Cerco dos credores: Sicoob e Rhino concentram 60% da dívida da Apex e querem conciliação

O processo de Recuperação Judicial do Grupo Apex — que contabiliza um passivo total estimado em cerca de R$ 921,2 milhões — ganhou um contorno de extrema pressão institucional com a movimentação coordenada de seus dois maiores credores: o Sicoob Sul-Serrano e a Rhino Securitizadora. Juntas, as duas instituições respondem por aproximadamente 60% de toda a dívida declarada no processo de soerguimento.

Enquanto as petições protocoladas por ambas nas últimas 24 horas escancaram uma desconfiança severa quanto à engenharia contábil das requerentes, o epicentro da crise volta-se para uma ironia de bastidor: a tese de mediação e auditoria independente agora abraçada pelos grandes credores foi originalmente proposta semanas antes pelo fundador e presidente destituído, Fernando Antonio Kulnig Cinelli.

Gigantes da dívida: Sicoob e Rhino cercam processo

Com créditos de R$ 135 milhões (no caso do Sicoob, protegidos por alienação fiduciária e garantias fidejussórias) e impressionantes R$ 414,4 milhões (no caso da Rhino, estruturados em notas comerciais, promissórias e antecipações de recebíveis), as duas entidades acumulam perto de R$ 550 milhões em débitos contra o conglomerado capixaba.

Diante do volume cavalar, as petições recentes revelam estratégias incisivas como o alerta do Sicoob, visto que a cooperativa de crédito, representada pelo advogado Vitor Mignoni de Melo, bateu pé contra o enquadramento equivocado de seu crédito no Quadro Geral de Credores (QGC), reforçando que, por possuir garantias fiduciárias (fora do concurso de credores), não se submete aos deságios tradicionais de um plano de recuperação comum. O banco criticou falhas e omissões documentais na petição inicial da Apex e exigiu a abertura imediata de uma mesa de conciliação.

Por sua vez, a securitizadora, assessorada pelo escritório Luciano Comper Advogados, expôs indícios alarmantes de “desistência seletiva” de empresas do grupo. A Rhino apontou que veículos de investimento devedores (como a EMEG Participações) tentam abandonar o polo ativo da recuperação sem esclarecer o destino de milhões de reais transferidos via mútuos intragrupo. O objetivo da Rhino é claro: impedir que o patrimônio seja esvaziado antes da satisfação dos créditos.

A reboque da proposta de Cinelli

A defesa da mediação incidental como via prioritária para reestruturar o passivo — ora sugerido por Sicoob, Rhino, já sugerida em documentos e pareceres do Ministério Público e pela Administradora Judicial (Laspro Consultores) — não é uma novidade institucional. Em 15 de setembro Fernando Cinelli apresentou sua defesa técnica e posicionamento contrário à forma atropelada como vinha sendo conduzida a Recuperação Judicial, sustentando exatamente essa tese perante a Vara de Falências e Recuperação Judicial de Vitória.

Na ocasião, Cinelli argumentou que o litígio judicial em massa destruiria o valor remanescente dos ativos do Grupo Apex e propôs formalmente:

  • A rejeição da via recuperacional tradicional nos moldes apresentados pelas novas gestões interinas;

  • A instauração de uma mesa ampla de mediação plurilateral envolvendo diretamente credores estratégicos, investidores, holdings e partes interessadas;

  • A realização de uma auditoria externa e independente para rastrear a real origem das inconsistências contábeis e financeiras, separando o joio do trigo nas operações cruzadas.

Mediação sob pressão de 60% do passivo

Ignorado à época pelas manobras que tentaram isolar a antiga cúpula e blindar os novos gestores interinos (liderados por nomes como Marcelo Murad Brumana), o diagnóstico de Cinelli acabou validado pela realidade econômica dos fatos. Com 60% do endividamento nas mãos de dois credores ultra-exigentes que agora exigem mesas técnicas de conciliação, portas fechadas de auditoria e controle estrito sobre o fluxo de caixa, a recuperação judicial da Apex deixa de ser um mero ritual burocrático de homologação de passivos.

O processo se transformou em uma dura negociação de sobrevivência onde o modelo de governança proposto na gênese pela antiga gestão — baseado em auditoria e acordo via mediação especializada — tornou-se, ironicamente, a única tábua de salvação jurídica para evitar a falência sistêmica do grupo.

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