Do espaço fixo de 3,6 mil m² ao modelo sem imobilização: como a Oliver lê a reinvenção do mercado de eventos no ES

Por mais de três décadas, o Centro de Convenções de Vila Velha (CCVV) foi sinônimo de evento de alto padrão no Espírito Santo: 3,6 mil metros quadrados dedicados a casamentos, formaturas e eventos corporativos de grande porte. Em 2024, a operação foi encerrada. No lugar do espaço fixo, a empresária Ariane Oliveira lança a Oliver — marca focada em buffet externo e hospitalidade, sem estrutura própria de grande porte. A leitura por trás dessa decisão é, antes de tudo, uma leitura de mercado.

O movimento não é um recuo. É um reposicionamento que acompanha uma mudança estrutural no comportamento do consumidor de eventos no ES: grandes estruturas fixas perderam protagonismo para experiências mais intimistas, eventos sob medida e operações flexíveis — tendência que já existia antes da pandemia e que se acelerou depois dela.

O que quebrou o modelo do CCVV

Do espaço fixo de 3,6 mil m² ao modelo sem imobilização: como a Oliver lê a reinvenção do mercado de eventos no ES
Empresária Ariane Oliveira lança a Oliver, focada em buffet externo e hospitalidade (Divulgação)

Segundo Ariane, o faturamento do CCVV era historicamente puxado, em ordem de relevância, por formaturas, eventos corporativos e, só depois, casamentos e aniversários. O segmento de formaturas — principal fonte de receita do grupo — já vinha sofrendo impacto antes mesmo da pandemia, com as transformações no ensino superior e a expansão de formatos digitais no ambiente acadêmico.

“O nosso faturamento era puxado primeiro pelas formaturas, depois pelos eventos corporativos e, só depois, casamentos e aniversários. O mercado começou a mudar e a estrutura ficou grande para o novo modelo de demanda.”  — Ariane Oliveira, fundadora da Oliver

A esse desalinhamento entre receita e estrutura fixa somaram-se fatores logísticos: mudanças na dinâmica urbana do entorno do espaço em Vila Velha, incluindo limitações de estacionamento, passaram a pesar na operação. Ao mesmo tempo, os clientes passaram a buscar formatos mais flexíveis — locais abertos, paisagens naturais, ambientes considerados “instagramáveis” —, uma mudança diretamente conectada ao comportamento digital do consumidor.

Buffet externo: de nicho a segmento competitivo

O buffet externo não é novidade — a própria empresa já operava nesse formato desde 2008. O que mudou foi a escala: a procura se intensificou à medida que festas menores, experiências exclusivas e celebrações personalizadas passaram a ocupar mais espaço no orçamento de famílias e empresas, atraindo também novos competidores ao segmento.

“O buffet externo sempre existiu, mas houve uma ascensão muito grande desse segmento. As pessoas passaram a buscar lugares mais abertos, alternativos, experiências diferentes.”  — Ariane Oliveira, fundadora da Oliver

Há um dado econômico estrutural por trás dessa ascensão: o crescimento de fornecedores especializados em locação de equipamentos, estruturas e mobiliário permitiu que empresas do setor operassem com menor imobilização patrimonial. Na prática, o mercado de eventos capixaba migrou de um modelo capital-intensivo — construir e manter espaços próprios — para um modelo operacional mais leve, baseado em parcerias e locação. É essa mudança de estrutura de custos que torna o modelo da Oliver viável onde o do CCVV deixou de ser.

O produto da Oliver: gastronomia, hospitalidade e capital reputacional

Do espaço fixo de 3,6 mil m² ao modelo sem imobilização: como a Oliver lê a reinvenção do mercado de eventos no ES
A Oliver nasce carregando o que pode ser seu principal ativo intangível: o legado operacional e reputacional construído ao longo de mais de 30 anos do CCVV (Divulgação)

A Oliver nasce carregando o que pode ser seu principal ativo intangível: o legado operacional e reputacional construído ao longo de mais de 30 anos do CCVV. A proposta combina gestão de buffet, locação de equipamentos, louças, mesas e suporte operacional completo para eventos em espaços sem infraestrutura própria — do pequeno encontro familiar a operações mais robustas.

“O Oliver vem para mostrar ao cliente que existe uma experiência profissional completa, com estrutura, cozinha, equipe e capacidade de entrega. O cliente sabe onde nos encontrar e conhece a operação que existe por trás do serviço.”  — Ariane Oliveira, fundadora da Oliver

Para o consumidor de alta renda no Espírito Santo, a empresária identifica uma mudança no próprio conceito de valor agregado: o tamanho e o glamour da celebração perdem peso frente à autenticidade, à identidade gastronômica e à personalização. É uma tendência observada nacionalmente no setor de eventos — disposição a investir em experiências memoráveis, mesmo em encontros menores, em detrimento de grandes produções padronizadas.

“Hoje as pessoas querem algo que tenha a cara delas. Pode ser um detalhe ou toda a experiência, mas precisa fazer sentido para aquela família, para aquela história.”  — Ariane Oliveira, fundadora da Oliver

O case da Oliver é, em síntese, um retrato em miniatura de uma transição que o setor de eventos do Espírito Santo está vivendo como um todo: de ativos fixos e grandes investimentos imobilizados para operações flexíveis, baseadas em rede de fornecedores e construídas em torno de experiência e reputação — não mais de metragem quadrada.

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