Brasil chega às eleições com poder de compra de alimentos acima de 2022 e abaixo do pré-pandemia

O Brasil chega às eleições de 2026 com poder de compra de alimentos em patamar superior ao registrado às vésperas do primeiro turno de 2022.

O indicador, porém, segue abaixo de níveis observados no pré-pandemia, e não há previsão de recuperação completa pelo menos até o fim de 2027.

As conclusões são de um levantamento do economista Bruno Imaizumi, da consultoria 4intelligence, que compara quantas cestas básicas podem ser adquiridas com o salário mínimo e a renda média do trabalho. O primeiro turno das eleições deste ano ocorre neste domingo (4).

Segundo Imaizumi, o custo dos alimentos é um ponto sensível para os eleitores, e os dados sinalizam que a melhora dos rendimentos no governo Lula (PT) não foi suficiente para fazer frente a toda a carestia acumulada pela comida a partir do choque da pandemia.
Em agosto de 2026, um salário mínimo conseguia comprar o equivalente a 1,8 cesta básica. O cálculo considera o piso deste ano, reajustado por Lula para R$ 1.621, e o preço médio da cesta na cidade de São Paulo (R$ 900,59). Não há uma média nacional para esse conjunto de alimentos.

O patamar de 1,8 cesta básica é 11,3% superior ao de agosto de 2022, de 1,62. À época, o país se aproximava das eleições presidenciais nas quais Lula venceria o então presidente Jair Bolsonaro (PL). O mínimo estava em R$ 1.212, enquanto a cesta paulistana custava R$ 749,78.

A partir de 2023, Lula apostou em políticas como a retomada do reajuste do salário acima da inflação, mas o poder de compra permanece em torno de 13% abaixo da média da década anterior à pandemia (2010 a 2019). Nesse período, o piso comprava 2,07 cestas básicas em São Paulo.

Ao longo da série histórica, o salário mínimo já chegou ao equivalente a 2,28 cestas em março de 2012. É o maior nível do levantamento, com dados desde 1998.

A análise usa valores da cesta básica pesquisada pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos). O conjunto abrange 13 alimentos – carne, leite, feijão, arroz, farinha, batata, tomate, pão, café, banana, açúcar, óleo e manteiga.
O cenário é semelhante quando Imaizumi substitui o salário mínimo pelo rendimento habitual de todos os trabalhos no país, em termos nominais.

No trimestre encerrado em agosto de 2026, a renda média brasileira foi de R$ 3.777 por mês. O valor poderia comprar o equivalente a 4,07 cestas básicas, considerando uma média de preços nos mesmos três meses em São Paulo (R$ 927,02).
O nível é 15% maior do que o registrado em agosto de 2022 (3,54). O patamar, porém, está em torno de 15% abaixo da média da década anterior à pandemia (4,82), de 2010 a 2019.

O levantamento usa dados de rendimento calculados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
Projeções de Imaizumi sinalizam que a capacidade de compra de cestas básicas tende a ficar abaixo da média pré-pandemia pelo menos até dezembro de 2027, considerando tanto a renda do trabalho quanto o salário mínimo.

Analistas afirmam que o El Niño é o principal risco para a inflação dos alimentos a partir do final de 2026. A ameaça aparece no radar porque o fenômeno climático altera a distribuição das chuvas.

Isso desafia a produção agropecuária. Em caso de perdas no campo, repasses podem ocorrer para o consumidor final na cidade.
Na terça-feira (29), a Folha questionou a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República sobre os dados do poder de compra, mas não recebeu retorno.

O nível dos preços da comida tem sido explorado na campanha presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Em vídeos, o filho de Jair associa o custo dos alimentos nas gôndolas dos supermercados ao governo Lula.

A campanha do presidente passou a rebater as críticas. “Tem gente prometendo baixar o preço das coisas. Mas, quando eles tiveram a caneta na mão, o arroz e o feijão chegaram às alturas”, disse Lula em propaganda eleitoral.

“Os impostos que zeraram foram de jet ski e jatinho. Entregaram de mão beijada a distribuição e o refino dos combustíveis aos estrangeiros. Isso tudo doeu no seu bolso, no posto e no supermercado.”

Segundo o cientista político José Niemeyer, professor do Ibmec no Rio, emprego, inflação e poder de compra podem influenciar processos eleitorais. Em 2026, ele vê a primeira variável se sobrepondo em meio ao cenário de mudanças no mundo do trabalho.
“Há um receio de a tecnologia tirar empregos. Se você tem uma ocupação laboral, por mais simples que ela seja, parece redentor, algo importantíssimo.”

Apoiadores de Lula têm procurado ressaltar o desempenho de indicadores econômicos desde 2023, incluindo a queda do desemprego, além de citar medidas como o reajuste do salário mínimo acima da inflação e a defesa do fim da escala 6×1 –seis dias de trabalho e um de descanso por semana.

Por Leonardo Vieceli

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