Quem pode negar os talentos de uma mulher? Ninguém! E não precisaria estarmos na semana do Dia Internacional da Mulheres, afinal em todos os outros 364 dias do ano elas cantam e encantam. E dentro do Espírito Santo há grandes exemplos disso. E, mesmo que a infeliz cultura do capixaba seja valorizar o artista quando ele ganha projeção fora do estado, estamos aqui para provar que elas já explodiram de talento!
O Espírito Santo é um celeiro de talentosas artistas na música. No rock, rap, funk, axé, forró ou na popular: não há gênero musical que elas não dominam, nem quando, mesmo com o avanço, o mercado fonográfico tenta dificultar para as mulheres.
Principalmente quando o dom e a musicalidade são coisa de família, como aconteceu nas vidas de Gabriela Brown e Morenna. Segundo elas contam, seus pais e avós sempre foram musicais.
“Meus dois avôs eram amantes da música e instrumentistas, e eu sempre fui uma apaixonada, desde criança. Meus pais incentivavam e a música me salvou em muitos momentos, principalmente na adolescência, onde estava descobri a minha real personalidade, a minha identidade e era o que mais pulsava em mim”, contou Gabriela.

A semelhança com Morenna vai além da família musical. “Vim de família de músicos – lado materno cariocas dos sambas de rodas, minha mãe ouvia muita MPB, Gilberto Gil Caetano, Gal, e também música baiana. Eu cresci na Bahia, Margareth Menezes, inclusive, foi o primeiro show que fui na vida. Já do lado paterno o contato com a música clássica e internacional – Stevie Wonder, Michael Jackson que meu pai sempre foi muito fã – e eu acabei “viciando”. Minha mãe, carioca, meu pai paulista, se conheceram na Bahia, e eu nasci no Espírito Santo”, relembra a artista pop.
Essa mistura no sangue de Morenna também se projeta na música. Ela começou em rodas de samba, tem grande influência do reggae, e hoje leva a arte com o pop. A capixaba começou em 2012 com grupo de samba, em 2017 lançou a carreira autoral – Solveris – com grupo de rap e dois anos depois, autoral e solo, lançou o EP ‘Blá Blá Blá’, assinando com a gravadora Warner Music.

A árvore genealógica de Budah também fez toda diferença em sua história profissional. “Minha família sempre foi muito musical, meu avô cantava muito bem e o meu pai tinha um grupo de samba quando era mais novo. Então a música sempre esteve por perto e eu fui convidada a ir a um estúdio gravar uma música, gostei muito da experiência, fui me aperfeiçoando tanto no canto quanto na escrita, foram surgindo as oportunidades e aqui eu estou hoje”, relembra orgulhosa.
Destaque no forró pé-de-serra, Barbara Greco não é de família musical, mas brasilidades foram apresentadas por seu avô paterno desde muito cedo. A artista conta que o gênero a abraçou, mas que ela já busca novos caminhos – decisão por conta das dificuldades no cenário.
“No gênero que eu atuo tenho como maior desafio ser mulher, porque ainda é um gênero muito aberto para os homens e eu percebo que em outros isso avançou mais que o forró pé-de-serra, que é bem preconceituoso e machista. Falta abertura, oportunidade, espaços para artistas mulheres. Eu sempre quis cantar, misturar os ritmos porque o Brasil é muito rico, tem uma variedade muito grande e eu nunca gostei de me limitar. Sou uma cantora de forró, mas sou uma cantora e não quero ficar presa a esse título. Os próximos passos vão neste caminho de amadurecer em outros ritmos, sempre dentro de brasilidades”, detalhou Barbara, revelando seus projetos.
Budah também não esconde essa dificuldade. “Ser uma artista fora do eixo tem seus prós e contras, e ser mulher também! É difícil se encaixar em um gênero em que a maioria dominante é homem, mas o caminho tem sido trilhado e tem sido lindo. Eu tenho orgulho de todas as meninas que mesmo com as dificuldades tem o seu lugar na cena”, destaca a cantora e compositora de rap e blues.
O caminho do palco
Da paixão pelo ritmo e a musica até se profissionalizar como cantora, o caminho de Barbara Greco não chegou a ser, inicialmente, planejado. “Sempre gostei de ritmo, de cantar, de danças, a menina do karaokê. Mas em 2015 eu comecei no teatro e o grupo ‘Vira-lata de Teatro’ me convidou para fazer um musical sobre a Elis Regina e, ao mesmo tempo, eu que já frequentava o circuito forró pé-de-serra a partir da dança, comecei a receber convites para fazer participações em shows”.

A própria música a escolheu e, de cantar, se inspirou e em parceria com Black do Acordeon, compôs ‘Acalanto’. “A música viralizou e eu me vi, neste momento, na obrigação de formar um projeto e comecei com os shows”, explicou a cantora.
Gabi e Morenna, ao tomarem a decisão de tornar a música uma profissão, enfrentaram muitos desafios, principalmente no que tange ao emocional. “Os altos e baixos são muitos, muitos mesmo. Então acredito que desde o momento que a gente escolha essa carreira a gente já tem muitos desafios pela frente principalmente pelo fato de ser mulher, enfrentar assédio de pessoas que não nos respeitam intelectualmente como criadoras, diretoras criativas, produtoras e as inúmeras funções que a gente desempenha. Dentro da nossa própria carreira, para conseguir tornar realidade o nosso sonho e manter isso como uma profissão digna e séria, que nos dê segurança, passamos por uma série de movimentações e experiências e desafios”, relembra Morenna que desde 2019 assinou com a gravadora Warner Music.
Já para Gabriela, que faz parte do cenário estadual, a preocupação maior é ter uma saúde mental saudável para não comprometer a criação. “É uma carreira que se organiza muito para ter cabeça para continuar criando. Isso é o meu maior desafio, senão, sem a cabeça no lugar, a potência criativa fica muito ferida”.
Ela disse que subir no palco foi quase por acaso, a partir de um empurrão cheia de medo. “Uma amiga minha que produziu alguns eventos comigo e me empurrou para o palco, basicamente. Criou um evento e falou ‘vamos lançar sua carreira. Vai dar certo’. Eu morri de medo e fui mesmo assim. E desde o primeiro dia eu percebi que não, não queria estar em outro lugar que não o palco. E trabalhei para continuar estando nesse palco. Inclusive paguei para trabalhar muitas vezes, porque tudo que eu queria era estar lá. E aí começou a dar certo, as pessoas começaram a ouvir e querer mais e eu entendi que eu poderia trabalhar com isso”, resume os primeiros passos.
Desafios do cenário capixaba
Tudo o que se testa no Espírito Santo ganha o mundo. Mas, infelizmente, o coração dos capixabas só se conquista no movimento inverso – o artista precisa fazer sucesso fora para ser reconhecido pelo capixaba. Isso não depende da área de atuação.
Budah é prova disso. “Eu amo morar e ser daqui! Posso viajar e estar em outros lugares, mas fico sempre ansiosa para voltar pra casa. Os capixabas apoiam e acompanham meu trabalho, mas poderiam apoiar mais. Acredito que tenho meu espaço e respeito aqui no Espírito Santo, mas infelizmente tive que ter nome em outros lugares para depois ser valorizada aqui. Mas aconteceu e eu tenho muito orgulho de toda a minha caminhada”.

Uma das poucas representantes do forró pé-de-serra mulheres Barbara Greco define que entre apoiar e incentivar sua carreira há uma grande distância. “Muitos artistas acabam saindo daqui e voltando para conseguirem ser valorizados. Eu tenho um público muito legal aqui, no Brasil e até fora, pessoas que curtem meu trabalho, admiram, mas entre isso e apoiar existe um abismo”.
Gabriela Brown relaciona o estado com uma ilha e tenta tirar as vantagens disso. “Ser uma cantora capixaba é ser uma cantora dentro de uma ilha, com a vantagem da circulação meio fechada em si, afetiva pela proximidade com o público e a intimidade. Porém, também é cruel”.
Na avaliação de Brown, o apoio fica menos com o publico e mais com os outros artistas. “Eu acho que os artistas capixabas se apoiam, e isso faz mais artistas terem coragem de se expor e começar a trabalhar com essa pluralidade sem a necessidade de uma necessidade de aprovação. Isso é essencial para que a cena artística cresça em conjunto”, defendeu.
Morenna critica não só o comportamento capixaba diante do artista da terra, mas da própria falta de investimento de produtores e governos locais. “A gente só sente falta mesmo de uma cena aquecida em relação a todo o contexto, não só do público, porque acho que o público quer muito consumir a gente, quer ver a gente nos lugares, mas a gente precisa de toda uma outra estrutura, né? Em volta dessa máquina do entretenimento, que são as festas, que são os festivais, que são esses locais para gente se apresentar, que são eventos internacionais que venham para o nosso estado. Então a gente precisa toda movimentação na cultura para que o público capixaba seja abastecido dentro do seu próprio estado e a gente não precise ir para outro estado”, opinou.
Projetos: do coração à prática
O show não pode parar e para dar sequência a um mercado iniciado no século XX, as artistas capixabas têm muito a realizar. E os projetos são ousados. Barbara Greco, por exemplo, já projeto gravação de um álbum que não terá o forró como único gênero. Ela quer, ainda, parcerias.
“Hoje eu tenho um álbum gravado voltado para o gênero forró pé-de-serra e tenho vontade de produzir mais outros gêneros dentro dessa pegada de brasilidades. Tenho projetos paralelos, de samba, de música brasileira”. Budah também busca novas experiências. “Me estabelecer e sempre buscar novas experiências na indústria da música. Quero estudar mais e ver aonde eu posso chegar!”, revelou.
Gabriela Brown disse que suas metas são de ter uma carreira sustentável, que consiga captar frutos e transformá-los em novos produtos, em novos clipes, novos discos. “Eu estou querendo lançar um disco esse ano. Se der certo vai dar certo. E e circular mais Brasil tocar em uma quantidade de lugares possíveis porque eu amo fazer show e trocar mais com o meu público, cada vez mais”, traçou.
Um álbum completo e novinho também está nos planos de Morenna. “Minha meta principal hoje é construir o meu primeiro álbum, eu ainda não lancei o álbum completo. Essa fase da minha vida, com certeza, vai ser muito especial e eu estou com o próximo lançamento que é um um EP para lançar – ainda não é um álbum completo, um álbum longo, mas já é um lançamento que estou extremamente ansiosa para trazer. ‘Brasil’ vai retratar a nossa cultura brasileira e também muito da cultura capixaba, dos nossos costumes, da nossa cultura musical, da nossa culinária, nosso lifestyle, da nossa vivência tropical, da nossa praia, do nosso litoral maravilhoso”, revelou.










