Uma desaceleração mais forte nas operações de crédito no próximo ano entrou no radar dos analistas econômicos, que veem a possibilidade de que isso se torne um dos principais fatores a contribuir para esfriar a economia brasileira ao longo de 2027.
Juros, inadimplência e endividamento elevados contribuem para essa desaceleração, pelo lado da demanda. Do lado da oferta, são esperados o esgotamento dos recursos para programas estatais de incentivo ao crédito e medidas do Banco Central para frear as concessões em linhas de maior risco.
Alguns economistas fazem um paralelo entre a situação atual e o período que antecedeu a recessão de 2014-2016. Em 2020, um estudo do BC apontou “correlação clara” entre o aumento do endividamento de 2011 a 2014 e a queda no consumo nos dois anos seguintes.
O colunista da Folha de S. Paulo Bruno Funchal, CEO da Bradesco Asset Management, afirma que os números das concessões de empréstimo já se aproximam de níveis verificados em outros momentos de desaceleração mais forte da economia, como na recessão da década passada.
A gestora projeta expansão do PIB (Produto Interno Bruto) de 1,9% neste ano e 1,3% no próximo. Em um cenário alternativo, a instituição estima que, na hipótese de uma contração de 10% nas operações de crédito, o crescimento da economia em 2027 pode ser reduzido em até 0,7 ponto percentual.
“Se isso acontecer, podemos entrar em um ciclo de desaceleração forte [do PIB]. E não estamos longe disso”, afirma Funchal.
Pesquisa da Febraban (Federação Brasileira de Bancos) com o setor financeiro aponta expectativa de expansão da carteira de crédito de 8,9% neste ano e 7,5% em 2027. A maioria das instituições consultadas avalia que a expansão do crédito deve desacelerar de modo apenas gradual, devido aos dados ainda positivos do mercado de trabalho e aos programas de estímulo do governo.
Aumentou, porém, o percentual dos que dizem que a desaceleração deve ocorrer de modo mais pronunciado até o final deste ano, de 5% para 20% da amostra, diante do elevado comprometimento de renda das famílias, da inadimplência e do esgotamento dos recursos estatais para linhas adicionais.
Luiz Fernando Castelli, gerente de Assuntos Econômicos da Febraban, afirma que o crescimento real da carteira projetado pelos bancos continua acima do desempenho estimado para o PIB do próximo ano, e que os dados não apontam expectativa de um choque muito forte no mercado de crédito.
“Há uma expectativa de desaceleração ordenada da economia e do mercado de crédito, nada muito brusco que gere impactos muito fortes do ponto de vista econômico”, afirma. “O que a gente vê é uma acomodação, até para famílias e empresas absorverem um pouco esse aumento que eles tiveram de endividamento e não gerar algo muito explosivo do ponto de vista de inadimplência.”
A inadimplência da carteira de crédito com recursos livres da pessoa jurídica está no maior nível desde 2018 (4,2%), enquanto a da pessoa física é recorde (7,8%), segundo o BC. O endividamento das famílias corresponde a 49,8% da renda anual, enquanto o comprometimento de renda com prestações está em 28,9% -patamares historicamente elevados.
Katherine Hennings, pesquisadora associada do FGV Ibre e analista da BRCG Consultoria, afirma que o nível de endividamento das famílias deve levar a uma perda de ritmo significativa do consumo em 2027, mas diz que não antevê nenhum choque de crédito.
Os dados do PIB do segundo trimestre já mostraram queda no consumo das famílias, um desempenho que surpreendeu o mercado e já reflete os efeitos dos juros elevados sobre a economia.
A pesquisadora afirma que o Brasil já viveu situação semelhante às vésperas da recessão de 2014-2016, quando o elevado endividamento contribuiu para retardar a retomada da atividade econômica nos anos seguintes.
Hennings afirma que o programa de renegociação de dívidas do governo -o Novo Desenrola Brasil- não produzirá mudanças na dinâmica do endividamento familiar para mudar esse quadro. Ela é uma das autoras de um artigo que analisa essa questão.
“O excesso de alavancagem, tanto das pessoas físicas quanto das empresas, tende a tornar a desaceleração da economia mais longa e mais profunda”, afirma a pesquisadora.
Gesner Oliveira, sócio da GO Associados e professor da FGV (Fundação Getúlio Vargas), afirma que a situação atual é característica de ciclos de desaceleração da economia, e ressalta o aumento da percepção de risco das instituições financeiras em relação aos tomadores de crédito.
Embora as famílias estejam com grande parte da renda comprometida, ele não vê uma situação generalizada de inadimplência, nem uma quebradeira de empresas, apesar do aumento de casos de recuperação judicial. Ele também afirma que a economia continua a gerar renda, embora boa parte dela esteja comprometida com dívidas.
“Essa circunstância faz com que o fluxo de crédito diminua, e consequentemente é um fator de desaceleração da economia. Mas ainda temos um mercado de trabalho aquecido e estímulos fiscais do governo. Isso impede que haja uma contração maior”, afirma Oliveira.
Nicola Tingas, economista-chefe da Acrefi (associação das instituições de crédito), afirma que o cenário para o ano que vem é preocupante. “Essa desaceleração da atividade vai ser ampliada pela desaceleração do crédito.”
Recentemente, o BC recomendou cautela aos agentes do mercado de crédito e disse que prepara “medidas voltadas à mitigação dos riscos associados” a um cenário de endividamento das famílias em patamar historicamente alto e comprometimento de renda no maior nível da série histórica.
São Paulo, FolhaPress – Eduardo Cucolo










