O ex-presidente e fundador do grupo Apex Partners, Fernando Cinelli, teria escondido de sócios e conselheiros a deterioração financeira que levou a empresa a pedir recuperação judicial para se proteger de credores. Antes de acumular dívidas bilionárias, a companhia era avaliada em cerca de R$ 1 bilhão. Essa informação foi publicada no Estadão baseada em documentos internos e dados do mercado financeiro, que indicaram que a cúpula da companhia lidava com um cenário grave de insolvência meses antes de o caso vir à tona em agosto.
O estopim para a crise ocorreu em 6 de agosto, quando a Apex — que possuía contrato de distribuição exclusivo com o BTG Pactual (BPAC11) — afastou Cinelli e o diretor financeiro, Eduardo Siqueira. A decisão veio após uma apuração interna identificar “inconsistências contábeis, gerenciais e financeiras”.
Informações obtidas com exclusividade e antecipadas por ES Hoje dão conta que a crise foi identificada ainda no mês de maio e que, para controlar um “estresse de liquidez”, três comitês foram instalados e entraram em operação. Conforma também já antecipado por ES Hoje na reportagem Caso Apex: bastidores do pedido de R$ 100 mi que acendeu o alerta no BTG.
Projeções otimizadas e o uso contestado de marcas de auditoria
Segundo a reportagem do Estadão, meses antes do colapso, materiais apresentados a investidores e ao Conselho de Administração para uma captação de R$ 100 milhões exibiam metas ambiciosas, incluindo a projeção de atingir R$ 74 bilhões em ativos sob supervisão até 2032 e um crescimento anual de 44% até 2025.
No entanto, o material continha logotipos e menções a grandes empresas do setor que geraram fortes contestações:
KPMG: O documento exibia o logotipo da empresa e apontava serviços de auditoria independente como “em execução”. Procurada, a KPMG negou à reportagem ter auditado os números.
PwC: O cronograma citava um valuation que seria realizado pela consultoria, algo que a PwC negou publicamente ter feito.
Falconi: O material também exibia o logotipo da consultoria empresarial.
A atual gestão da Apex alega que Cinelli concentrava decisões cruciais nas mãos, atuando simultaneamente como presidente do Conselho, diretor executivo, representante legal de mais de 170 entidades do grupo e único detentor de poderes para movimentar a maioria das contas bancárias. Relatórios internos apontam indícios de gestão temerária, desvios de valores para contas particulares e grave desorganização administrativa.
Fernando Cinelli: “Decisões aprovadas pela governança”
Em nota oficial, Fernando Cinelli repudiou o que chamou de tentativas da atual gestão de lhe atribuir responsabilidade isolada. O ex-presidente argumenta que todas as decisões e procedimentos descritos foram submetidos e aprovados por órgãos de governança da companhia.
“O material em questão foi elaborado pela PwC, em conjunto com Alexandre Borborema, então head de Investment Banking, e por outros sócios e executivos do grupo. As referências a possíveis contratações representavam projeções e planos de atuação, como é rotineiro em grandes empresas”, rebateu Cinelli.
O fundador da Apex também destacou que as contas da empresa em anos anteriores foram aprovadas por unanimidade e sem ressalvas, refutando a tese de que os demais executivos teriam sido pegos de surpresa. Para atestar transparência ao processo de apuração, Cinelli informou que contratou a FTI Consulting, sob a liderança de Marcelo Zenkner, para conduzir uma investigação independente.
Enquanto a disputa jurídica e as investigações prosseguem, a atual gestão da Apex reforça que o pedido de recuperação judicial é um passo fundamental para viabilizar a reestruturação ordenada da empresa, preservar ativos e resguardar os interesses de clientes, parceiros e credores.










