Inadimplência das famílias no crédito livre atinge novo recorde e chega a 8% em agosto, mostra BC

A inadimplência das famílias no crédito livre, em que as condições são livremente pactuadas entre bancos e clientes, atingiu um novo recorde e chegou a 8% em agosto, segundo dados divulgados pelo Banco Central nesta terça-feira (29). É o maior nível da série histórica da autoridade monetária, iniciada em março de 2011.

Isso significa que a cada R$ 100 emprestados nesse segmento, R$ 8 estão com pagamento em atraso há mais de 90 dias. De acordo com os dados do BC, a alta mensal foi de 0,2 ponto percentual, enquanto o aumento em 12 meses até agosto foi de 1 ponto percentual nessa categoria.

No conjunto das operações no crédito com recursos livres, a inadimplência atingiu 6,6% do total da carteira, com elevação de 0,2 ponto percentual em agosto. Nas operações com empresas, o avanço foi de 0,1 ponto percentual em relação a julho, atingindo 4,3% no mês passado.

“A taxa de inadimplência está no nível mais elevado da série histórica do Banco Central, que começa em março de 2011, nos seguintes recortes: no crédito total, conjunto de todas as operações de crédito, na separação tanto no crédito livre quanto no crédito direcionado e também para pessoas físicas”, afirmou o chefe do departamento de Estatísticas do BC, Fernando Rocha, na apresentação dos dados.

Níveis elevados de endividamento e de custo do crédito sob efeito dos juros altos continuam pressionando a renda das famílias. O superendividamento da população brasileira é motivo de preocupação para o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em ano eleitoral.

Em reação, a gestão petista aposta em novas etapas do programa Desenrola Brasil, de renegociação de dívidas, para alavancar a popularidade do presidente às vésperas do pleito.

Na última semana, o governo lançou uma nova fase do programa, na qual destinará até R$ 15 bilhões para adquirir carteiras de dívidas de pessoas físicas que estão com atraso de 2 anos a 4,5 anos nas modalidades cartão de crédito (parcelado e rotativo) e crédito pessoal. A ideia é renegociar ao todo R$ 150 bilhões em dívidas.

O aumento da inadimplência foi observado em diversas modalidades de crédito. No caso do rotativo do cartão, houve um salto para 66,2% em agosto, contra 65,5% no mês anterior — ou seja, uma elevação de 0,7 ponto percentual.

O rotativo é a linha de crédito mais cara do mercado, recomendada por especialistas apenas em casos emergenciais. Ele é acionado quando o cliente não paga o valor integral da fatura na data de vencimento. Desde 2024, a dívida de quem atrasa o pagamento da fatura do cartão não pode mais superar o dobro do montante original, incluindo juros e encargos.

No cartão de crédito como um todo, que inclui rotativo e parcelado, a inadimplência atingiu o recorde de 10% em agosto, alta de 0,5 ponto percentual em relação a julho.

Cresceram também as operações com atraso tanto no crédito pessoal consignado (subindo a 3,8% em agosto), quanto no crédito não consignado (11%), sobretudo na opção sem garantias (15,6%).

A inadimplência no consignado para trabalhadores do setor privado disparou desde que essa linha de crédito foi turbinada pelo governo Lula. Em um intervalo de um ano, a taxa praticamente dobrou, saltando de 5,2% em setembro de 2025 para 10,6% em agosto deste ano.

Ao longo desse período, houve uma falha na implementação do sistema que transfere automaticamente os descontos em folha de pagamento quando o trabalhador troca de emprego, o que colaborou para o aumento da inadimplência. Além disso, apenas em junho o governo anunciou a possibilidade de oferecer o FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) como garantia ao pedir o empréstimo pelo programa Crédito do Trabalhador, medida que era esperada desde a criação do programa.

Segundo o BC, parte do aumento recente nos índices oficiais de inadimplência decorre de mudanças nas regras contábeis, não de novos atrasos imediatos. “As taxas de inadimplência estão em trajetória de crescimento, chegaram nos maiores níveis da série, uma parte disso, quando a gente faz comparação com períodos anteriores, é devido à mudança de critério [contábil]”, ponderou Rocha.

Desde que a nova norma entrou em vigor, as instituições passaram a ter mais flexibilidade para definir quando uma operação será baixada a prejuízo. Isso significa que ela pode ser mantida no balanço do banco por um tempo maior, se houver expectativa de recuperação daquele crédito. Conforme estudo do BC, a fatia do efeito contábil corresponde a cerca de metade do crescimento da inadimplência registrado.

O avanço dos atrasos acompanhou o aumento global das taxas de juros. No crédito livre às famílias, a taxa média de juros atingiu 61,7% ao ano, com aumento de 1,4 ponto percentual em agosto. Pesou a elevação das taxas médias de cartão de crédito rotativo (8,7 pontos percentuais em relação a julho, a 444,9% ao ano) e de cartão de crédito parcelado (2,8 pontos percentuais, a 192,1% ao ano).

O endividamento das famílias voltou a subir e atingiu 49,9% em julho, com aumento de 0,2 ponto percentual no mês. Nesse cálculo, o BC considera o saldo das dívidas das famílias no mês de referência, agosto nessa situação, em relação à renda disponível acumulada nos últimos 12 meses.

O comprometimento de renda ficou estável em relação a junho, situando-se em 28,7%. Nesse caso, o cálculo considera o saldo das dívidas em relação à renda mensal das famílias. Os dois indicadores são divulgados pelo BC com uma defasagem maior, com dois meses de diferença.

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – NATHALIA GARCIA 

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