Estava preparado para tudo. Ao longo de uma semana de trabalho, entre tantos erros e acertos, alegrias e decepções, cabia-me apenas concluir o dia e revisitar a memória, o último exame de consciência antes do descanso. Era o ato final. Um ato importante, é verdade. Mas já no ocaso do tempo, das forças e da sanidade.
É surpreendente o que a vida nos reserva.
Numa noite dessas, então, quando pouco se espera da vida, encontro com Selena. A menina que acabara de deixar a infância e podia contar com o futuro. Pais zelosos, avós presentes. Família indivisível. Selena corria pela casa e, ao seu modo e no seu tempo, como toda garota muito segura do profundo amor que a cercava, tomou café com o avô e foi para a escola, num dia qualquer, numa manhã novembrina comum.
Selena foi assassinada dentro da escola. De uniforme. Dentro da sala de aula. Um tiro fatal.
Podia até parar o texto por aqui, porque diante do absurdo é prudente o silêncio. Mas é que eu ouvi os avós de Selena. Eu olhei nos olhos deles. Falei com eles – ou acho que falei enquanto buscava um pensamento razoável. Procurei a menina entre as cadeiras mas não a encontrei. Foi inútil. Aquele encontro, naquela noite, foi para dar sentido a essa dor.
Tudo aqui do lado. Em Aracruz. Na discreta cidade de Aracruz, numa escola dessas, de tantas crianças. De tantas e quantas crianças. Não estava preparado para Selena. Ninguém está. Nunca. Dentro da escola, de uniforme, aguardando o recreio. A menina é arrancada da vida.
Não é possível esquecer. Nem eles – os pais – nem nós, os sobreviventes. Porque todos morremos um pouquinho naquele dia. Agora é preciso seguir e pensar em Selena.
Até breve!








