No dia 23 de junho é celebrado o “Dia da Mulher na Engenharia”. A data, criada pela Women’s Engineering Society (WES), tem como objetivo fortalecer, lembrar e mostrar que essa profissão também pode ser exercida por mulheres e que é necessário que as empresas abram espaço para que as profissionais possam mostrar seu potencial e sejam acolhidas sem qualquer discriminação.
Segundo o Conselho Regional de Engenharia do Espírito do Espírito Santo (CREA-ES) a área da engenharia com maior registro de mulheres é a civil com 2.965 cadastros, seguida de engenharia ambiental (519), engenharia elétrica (249), engenharia mecânica (243), engenharia química (227) e engenharia de petróleo (133). Das 47 áreas existentes, 27 modalidades não alcançam nem 10 registros femininos.
Por um longo período da história, conhecimentos técnicos e científicos eram considerados campos de domínio masculino. A engenharia, por exemplo, que era tradicionalmente ocupada por homens, atualmente também é lugar para elas. Entretanto, apesar dos avanços e conquistas do público feminino, ainda existem muitos desafios para se enfrentar.
De acordo com o Conselho, apesar do número de engenheiras registradas ter aumentado nos últimos anos, elas continuam representando uma esmagadora minoria dentro da área. Atualmente, 5.345 engenheiras estão registradas na instituição, um número bem abaixo dos engenheiros, calculados em 15.571 profissionais.
Para a engenheira e coordenadora do Programa Mulher do Crea-ES, Mariana Mansk, embora as mulheres tenham feito progressos significativos, elas ainda são minoria no segmento. “Enfrentamos de forma frequente desafios relacionados à cultura do local de trabalho, pois, a indústria e os grandes cargos de liderança e gestão ainda são dominados por homens”, destacou.
Resultados
Segundo ela os desafios e obstáculos ainda são grandes, mas alguns resultados já estão aparecendo e isso não pode ser esquecido. “Já vemos alguns resultados de nossas pautas, pois os números tendem a se encaminhar para um cenário de equidade de gênero. Mas, ainda há muito trabalho pela frente”, contou.
Mariana assegura que atualmente todas as engenharias possuem uma diferença visível quanto a sua composição de homens e mulheres, sendo normalmente a minoria ocupada por elas. A prática do machismo na área é uma realidade que persiste até os dias de hoje. Muitas mulheres sofriam e ainda sofrem com esse preconceito desde suas salas de aula até, enfim, o mercado de trabalho, algo que pode, assim, interferir em sua ascensão dentro do ramo. “Muitas vezes somos subestimadas ou comparadas, sendo julgadas pelo fato de ser mulher e não pelo currículo construído ao longo de uma vida profissional e a capacidade técnica que possuímos”, frisou.
Dentro da sala de aula a diferença também é notada. De acordo com a Universidade Federal do Espírito Santo, atualmente os cursos de engenharia da instituição contam com 2.080 alunas matriculadas. Quando o assunto é o sexo masculino, os números quase dobram, somando 4.025 homens matriculados.
Programa “Mulher”
Criado em março de 2021 pelo atual presidente da instituição, o engenheiro Jorge Silva, o Programa Mulher do Crea-ES tem como objetivo promover a equidade de gênero nas áreas da engenharia, da agronomia e das geociências, apoiando as profissionais em sua carreira e incentivando a participação feminina nos processos decisórios.
Segundo a coordenadora, entre as iniciativas desse movimento está a de garantir que as mulheres engenheiras tenham as mesmas oportunidades e ocupem seus lugares de direito. “O programa oferece ambientes de discussão e acolhimento, sendo um suporte para as profissionais que enfrentam qualquer situação discriminatória, fornecendo orientação e recursos para acolher e ajudar as mulheres a lidarem com essas questões e garantir que suas vozes sejam ouvidas”, explicou.
Para o presidente do Crea-ES engenheiro Jorge Silva, o Programa Mulher do Crea-ES tem estimulado debates e incentivos a integração feminina na engenharia. “As engenheiras possuem um papel essencial para o Conselho e por isso trabalhamos pela equidade de gênero. Incentivamos e apoiamos iniciativas que promovam a inserção e a valorização das mulheres na engenharia. É um orgulho termos profissionais tão competentes atuando na área tecnológica”, disse.
Ocupando espaços: engenharia também é lugar de mulher
Embora os cursos de exatas tenham a tradição de serem dominados pelos homens, a participação feminina tem aumentado nos últimos anos. Formada em Engenharia de Alimentos pela Universidade Federal de Viçosa, Bárbara Selita contou que desde os tempos da escola sempre teve uma inclinação para área de exatas.
“Durante o ensino médio, acabei escolhendo a engenharia pela facilidade e gosto nas disciplinas de matemática e química. Por meio de visitas a UFV acabei conhecendo mais sobre o meio da engenharia e escolhi a que mais me identificava por trabalhar com meios de transformação de uma matéria-prima em um produto final”, explicou.
Bárbara contou que apesar de não ter sofrido preconceito na área, já ouviu inúmeros relatos de outras mulheres na área de engenharia sobre o quão difícil é se impor e mostrar autoridade, principalmente em chão de fábrica. “Infelizmente, há ainda bastante machismo dentro da engenharia. Isso desde a graduação até o mercado de trabalho. Homens descreditando falas e trabalhos, com superioridade intelectual, tentando calar a voz de uma mulher e não levando o trabalho delas com seriedade, principalmente em cargos de liderança, onde mulheres tentam a todo momento se provar para os outros”, pontuou.
Segundo a engenheira, apesar dos avanços, a luta das mulheres ainda está longe de acabar. No mercado de trabalho, elas ainda serão questionadas e terão suas capacidades colocadas em dúvida, mas apesar disso elas continuam marcando presença e mostrando a sua voz.
“Podemos observar pelas pessoas mais ricas, em cargos de poderes, quais delas são mulheres? Temos muitas referências para serem seguidas e muito o que mudar nesse mundo ainda. Todo dia estamos reivindicando nossos direitos e tentando ser ouvidas. Houve sim uma evolução e temos mulheres ocupando cada vez mais espaço na engenharia, mais mulheres buscando independência, conhecimento e tomando as rédeas da sua própria vida.”, finalizou.









