Economia azul: como cascas de sururu viram renda e impulsionam a sustentabilidade na maricultura

A transformação de cascas de sururu em corretivo de solo está impulsionando a economia azul no Espírito Santo. A iniciativa, baseada nos princípios da economia circular, gera renda para marisqueiras, reduz impactos ambientais e fortalece a maricultura sustentável em comunidades costeiras. Além de reduzir o desperdício, essa iniciativa fortalece a maricultura e valoriza o trabalho tradicional das marisqueiras — atividade passada de geração em geração.

A reutilização das cascas de sururu representa um modelo claro de economia circular, em que resíduos da cadeia produtiva retornam ao sistema como insumos agrícolas. Esse processo reduz a dependência de recursos naturais não renováveis, como o calcário mineral, contribuindo para práticas mais sustentáveis na agricultura.

Especialistas destacam, no entanto, que ainda há necessidade de mais pesquisas para medir com precisão os impactos positivos em diferentes regiões.

De problema ambiental à geração de renda no manguezal

Na região de Mangue Seco, em Porto Santana, Cariacica, o que antes era um grave problema ambiental se transformou em oportunidade econômica. Toneladas de cascas de sururu, antes descartadas irregularmente e acumuladas no manguezal, hoje são fonte de renda para marisqueiras e matéria-prima para a produção de insumos agrícolas sustentáveis.

Economia azul: como cascas de sururu viram renda e impulsionam a sustentabilidade na maricultura
Com o Projeto Sururu, as cascas passaram a ser compradas das marisqueiras e transformadas em corretivo de solo, dentro dos princípios da economia circular e azul

A mudança impactou diretamente a vida de mulheres como Carla Moraes, marisqueira há mais de 20 anos. Criada na atividade, Carla acompanhava a mãe na coleta do sururu e hoje vê a profissão com novos olhos: “Comecei cedo e segui na profissão. Hoje vejo esse trabalho de outra forma.”

Além do aumento na renda, ela destaca a valorização do trabalho feminino na comunidade — embora ainda existam desafios, como a necessidade de melhorar o valor pago pelas cascas.

Projeto Sururu: inovação sustentável na maricultura

A transformação foi impulsionada pelo Projeto Sururu, desenvolvido pelo Instituto Goiamum. A iniciativa surgiu após a identificação do descarte irregular das cascas como um problema ambiental e social urgente.

Segundo o presidente do instituto, Iberê Sassi, o cenário encontrado exigia ação imediata:

  • Acúmulo de resíduos nas comunidades
  • Condições insalubres para as marisqueiras
  • Impacto direto no manguezal

Com o projeto, as cascas passaram a ser compradas das trabalhadoras e reaproveitadas. “Esse local é especialmente de mulheres que vivem da cata do sururu. Fomos convidados ao local para propor uma solução à insalubridade do trabalho dessas mulheres, que vivem da cata e da pesca na região. Ao chegar, entendemos que havia um problema urgente relacionado ao descarte irregular das cascas”, relatou. Sassi destacou que as casas estavam acumulando sobre bancos de cascas de sururu. “Era uma situação emergencial não apenas para o mangue, mas também para a comunidade. Depois percebemos que essa realidade se repetia em outras regiões do Espírito Santo e do país”.

Como funciona o reaproveitamento das cascas de sururu

O processo segue etapas simples e eficientes:

  1. Compra das cascas diretamente das marisqueiras cadastradas
  2. Transporte para o galpão de processamento
  3. Seleção e trituração do material
  4. Transformação em pó
  5. Comercialização para agricultores, especialmente orgânicos

O resultado é um produto utilizado como corretivo de acidez do solo, essencial para a produtividade agrícola.

Impacto econômico e social nas comunidades costeiras

A iniciativa gera impactos diretos:

  • Renda extra para famílias
  • Inclusão produtiva de mulheres
  • Redução de resíduos no meio ambiente
  • Fortalecimento da economia local

Carla diz que foi impactada pelo Projeto Sururu pelo aprendizdo e porque o valor que recebe mudou a renda mensal da família. “O dinheiro que recebe é usado principalmente nas necessidades da casa, como as contas mais comuns. Apesar de ser uma profissão muito trabalhosa, eu e outras colegas marisqueiras percebemos que houve valorização, mas, por outro lado, aumentar o quilo das cascas iria ajudar ainda mais”, comemora.

Economia azul: como cascas de sururu viram renda e impulsionam a sustentabilidade na maricultura
Iberê Sassi diz que desde o primeiro momento o Projeto Sururu atuaou como solução escalável, em níveis estadual e nacional

Economia azul no Brasil: tendência sustentável em crescimento

Economia azul: como cascas de sururu viram renda e impulsionam a sustentabilidade na mariculturaA coordenadora nacional de Economia Azul do Sebrae-ES, Carolina Moraes, apontou que iniciativas que transformam resíduos em insumos refletem uma tendência crescente no Brasil e no mundo, alinhada aos princípios da economia circular e da Economia Azul.

“Esse modelo busca justamente transformar passivos ambientais em ativos produtivos, reduzindo desperdícios e gerando valor econômico a partir de recursos que antes eram descartados. No contexto brasileiro, essa tendência tem ganhado força especialmente em cadeias ligadas à pesca, aquicultura e agricultura, onde há grande geração de resíduos orgânicos com potencial de reaproveitamento”, ressaltou.

A coordenadora nacional de Economia Azul do Sebrae reflete ainda que, do ponto de vista econômico, o uso de resíduos como matéria-prima pode reduzir custos de produção, principalmente ao diminuir a dependência de insumos convencionais, como fertilizantes químicos.

“Além da redução de custos, essa ação gera oportunidades para novos modelos de negócio, geração de renda local e inclusão produtiva, principalmente em comunidades costeiras e tradicionais. No entanto, ainda existem desafios importantes para que essas soluções ganhem escala”, alegou.

Desafios para ampliar a economia azul no país

Apesar dos avanços, ainda existem obstáculos para expandir esse modelo:

  • Falta de validação científica em larga escala
  • Necessidade de regulamentação específica
  • Desafios logísticos na coleta e processamento
  • Acesso limitado a financiamento
  • Necessidade de capacitação técnica

A integração entre setor produtivo, instituições de pesquisa e políticas públicas é essencial para superar essas barreiras.

Um caminho sustentável para o futuro

A economia azul surge como uma estratégia promissora para unir:

  • Desenvolvimento econômico
  • Inclusão social
  • Conservação ambiental

O caso do reaproveitamento das cascas de sururu mostra que é possível transformar um passivo ambiental em uma solução sustentável e lucrativa. Mais do que uma tendência, trata-se de um modelo capaz de gerar impacto real na vida de comunidades e no futuro do planeta.

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