Decisão que envolve muita gente, dificilmente agrada a todos. Em meio à crise financeira, então, só faz a situação piorar e com risco de fragilizar ainda mais a situação. É o que passa hoje o grupo Apex Partners em meio a um pedido de Recuperação Judicial (RJ), que divide a alta cupula de executivos.
Uma das maiores plataformas de investimentos e gestão de ativos do Espírito Santo e do país, com um rombo financeiro avaliado em quase R$ 1 bilhão, expõe visões diametralmente opostas sobre como gerir a pior crise da história da companhia.
Em conversa com a reportagem, sob condição de anonimato, um executivo ligado à ABM Partnership — holding que reúne os fundadores e representa seus interesses na estrutura societária da Apex — detalhou os bastidores do conflito. De um lado, a atual gestão executiva defende a RJ como única via para reestruturar o grupo. Do outro, o presidente destituído, Fernando Cinelli, e outros que continuam no conselho, alegam que a medida judicial é desnecessária e destrutiva, alinhando-se a credores e investidores que pedem mediação e a exclusão da cobrança da RJ.
Na quinta-feira (15) Sicoob Sul-Serrano e a Rhino Securitizadora, peticionaram à Justiça por mediação incidental. As duas instituições respondem por aproximadamente 60% de toda a dívida declarada, perto de R$ 550 milhões – R$ 135 milhões no caso do Sicoob, protegidos por alienação fiduciária e garantias fidejussórias; e R$ 414,4 milhões no caso da Rhino, estruturados em notas comerciais, promissórias e antecipações de recebíveis.

Duas estratégias para a crise
Do lado de Fernando Cinelli foi constituído um grupo focado em alternativas à RJ e em auditoria preventiva. A equipe inclui os advogados Rodrigo Rabelo, Adriano Rabelo, Rodrigo Mendonça, Ricardo Bermudes e Rafael Lima, além da consultoria forense comandada por Marcelo Zenkner e do estrategista Marcelo Dixon. A avaliação desse grupo é que a recuperação judicial destrói o valor da marca e inviabiliza a captação de novos negócios.
Do lado da Apex Partners, atualmente sob a presidência de Marcelo Murad, a defesa escritório Stein e Associados, Advocacia e Consultoria Jurídica, liderado pelo advogado José Carlos Stein Júnior – a banca inicial foi Finamore Simoni Advogados -, que tomou a decisão de formalizar o pedido de recuperação judicial em 14 de setembro — em 6 de agosto a companhia anunciou publicamente a descoberta de “inconsistências financeiras”.
Dois meses após o eclosão da crise, contudo, a gestão contratou um escritório de contabilidade, mas a auditoria externa independente anunciada no início de agosto ainda não foi realizada. O pedido de RJ, segundo a defesa, “visa criar as condições necessárias para uma reestruturação organizada da companhia, com a preservação de seus ativos e a proteção dos interesses dos investidores e credores”. O pedido segue em análise pelo Poder Judiciário do Espírito Santo.
Apostas equivodas com prejuízos milionários
De acordo com o relato do executivo à ES Hoje, a derrocada financeira do grupo começou a desenhar suas primeiras fissuras no primeiro semestre de 2026. Para tentar conter uma crise de liquidez, em maio a diretoria da Apex já havia instalado três comitês emergenciais — Financeiro, de Operações e Comercial.
O estresse financeiro intensificou-se após uma cartada ousada em abril: a compra de 15% da CVC Corp por meio de sua administradora de fundos. A operação envolveu não apenas recursos próprios, mas ativos de um ecossistema de investimentos estimado em R$ 17,5 bilhões (englobando fundos de terceiros e carteiras de clientes).
Com a queda de mais de 30% nas ações da CVC na Bolsa de Valores, a Apex viu-se impossibilitada de honrar garantias prometidas aos investidores — que previam rentabilidade mínima atrelada a 100% do CDI, eliminando o risco de renda variável.
O “maior erro”: Galpão Apex Log na Serra
Internamente, contudo, o próprio Fernando Cinelli reconhece que o erro fatal de sua gestão ocorreu no setor imobiliário: o projeto Apex Log. O galpão logístico de 36 mil m² de área bruta locável, construído no bairro Pitanga, no município da Serra, exigiu um investimento de R$ 118 milhões. Mais de 70 investidores aportaram recursos no projeto, no qual a Apex figurava como sócia ostensiva — responsável direta pela captação do capital e pela gestão operacional.
A crise do empreendimento explodiu em julho, quando o valor do aluguel mensal do espaço (aproximadamente R$ 1 milhão), que anteriormente era repassado aos investidores, passou a ser depositado diretamente na conta do Banco Daycoval. Acionistas e investidores afetados decidiram apurar a mudança no fluxo financeiro e descobriram uma triangulação de garantias – objeto de questionamento na Justiça e ressaltado pelo Ministério Público Estadual (MPES):
Os aluguéis e o próprio galpão foram oferecidos como garantia para dois empréstimos contratados pela Apex junto ao Banco Daycoval, somando R$ 57,3 milhões.
Uma terceira operação financeira foi realizada junto ao Sicoob-ES, também com garantias operacionais e avalistas.










