Além de debates, apresentação de artigos e resumos expandidos, o Seminário Trabalho na Cultura 2026, que acontecerá nesta quinta (7), sexta (8) e sábado (9) no Museu Capixaba do Negro (Mucane), Centro de Vitória, contará também com uma programação cultural diversificada. Artistas capixabas de várias linguagens farão apresentações abertas ao público.
O Seminário Trabalho na Cultura tem como tema “Trabalho, territórios, políticas públicas em disputa”. O evento, que reunirá pesquisadores, estudantes e trabalhadores da cultura do país inteiro, propõe reflexões sobre as políticas culturais e os impactos no trabalho na cultura. O objetivo é debater experiências no Brasil e no mundo e analisar os desafios e conquistas do setor. O seminário é aberto ao público, não havendo necessidade de fazer inscrição para participar.
“O Seminário vai acontecer no Museu Capixaba do Negro, espaço que é resultado da luta do povo negro que resiste até hoje para sua continuidade. Nada mais justo que pensar uma programação majoritariamente negra e também trans. Contaremos com artistas de muito talento que lutam o ano todo para trabalhar em condições dignas e com reconhecimento do seu trabalho, não poderia ser diferente”, diz a curadora do evento, Karlili Trindade.
A primeira apresentação cultural será a performance “Abre Caminhos”, com Giovanna de Oliveira, Bruna Leite e Jadson Titânio, no primeiro dia do evento, às 18h. Giovanna realiza atividades como percussionista (Neojiba), ilustrador e agroecólogo no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) na Bahia.
Bruna é percussionista capixaba e licenciada em Música pela Faculdade de Música do Espírito Santo (FAMES). Também atua em rodas de samba e choro da Grande Vitória, tocando pandeiro. Além disso, é percussionista da Filarmônica de Mulheres do Espírito Santo e percussionista de coral. Jadson Titânio é ator, coreógrafo, pesquisador Cultural e educador social. Estudou dramatização teatral no Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) de Montanha, no norte do estado e é bailarino da Companhia Vitória Street Dance.
Também nesta quinta tem início a exposição “Cacto Mulher Transexual: Territórios de Si e Corpo-cacto que resiste em Arte de mulher trans”, de Cláudile Sabino, artista plástica, mulher trans, parda (negra) e surda, que afirma o corpo como campo de insurgência, memória e criação. Cláudile é graduada em Artes Plásticas pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), com formação interdisciplinar em Arquitetura e Urbanismo e Pedagogia. Sua pesquisa transita entre performance, fotografia e instalação, mobilizando visualidades críticas para tensionar normas e reescrever presenças historicamente silenciadas.
Outra programação cultural da sexta-feira será a apresentação de Slam, com Adrielly, às 18h. Multiartista independente, Adrielly é educadora social no Núcleo Afro Odomodê, Articuladora Cultural, integrante do coletivo Ufeslam, Poeta, Slammer, terceiro lugar no Campeonato Nacional de Poesia Falada (SLAM BR), formada em Rádio e Televisão, oficineira, MC e atriz.
No último dia, Let’s, um dos grandes nomes da música preta e trans capixaba, sobe ao palco do Mucane às 9h. Sua sonoridade atravessa o Afro Groove. Em sua trajetória artística, o artista desenvolve trabalhos que entrelaçam arte, educação e ancestralidade, com foco nas sonoridades afro-brasileiras e nas vivências da comunidade LGBTQIAPN+.
Estatuto da Cultura
Um dos temas que serão abordados no Seminário Trabalho na Cultura 2026 será a elaboração do Estatuto do Trabalhador da Cultura, das Artes e Eventos, que busca a regulamentação e proteção do trabalho no setor cultural. O tema será abordado pelo pesquisador Frederico Augusto Barbosa da Silva, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) do Distrito Federal, na mesa Políticas Culturais em dados e disputa.
O Estatuto buscar criar um marco legal para o setor, reconhecendo características que são próprias a ele, como a intermitência e a existência de múltiplos vínculos, o que o distancia das regras da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e da possibilidade de uma contribuição previdenciária contínua. “O trabalho cultural historicamente esteve à margem dos modelos tradicionais de regulação, exigindo soluções jurídicas inovadoras e adaptadas à sua realidade. A ideia é construir um novo marco regulatório capaz de conciliar flexibilidade produtiva com proteção social”, diz Frederico.
Alguns dos eixos centrais da proposta, aponta, são a criação de instrumentos contratuais específicos, como o contrato intermitente qualificado; a definição de parâmetros mais claros de remuneração e jornada; e a incorporação de mecanismos de proteção social voltados à renda irregular, como o seguro cultural complementar. O Estatuto também enfrenta desafios contemporâneos, como os impactos da inteligência artificial sobre o trabalho criativo, criando regras para uso de inteligência artificial que incluem proteção da imagem, da voz e do estilo dos artistas.
Além disso, o Estatuto amplia o conceito de trabalhador da cultura, não o limitando aos artistas, mas englobando outros profissionais que atuam no setor, como técnicos e produtores.
Programação completa
A edição de 2026 selecionou 15 resumos e relatos de experiência que serão apresentados ao longo da programação com autores de várias cidades do país. A programação também inclui debates. No dia 7, às 19h além de Frederico Barbosa, a mesa Políticas Culturais em dados e disputa contará com a presença de Lia Calabre (RJ), da Fundação Casa de Rui Barbosa; Karlili Trindade (ES), do Observatório Grito da Cultura; e Genildo Coelho (ES), do Ádapo Instituto de Preservação do Patrimônio Cultural.
No dia 8, Os desafios do futuro do trabalho na cultura é o tema do debate com Edcarlos R. Bomfim (BA), do Coletivo JACA; Bruno de Deus e Magnago (ES), da Casa Sinestésica; e Angela Couto (SP), do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões no Estado de São Paulo (Sated/ES). O último debate, no dia 9, com o tema Cultura em emergência: entre o apagamento e a resistência, conta com a presença de Flávia Santos (ES), do Quilombo Angelim II, em Conceição da Barra; Thiago Maiandeua (PA), da Rede Cuíra e liderança Tupinambá; Penha Gaspar (ES), do Fórum Chico Prego; e Bianca Tupinikim, da Taba Oiepengatu (ES).
O Seminário é uma realização da Associação Cultura Capixaba (CUCA) e do movimento Grito da Cultura com apoio da Secretaria Estadual da Cultura (Secult), Secretaria de Cultura de Vitória e Ciclo Escola. O projeto é viabilizado pela indicação da emenda parlamentar da Deputada Camila Valadão. Sua primeira edição foi realizada em maio de 2025. Os trabalhos apresentados foram publicados nos anais do evento, que podem ser acessados aqui.
Karlili Trindade aponta a importância dele para as discussões sobre o setor cultural. “O Seminário se consolida como espaço de debate sobre políticas culturais e se torna destino de pesquisadores e trabalhadores da cultura de todo o Brasil, colocando o Espírito Santo na rota dos grandes Seminários. Basta observar que grande parte das apresentações de resumos e relatos são de autores de outros estados. Em 2025, foram seis apresentações. Neste ano, foram selecionados 15 textos. Um aumento significativo. Marca um amadurecimento do debate sobre o trabalho, se tornando referência”, destaca.
Cuca e Grito da Cultura
A Associação Cultura Capixaba (CUCA) nasceu em 2015 da necessidade de atender uma demanda do setor cultural em aglutinar seus agentes, profissionalizando a atuação dos trabalhadores e com isso promover projeto, ações e programas culturais e socioculturais para fortalecer a cultura no Espírito Santo, além de formar uma rede de trabalhadores da cultura para promover a cultura capixaba. O Grito da Cultura-movimento das trabalhadoras e trabalhadores das artes e da cultura é um movimento social formado por trabalhadores da cultura que nasceu em 2022 para lutar contra o desmonte das políticas públicas de cultura em Vitória, mas que está ampliando sua atuação para todo o Espírito Santo.









