Comemorado anualmente em 21 de abril, o Dia da Latinidade tem o objetivo de homenagear a cultura, história e tradição do povo latino, principalmente representado pela América Latina, formada por grande parte pelas Américas do Sul e Central.
Apesar do Brasil ser um país de profundas raízes latinas, não é incomum ouvir questionamentos sobre uma certa dificuldade do povo brasileiro se entender como povo latino da mesma forma que os demais da América do Sul. Afinal, isso, de fato, é uma realidade?
De acordo com a doutora em História e pós-doutora em História da América, Camila Grejo, antes de entender as questões que norteiam o tema, é importante explicar o que é a latinidade.
Segundo a especialista, o termo “latino” faz referência aos países que desenvolveram sua língua baseada nas raízes latinas, tal como o idioma português e o espanhol, amplamente falados no continente americano, em especial, pelos países que tiveram língua e cultura derivadas da colonização ibérica empreendida a partir do final do século XV.
“Há um importante debate sobre o momento e a maneira em que o próprio conceito de América Latina teria sido construído, o que remonta a uma atuação da França em seu período de expansão imperialista”, diz.
Nesse sentido, ela explicou que a própria ideia de latinidade foi discutida, interpretada e reelaborada em vários momentos das histórias dos países latino-americanos e isso se deu de formas distintas.
“No final do século XIX e início do século XX, por exemplo, a latinidade fora evocada como uma forma de oposição aos interesses dos EUA na América Latina, isto é, como uma forma dos países de origem latina (encabeçados pela França) se posicionarem diante das pretensões imperialistas anglo-saxãs sobre a região”, ressaltou.
Já em relação ao fato de muitos brasileiros não ser reconhecerem como latinos ou terem preconceito com a nomenclaturara, ela assegura que algumas hipóteses históricas podem ajudar a compreender essa situação.
Segundo Camila, no momento de conformação da identidade latino-americana, o Brasil não estava contemplado, uma vez que mantinha fortes relações com os Estados Unidos. De certa forma, isso acabou levando a construção de uma determinada perspectiva do que era “ser latino-americano”, já que, no subcontinente, os países associados à essa identidade eram os de língua espanhola.
“Dessa forma, muitos brasileiros ainda têm dificuldade de se entender como latino-americanos e, para além disso, fazem questão de ressaltar relações sanguíneas longínquas com outros povos, principalmente com aqueles que chegaram ao país no período da grande imigração”, explicou.
Aproximações com os vizinhos latino-americanos também se relacionam a escolhas políticas que acabam por ter grandes efeitos no campo das relações exteriores, como ocorreu com a criação do MERCOSUL e da agenda da chancelaria brasileira durante os dois primeiros governos do atual presidente, Luís Inácio Lula da Silva.
“É importante que o Brasil recobre os laços que lhe unem aos vizinhos latino-americanos e que os brasileiros se vejam e se entendam, cada vez mais, como latino-americanos”, finalizou.
Cultura

A cultura latino-americana pode ser definida como a soma de ideologias, tradições, crenças e histórias que se moldam como região. De acordo com o professor de Língua e Literatura Latina da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Raimundo Carvalho, originariamente, o povo latino era um povo de agricultores e pastores, considerado um povo de costumes rústicos e severos, não dado a luxos e costumes liberais.
“Esta severidade e apego às tradições sempre foi a marca dos Romanos, marca essa que os distinguiam dos gregos, um povo mais dado aos jogos amorosos, às artes e ao divertimento”, explicou.
No entanto, a partir do séc. III a.C., a cultura latina, em contato, com a cultura grega, apresentou um enorme desenvolvimento no campo das artes, do teatro e da literatura, chegando a produzir obras de grande qualidade literária e profundidade filosófica.
Ramificações do latim
A latinidade é um conjunto de traços culturais, sendo o mais importante deles o linguístico, que caracteriza os povos cuja língua deriva do latim, a língua dos antigos habitantes do Lácio (Latio), região central da península itálica.
Os povos latinos têm em comum algumas características culturais, uma parte da história e, principalmente, a origem de suas línguas. De acordo com Raimundo Carvalho, o português é, juntamente com o francês, italiano, espanhol, catalão, galego, romeno, sardo e o provençal, uma língua neolatina.
“Ele é uma língua derivada de uma das várias modalidades de latim vulgar, modificado pelo contato com as línguas dos povos dominados pelos romanos, a tal ponto que, em determinado momento histórico, elas se tornaram línguas autônomas, sendo a maioria delas línguas de nações modernas”, explicou .










