Vito Beno Vervloet, de 55 anos, nasceu no pequeno município de Laranja da Terra, interior do Espírito Santo. Desde criança, mostrou um forte desejo de estudar, apesar das adversidades que enfrentava.
Oriundo de uma família humilde, onde o trabalho no campo era uma rotina diária, Vito tinha que dividir tempo entre os estudos e a lida na roça. “Na época, lá sequer tinha transporte escolar. Eu pedalava 12 km pra ir para a escola e 12 km pra voltar. E ia trabalhar na roça”, conta.
O incentivo à educação em casa era escasso, especialmente porque os pais, pessoas com pouco estudo, tinham a necessidade de ter o apoio dos filhos no trabalho na roça. Os irmãos seguiram o caminho tradicional da família, optando por concluir somente o ensino primário. Apenas o caçula finalizou o ensino secundário graças ao incentivo do irmão. Mas Vito tinha outros planos.
Determinado a mudar o destino, ele enfrentou a resistência do próprio pai – hoje já falecido – para sair de casa e continuar os estudos na Grande Vitória. “Meu pai tinha medo de que eu me perdesse, por isso ele queria que eu continuasse na roça. E também para ajudá-los a lavrar a terra, já que eles não tinham condições de me ajudar a estudar. Eu louvo meus pais, que me deram a vida. Sempre carinhosos, tanto que queriam que eu ficasse lá”, analisa o advogado.
Vito concluiu o ensino primário com 16 anos. Em 1986, aos 17, ele tomou a corajosa decisão de deixar Laranja da Terra e foi morar com uma família conhecida em Vila Velha. Lá, com o apoio de um professor que o incentivou a tentar uma vaga na Escola Técnica Federal do Espírito Santo, Vito conseguiu ingressar na instituição e começou a trilhar o caminho que transformaria a vida.
No entanto, a jornada não foi fácil. Ele trabalhou como ajudante de pedreiro para custear as despesas enquanto cursava o 1º ano do Ensino Médio à noite na Escola Estadual Godofredo Scheneider, na Prainha.
“Eu conheci um professor que me chamou à parte, um belo dia, e me disse: Vito, você não é aluno pra estar estudando em escola pública estadual, muito menos à noite. Eu disse pra ele: mas, professor, que farei eu? É o único caminho que eu tenho. Aí ele falou: Não, eu trabalho em uma escola muito boa, chamada Escola Técnica Federal do Espírito Santo, e, quando abrir inscrição lá para o processo seletivo, eu vou te passar as informações e você pode de repente ingressar nessa escola. Eu acho que você passa na prova sem problema nenhum com a capacidade que tem”, lembra Vito.
Ao longo dos anos, Vito enfrentou e superou inúmeros desafios para alcançar os objetivos. A persistência o levou a iniciar os estudos na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), onde estudava Física, curso para o qual ele escolheu prestar vestibular, inicialmente, porque ele era muito bom em exatas.
Em paralelo ao curso superior, ele dava aula de Matemática e Física na rede pública estadual. Mas a falta de pagamento regular dos professores pelo Governo do Estado e a difícil realidade financeira da profissão o fizeram reconsiderar o caminho.
No 6º período de Física, Vito decidiu mudar para o curso de Direito, buscando uma carreira que pudesse lhe proporcionar maior estabilidade e dignidade. Ele tentou o vestibular na Ufes, onde ficou em terceiro lugar como suplente. Mas ele nunca soube se a universidade o chamou, pois ele se mudava muito de casa em razão da condição financeira, o que dificultava o contato com ele.
Vito formou-se em Direito na Universidade Vila Velha (UVV) em 1997, depois de contar com a ajuda de dois amigos que pagaram a matrícula inicial. A partir daí, ele conseguiu custear as mensalidades por conta própria, mesmo com atrasos.
Em 2007, ele voltou a Laranja da Terra, não mais como o jovem agricultor, mas como assessor jurídico da Câmara Municipal de Vereadores, cargo para o qual ele prestou concurso público e que ocupa até hoje.
“Quando eu terminei a minha faculdade, eu tinha o sonho de fazer um concurso bom. Os meus colegas de turma imaginavam que eu seria certamente aprovado num concurso pra magistratura, para o Ministério Público ou outro equivalente. Mas, quando eu terminei a faculdade, que eu estava estudando e trabalhando, fiquei sabendo que eu seria pai, e minha filha nasceu em 1999, então eu não pude me dedicar totalmente para passar num concurso de envergadura. Eu tive que cuidar daquela criança que nasceu de mim e dar estrutura a ela, para que ela tivesse bons dias, mas eu sempre sonhei em atuar num cargo de responsabilidade, com responsabilidade e ser útil para a sociedade”, explica Vito.
“Já tenho um cargo, hoje, que exige grande responsabilidade, porque estou lidando toda hora com leis que cuidam do dinheiro público. Agora, eu entendo que, com minha capacidade, a minha vontade de mudar a minha sorte, eu posso ser mais útil à sociedade. Desde criança eu construí caminhos. Então sair do interior e chegar aqui como eu cheguei… Eu nasci em Laranja da Terra e depois voltei pra lá como assessor jurídico da Câmara Municipal de Vereadores”, complementa.
Após terminar o curso de Direito, Vito fez estágio na Caixa Econômica Federal e, em seguida, começou a advogar. Ele conta que frequentou a Escola da Magistratura do Trabalho, especializou-se em Direito Civil e Processo Civil na Unesc, de Colatina; especializou-se em Gestão Governamental e Responsabilidade Fiscal na Universidade Sul de Santa Catarina; fez especialização em Direito Administrativo na Universidade Gama Filho; em Direito Constitucional na Faculdade Integrada de Fortaleza, e também fez especialização em Gestão Pública Municipal pelo Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), além de ter cursado mestrado na UVV.
“Depois do mestrado, ingressei no doutorado da FDV [Faculdade de Direito de Vitória] em Direitos e Garantias Fundamentais, em 2017, mas em 2018 minha filha passou pra medicina, então eu tive que fazer escolhas, porque as despesas são enormes. Pra priorizar a vida dela, eu deixei o doutorado depois de concluir todas as disciplinas e faltando só concluir a tese e fazer a defesa da tese”, conta.
Agora, Vito busca um novo desafio na carreira: tornar-se desembargador pela vaga destinada aos advogados pelo Quinto Constitucional. Com a experiência adquirida ao longo dos anos, ele deseja contribuir para a celeridade e a efetividade do Judiciário.
O objetivo é desenvolver políticas públicas que possam aprimorar o trabalho do Judiciário e garantir que a justiça chegue a todos, especialmente aos mais desfavorecidos. Vito acredita que, com o conhecimento e vivência, pode ajudar a resgatar o respeito e a confiança no sistema judicial, tornando-o mais acessível e eficiente para todos.
“Pretendo trabalhar desenvolvendo o Judiciário no sentido de tornar a Justiça mais célere, mais efetiva, mais coerente, e fazer com que as pessoas possam ter as demandas apuradas dentro de um tempo mínimo razoável para atender as pretensões. Fazer a diferença buscando construir políticas públicas pra melhorar algumas coisas dentro do Judiciário que podem ser melhoradas. Eu sempre brinco que, por melhor que seja, a gente sempre consegue melhorar. E nosso Judiciário clama por modificações, sobretudo para atender os menos favorecidos, a classe pobre, que, infelizmente, tem direitos que sequer leva ao Judiciário, porque não sabe como chegar lá”, conclui.











história de sucesso. sabia um pouquinho da sua luta. sempre em frente. o sonho, a esperança por dias melhores enaltece a existência humana. abraços.