Após seis meses consecutivos de alta, os preços da alimentação no domicílio tiveram queda de 1,14% em julho em relação a junho no Brasil, segundo dados do IPCA-15 (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15).
A redução é a maior para meses de julho em 16 anos, ou seja, desde 2010 (-1,55%). Na comparação com diferentes meses, a baixa é a mais intensa em quase dois anos, desde agosto de 2024 (-1,3%).
Para analistas, a queda é explicada sobretudo por questões sazonais. A oferta de alimentos tende a aumentar neste período devido a melhores condições climáticas para a produção no campo, se comparadas ao início do ano. Mais oferta tende a se traduzir em preços mais baixos.
Segundo o economista Fábio Romão, da consultoria 4intelligence, também há um efeito da base de comparação.
Como os alimentos tiveram fortes altas ao longo do primeiro semestre de 2026, agora há uma “devolução” em forma de quedas intensas.
No IPCA-15, a alimentação no domicílio marcou três meses consecutivos com avanços acima de 1% -março, abril e maio.
“Tem muito de sazonalidade nessa queda dos alimentos, mas vamos lembrar que alguns [itens] in natura tiveram altas bem importantes. Então, a devolução está sendo bem intensa”, diz Romão.
Segundo ele, o custo dos alimentos também pode ter sido aliviado pelo recuo recente dos preços do óleo diesel. O combustível caiu 1,32% em julho. Foi a terceira baixa consecutiva.
Neste ano, porém, o combustível ainda acumula alta de 15,18%, sob efeito da disparada das cotações do petróleo no início da guerra no Irã.
“Neste momento a gente está se valendo de uma oferta mais regular de alimentos e, portanto, de preços mais baixos”, afirma o economista André Braz, do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas).
Conforme o IPCA-15, o preço do tomate caiu 19,95% em julho. Foi o principal impacto para baixo no índice do IBGE (-0,07 ponto percentual). A batata-inglesa (-0,03 p.p.) veio na sequência, com uma redução de 10,03% neste mês.
Apesar da queda mensal, os dois produtos ainda registram altas de dois dígitos em 2026. O tomate acumulou aumento de 63,17% até julho, e a batata, de 80,12%.
EL NIÑO TRAZ RISCOS
Para os próximos meses, analistas chamam a atenção para os riscos do El Niño. O fenômeno climático desafia o agronegócio porque afeta as temperaturas e a distribuição das chuvas entre as regiões.
Como mostrou reportagem da Folha, a situação pode atrasar o plantio de grãos, reduzir a quantidade e a qualidade das safras e dificultar a pecuária. Esses episódios poderiam pressionar os preços de parte dos alimentos.
“Tem um El Niño a caminho, com muitas advertências de ser um efeito fora da curva, de ser mais forte, e isso pode comprometer muito as nossas próximas safras”, afirma Braz.
Para Romão, da 4intelligence, o eventual impacto do fenômeno climático tende a aparecer nos preços do varejo a partir do último trimestre deste ano e do início de 2027.
Ele também enxerga possibilidade de os preços da carne subirem até o final do ano em razão de questões de oferta associadas ao ciclo pecuário. Isso reverteria o movimento recente de baixa.
Em julho, as carnes tiveram recuo de 0,34% no IPCA-15. “A queda recente do boi gordo acaba chegando às carnes e está ligada em parte ao recuo das compras chinesas”, diz Romão.
RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – LEONARDO VIECELI










