“Olha a banana, olha o bananeiro. Eu trago bananas pra vender. Bananas de todas as qualidades, quem vai querer…” Quando Jorge Ben Jor dedilhou o violão para dar vida ao pregão urbano em seus sambas históricos, talvez não imaginasse que a cadência dos versos encontraria eco material nas encostas úmidas e no relevo acidentado do Espírito Santo. Em Cariacica, município da Grande Vitória frequentemente associado apenas à sua mancha industrial e logística, a canção não é memória nostálgica: é rotina, labuta e projeto de sobrevivência.
Nos vales rurais do município, a banana assume múltiplos corpos e vocações. Ela é a fruta fresca colhida no ponto exato para viajar interestadualmente; é o doce de tacho que apura lentamente nas cozinhas comunitárias; é o chips crocante e a banana-passa desidratada; é a farinha nutritiva que enriquece preparos regionais. Mais do que produto agrícola, tornou-se a espinha dorsal de centenas de famílias camponesas que transformaram o associativismo e o cooperativismo em escudos contra a vulnerabilidade do mercado livreiro tradicional.
Essa engrenagem tem centro de gravidade: a Cooperativa de Agricultura Familiar de Cariacica (CAFC-ES). Fundada em junho de 2017, a entidade nasceu de um momento de ruptura. Naquele período, a bananicultura capixaba amargava uma crise severa de preços e logística. Sem canais regulares de comercialização e esmagados pelos custos de transporte, agricultores familiares viram plantações apodrecerem no pé e chegaram a abandonar parcelas inteiras de suas terras.
A resposta à crise não veio de soluções individuais, mas da união de 20 agricultores pioneiros. Hoje, a cooperativa congrega 423 cooperados ativos. Cerca de 60% deles estão fincados em Cariacica, enquanto os demais espalham-se por municípios vizinhos, formando uma teia produtiva que abastece desde a alimentação escolar pública até gôndolas exigentes nos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro.
O Vale do Sabão, no interior de Cariacica, ilustra a dimensão dessa engrenagem. Ali, entre vales estreitos onde o sol entra rasante pelas encostas, propriedades cooperadas mantêm entre 12 mil e 15 mil pés de banana cultivados sob manejo cuidadoso. As projeções para o ano alcançam cerca de 3 mil caixas de 20 quilos de banana-prata por unidade produtiva, e mais de 90% dessa safra segue direto para os galpões de classificação da cooperativa.

À frente da CAFC-ES e da União Nacional das Cooperativas de Agricultura Familiar e Economia Solidária (Unicafes-ES), Davi Dutra de Barcelos rememora a trajetória que converteu desespero em infraestrutura. “A CAFC foi fundada para dar voz e força a quem estava completamente desamparado na ponta da cadeia. Começamos pequenos, com apenas duas dezenas de agricultores, e hoje alcançamos uma escala que nos permite negociar de igual para igual. Nosso carro-chefe é a banana, cultura tradicionalíssima aqui em Cariacica. Com ela, passamos a acessar mercados institucionais vitais, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). Com a retaguarda de parceiros como o Sistema OCB-ES e a própria Unicafes, conseguimos fazer a política pública aterrissar na roça. Sem cooperativismo, o agricultor familiar fica refém de intermediários; com ele, constrói gestão, logística e previsibilidade.”
No modelo cooperativo, a escala dissolve o isolamento: os produtores ganham poder de barganha na compra de insumos, padronizam a seleção dos frutos e criam rotas logísticas conjuntas para vencer as dificuldades do terreno montanhoso.
Se a cooperativa sustenta o grande volume e as remessas institucionais, o associativismo de base opera transformações profundas na esfera doméstica e comunitária. Por exigência legal e estatutária, uma cooperativa demanda ao menos 20 pessoas para existir; já a associação civil pode ser formalizada a partir de três integrantes. É nessa flexibilidade que floresce o trabalho feminino.
Nas comunidades rurais de Cachoeirinha e Sabão, em Cariacica, a Associação de Mulheres Rurais (Asmurcas) ergueu uma agroindústria artesanal para dar destino àquilo que o mercado de fruta de mesa rejeitava. Antes da organização, a colheita passava por uma triagem impiedosa: as bananas padrão exportação eram encaixotadas, enquanto as frutas menores, maduras demais ou marcadas pelo atrito de galhos ficavam no chão, perdidas.
Lenicelia Silva Barbosa, que divide a lida dos quitutes com dona Vera e outras companheiras da associação, detalha como o olhar feminino converteu desperdício em faturamento. “Trabalhar com a banana mudou a nossa realidade porque nasceu do combate ao desperdício. Antigamente, quem vinha comprar levava só o fruto graúdo, impecável, e deixava as bananas miúdas apodrecendo. Foi aí que nos reunimos para aproveitar essas sobras e fazer doce caseiro. Com o tempo, a produção se sofisticou: o chips salgado, por exemplo, nós fazemos com a banana-nanica de primeira qualidade, que dá o ponto de fritura perfeito; a banana-passa, nós aproveitamos daquelas que caem com as ventanias, mas que continuam limpas e doces por dentro. A venda não para, atendemos sob encomenda e tudo o que sai do tacho tem comprador certo.”
Em outro ponto do território camponês, na Associação de Produtores Rurais Rio do Meio e Fumaça (Apromef), a força feminina expandiu o cardápio. Sob a liderança de produtoras como Tainá Vieira Faço, a produção artesanal desdobra-se em pães caseiros, bolos fofos, broas e tapiocas:

“O nosso coletivo é formado essencialmente por mulheres. Nós diversificamos a matéria-prima para atender tanto às feiras quanto aos pequenos comércios do entorno. Estabelecemos parcerias em que padarias e mercadinhos compram nossas mercadorias para revender, o que ajuda a movimentar o dinheiro dentro da própria comunidade. Biscoito confeitado muita gente sabe fazer, mas a nossa tapioca artesanal virou patrimônio do grupo: é o produto que nos identifica e que fazemos com paixão.”
Da invisibilidade do cuidado ao poder de decisão
A entrada das mulheres no beneficiamento artesanal da banana não é apenas um adendo contábil no orçamento das famílias. Sob a ótica das ciências sociais, trata-se de uma fissura estrutural na divisão tradicional do trabalho no campo.

O sociólogo rural André Augusto Michelato Ghizelini, professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e especialista em Sociologia Rural e Ambiental, observa que o processamento artesanal reconfigura a posição da mulher nas hierarquias rurais.
“A fabricação de um produto derivado, como a bananada ou os panificados, não confere de imediato uma independência financeira irrestrita, mas entrega algo indispensável: um salto substancial de autonomia econômica. Historicamente, à mulher camponesa é atribuído o trabalho de reprodução da vida — o trabalho não monetizado. Ela limpa a casa, cuida das crianças, trata dos animais de quintal, cuida da horta e ainda vai para a roça dar o chamado ‘apoio’. Ou seja, ela trabalha continuamente, mas nunca é vista como a titular ou a responsável pela renda que entra. Quando surge a agroindústria de derivados e ela não é a atividade principal da propriedade, os homens da casa tendem a não interferir. Se fosse a atividade hegemônica da fazenda, provavelmente eles tomariam a frente da gestão. Como é visto como um ‘extra’, abre-se uma brecha para que a mulher assuma o comando financeiro daquele processo.”
Para o pesquisador, os desdobramentos dessa virada ultrapassam a soma dos reais obtidos no fim do mês. “Não se trata apenas de colocar dinheiro na bolsa. Trata-se de status e dignidade dentro da estrutura familiar e perante a comunidade. Ela deixa de ser a colaboradora silenciosa e passa a ser reconhecida como um ator econômico com capacidade de investimento e voz nas decisões cotidianas. Há aí um ganho humano incomensurável.”
Michelato chama atenção, contudo, para as particularidades do beneficiamento de frutas no âmbito cooperativo, alertando para as ilusões em torno da agregação de valor. “O processamento coletivo de frutas é uma operação que exige realismo técnico e escala. Diferentemente de commodities finas como os cafés especiais — em que um quilo de grãos selecionados pode atingir centenas de reais logo na saída —, a fruta processada tem margem de agregação de valor relativamente modesta no mercado de massa. Vender polpa de fruta congelada ou doces em compota a R$ 15 ou R$ 20 o quilo exige um volume expressivo de matéria-prima e um maquinário caro para gerar rentabilidade líquida considerável. Além disso, as bananeiras entregam um cacho por ciclo produtivo, o que impõe limites biológicos diferentes de outras culturas.”
A equação, segundo o professor, aponta inexoravelmente para a cooperação institucionalizada: “Quem consome fruta processada em grande escala no Brasil hoje? São as grandes redes varejistas, os conglomerados industriais de alimentos ou as compras públicas da merenda escolar, como o PNAE. Nenhum agricultor familiar, isolado em sua propriedade, consegue atender aos requisitos sanitários, fiscais e de volume que esses compradores demandam. A não ser que o produtor seja um gestor extraordinário, focado em micro-nichos de altíssimo luxo, o cooperativismo deixa de ser uma opção de escolha e passa a ser a única via de sobrevivência econômica viável para manter o camponês em sua terra.”
Por essa razão, conforme observa Ghizelini, a união cooperativa deixa de ser uma escolha opcional e se torna a única saída prática para que pequenos produtores rurais permaneçam competitivos e economicamente sustentáveis.
Essa organização ganha relevância quando inserida no panorama agrícola estadual. A banana é cultivada em 76 dos 78 municípios do Espírito Santo, somando uma produção de 427,5 mil toneladas e uma área colhida de 29,3 mil hectares, de acordo com registros do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper). O valor da safra alcançou R$ 868,2 milhões, o equivalente a 2,6% de todo o valor gerado pelas lavouras capixabas, com predomínio absoluto da variedade banana-prata, acompanhada pelos tipos terra e cavendish (nanica). Entre os principais polos produtores do estado destacam-se Alfredo Chaves, com 44,8 mil toneladas, seguido por Iconha com 38,6 mil, Domingos Martins com 36,3 mil, Linhares com 35,3 mil, Laranja da Terra com 33,75 mil e Itaguaçu com 31,6 mil toneladas.
Mesmo fora do topo em volume bruto, Cariacica se diferencia pela relevância de seus sistemas agroecológicos e cooperativistas. Em entrevista ao Jornal ES Hoje, o cooperado da CAFC-ES e assessor executivo da Unicafes, Jorge Monteiro, ressalta com orgulho a representatividade da produção familiar do município e explica sobre a necessidade de valorização contínua das compras públicas governamentais, pontuando que o alimento da agricultura familiar entrega saúde e qualidade nutricional para as crianças nas escolas, gerando um ciclo virtuoso para quem produz e para quem consome.
A sustentabilidade desse ecossistema produtivo também conta com a ciência aplicada pelo Incaper. Ao contrário de regiões do país que operam sob monoculturas vulneráveis, o polo capixaba maneja cerca de 25 cultivares diferentes, o que confere maior resistência ecológica aos pomares. As iniciativas de pesquisa abrangem o desenvolvimento de uma nova cultivar do grupo Nanica/Nanicão, com previsão de lançamento para o próximo ano agrícola aliando resistência genética e apelo comercial, e a produção de mudas micropropagadas em laboratório vegetal, livres de pragas e distribuídas para agricultores de municípios como Presidente Kennedy. Além disso, o órgão mantém na região sul um Banco Ativo de Germoplasma (BAG) com mais de 30 genótipos, essencial para cruzamentos que combatam enfermidades severas como o Mal-do-Panamá e as Sigatokas amarela e negra.
Na assistência de campo, o extensionista do Incaper Alciro Lamão Lazzarini atua na orientação contínua sobre manejo agroecológico, adubação e controle de insetos como a broca-da-bananeira, tripes e nematoides. Lazzarini adverte que um dos momentos mais críticos para o agricultor reside nas etapas de colheita e pós-colheita, sobretudo porque as lavouras capixabas ocupam áreas de serra bastante íngremes. Qualquer impacto ou atrito durante a descida dos cachos e o transporte em estradas vicinais pode danificar as cascas, depreciando o valor da fruta nas centrais de abastecimento e nos mercados. A capacitação técnica atua justamente para encurtar perdas e preservar o padrão visual e sensorial do produto.
Ao unir a orientação técnica da pesquisa agronômica, a força do trabalho feminino nas cozinhas comunitárias e a capacidade logística das cooperativas, a bananicultura de Cariacica constrói um horizonte duradouro para o meio rural. A fruta que desce dos vales montanhosos deixa de ser apenas a mercadoria cantada nos versos de Jorge Ben Jor e se consolida como uma ferramenta viva de emancipação social, autonomia feminina e permanência digna das famílias camponesas em sua própria terra.










