, diz.

Preconceito

Mas, até chegar lá, Rosemary encontrou muitas dificuldades, porém, nenhuma a fez desistir. Pelo contrário, ela frisa que trabalhou e estudou muito para conquistar o seu lugar ao sol.

É certo, no entanto, que tudo poderia ter sido menos sofrido, na opinião dela. A advogada lembra-se de inúmeras histórias de preconceito racial pelos quais ela e membros de sua família já passaram. Em um relato emocionado, ela diz que é uma mulher que defende muito gênero e raça, e explica o motivo.

“Porque é uma coisa que dói. Eu sofri. Minha vida poderia ter sido muito mais simples se só tivessem me deixado trabalhar e atuar. Mas falta muito respeito para o negro, falta muito respeito para a mulher negra. Hoje eu sou muito respeitada, mas eu ainda vejo muito isso com os colegas. Toda hora você tem que estar se defendendo, debatendo, é cansativo. Eu tenho sempre que fazer mais que os outros e isso me cansa. E eu não quero que as pessoas passem por isso. E é um dos motivos por que eu estou entrando nessa briga para ser desembargadora”, diz, emocionada.

Questionada se é a favor do sistema de cotas, Rosemary é categórica: “Sim! Quantos brasileiros se formaram médicos só por meio de cota. Ele é pior do que os outros? Não. É que, na verdade, ele não tem oportunidade financeira. Falam: Ah, mas é pública. Pois é, mas até para passar em universidade pública tem que ter tempo para estudar. Eu trabalhava em dois, três empregos, como é que vou ter tempo pra estudar? Quando se fala em cota é só pra privilegiar preguiçoso. Não é! É resgate. Conheço vários que só conseguiram fazer faculdade de Medicina e de Direito por conta de cota. Se o Brasil não elevar o estudo dos negros, nós vamos estar sempre nessa posição de subserviência. Quantas vezes eu fui vítima de racismo! E você é sozinha. Não tem pra quem você relatar isso”, argumenta.

Profecia

Por trás do jeito resiliente de ser, Rosemary carrega a história de uma infância marcada não só pela luta dos pais para criar bem os filhos, mas também pelo carinho do avô materno. Ele, sempre que visitava a família, levava histórias de matas e lendas. Eram contos de saci-pererê e curupira que tiravam o sono do criançada e povoavam de imaginações a mente curiosa da menina.

“Meu avô era maravilhoso! Ele tinha pouco estudo e, às vezes, quando eu lia alguma coisa para ele ou dava alguma explicação, ele dizia: ‘Você vai ser uma grande advogada’”, lembra Rosemary, para quem as palavras do avô ressoaram como uma profecia.

Rosemary encontrou nos estudos a alavanca para romper barreiras. Enfrentou a falta de recursos e teve que fazer pausas no sonho da graduação para trabalhar nos Estados Unidos, onde, entre jornadas exaustivas de trabalho, juntava economias para terminar a faculdade no Brasil.

Com uma determinação gigantesca, ela se formou e, sem heranças ou sobrenomes de peso, criou o próprio caminho no Direito. Em um escritório no Centro de Vitória, acolheu trabalhadores que, como ela, conheciam a dureza da vida.

“Tenho muitas histórias bacanas de clientes que compram suas moradias com as ações que eu ganho pra eles”, diz orgulhosa por saber que seu trabalho pode melhorar a vida de pessoas.

Rosemary diz que no escritório os clientes são recebidos com abraços e, às vezes, retribuem com presentes inesperados, como um galo caipira ou um pão caseiro. “Eles não me pagaram honorários? Não, quem me trouxe o galo, por exemplo, pagou. Era uma ação de insalubridade, o rapaz pagou os honorários normalmente. Pra mim, isso não tem preço, porque você parar pra fazer um pão, pra limpar um galo pra trazer pra uma pessoa que já recebeu os honorários… Eu me sinto extremamente especial”.

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