O livro “A Brecha, Uma Reviravolta Quilombola” será lançado neste sábado (21), às 18h, na Praça de Itaúnas, em Conceição da Barra, norte do Espírito Santo. O lançamento fará parte da programação da tradicional Festa de São Benedito e São Sebastião. A escolha dessa festividade para acolher o lançamento da publicação não é à toa. Afinal, o livro apresenta a cultura das comunidades quilombolas do Sapê do Norte, que abrange os municípios de São Mateus e Conceição da Barra, contemplando sua história, conflitos e resistências.
A publicação já havia sido lançada, de forma online, na Bienal Virtual do Livro de São Paulo, em 2020, por causa da pandemia da Covid-19, sendo agora, seu lançamento presencial. No ano seguinte, foi um dos cinco finalistas do 63º Prêmio Jabuti, na categoria juvenil. Os coautores do livro, lançado pela editora Estrela Cultural, são a escritora e antropóloga Deborah Goldemberg, o cientista social Jefferson Gonçalves Correia e o embaixador de Rei de Congo do Ticumbi de São Benedito, Arquimino dos Santos.
Arquimino é morador da comunidade quilombola Córrego do Alexandre, no interior de Conceição da Barra, onde foi realizado o processo participativo de escrita que deu origem a “A Brecha, Uma Reviravolta Quilombola”. O livro começou a ser escrito em 2017 e, nesse processo, Deborah Goldemberg, Jefferson Gonçalves Correia e Arquimino dos Santos escreviam versões da história e apresentavam em forma de teatro em um fórum no qual os quilombolas podiam intervir.
O romance apresenta o encontro entre um adolescente chamado Fred, morador de Vitória, e Viriato, um garoto quilombola, que se conhecem quando o menino da cidade vai passar as férias no sítio do avô. No decorrer da história, vai sendo apresentada a riqueza cultural do povo do Sapê do Norte, que abrange mais de 30 comunidades, o descaso do poder público, os ataques a esse grupo e sua resistência. Também aborda o Ticumbi, manifestação cultural de Conceição da Barra, protagonizada por negros da região, e que existe somente nesse município.
O livro será vendido por R$ 50 durante o lançamento, mas também pode ser adquirido pelo site da editora.

Clubes de Leitura
Fruto de um processo participativo de escrita, “A Brecha, Uma Reviravolta Quilombola” também irá nortear outra ação semelhante. Por meio do Edital 018/2021, da Secretaria Estadual de Cultura (Secult), serão realizados, gratuitamente, três clubes de leitura, coordenados por lideranças quilombolas. As datas de realização de cada um e as formas de inscrição serão divulgadas no início do mês de fevereiro.
Não haverá limitação de faixa etária ou qualquer outro tipo de restrição para a participação. Cada participante ganhará um exemplar do livro. A cada encontro serão lidos e debatidos dois capítulos para que cada clube projete ao menos um produto final de novas histórias. Em cada clube as facilitadoras vão estimular os participantes a criar uma produção literária ou teatral sobre a experiência de leitura e debate, suscitando assim diferentes memórias, abrindo uma brecha para outras narrativas. As produções serão registradas e disponibilizadas em páginas de mídias sociais criadas pelo projeto, além de hospedadas no site da Prefeitura Municipal de Conceição da Barra (PMCB), por meio da Comissão Permanente de Estudos Afro-Brasileiros (CEAFRO).
Um dos clubes de leitura será em Itaúnas, tendo como facilitadora Maria Bárbara Trindade, mulher quilombola da comunidade Angelim I. O outro será no Quilombo Urbano de Santana, com Michele Maciel dos Santos, da comunidade quilombola de Córrego do Alexandre. Por fim, haverá um na Academia de Letras e Artes de Conceição da Barra (Abla), tendo como facilitadora Rosa dos Santos, do Quilombo de Santana.
Representantes da CEAFRO também atuarão como facilitadores. A parceria com a CEAFRO dará subsídios para a aplicação da Lei Federal 11.645/08 que trata da obrigatoriedade no ensino do estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena, e para a resolução do CNE/CEB Nº 08/2012, que fixa as diretrizes curriculares para a educação escolar quilombola, a qual define e delimita como escolas quilombolas aquelas localizadas em território quilombola, e endossa a busca por uma perspectiva de educação que considere e valorize a memória, os marcos civilizatórios, os modos de vida, a oralidade e o território.
Em preparação para os clubes de leitura, foram realizadas nos dias 4 e 5 de janeiro oficinas de literatura e teatro na Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Benônio Falcão de Gouveia, em Itaúnas, com grupos de professores, contadores de história, mestres de Ticumbi, mestres de Reis de Bois, entre outros. Nessas atividades foi trabalhado o conceito de oralitura, fazendo a convergência entre a linguagem escrita, cantos e contos, tendo “A Brecha, Uma Reviravolta Quilombola” um dos instrumentos para impulsionar as produções durante as oficinas.









