Há um momento em que a identidade deixa de responder ao nome próprio e passa a existir como relação. A exposição Eu é o outro, aberta na Matias Brotas, parte desse deslocamento. Em vez de tratar o sujeito como unidade, essa mostra aproxima duas pesquisas que compreendem o corpo, expressão e ambiente como lugares de inscrição das presenças que os antecedem e das experiências que os atravessam. O encontro entre Rosana Paste e Lando em uma só exposição é algo que poderia ter ocorrido muito antes e que, felizmente, realiza-se nessas comemorações dos 20 anos da Matias Brotas.
Ambos os artistas recusam a ideia de um eu encerrado, embora trilhem caminhos distintos e respondam com tratamentos próprios aos materiais. Cada trabalho sugere que a consciência nasce do contato com aquilo que lhe é íntimo e, ao mesmo tempo, externo. O eu-outro deixa de representar um limite para assumir a condição de matéria constitutiva da existência das peças.
Essas são algumas das questões que gostaria de abordar, que tangenciam o texto da exposição. Quando das conversas e da reunião dos primeiros trabalhos que comporiam a mostra, várias possibilidades se abriram para pensarmos os processos dos dois artistas para além de uma revisão de suas trajetórias. Desde o começo ficaram evidentes questões de identidade/diferença, observação/autorreflexão, corpo/ânimo, memória e matéria.
Essa compreensão aproximou minha percepção sobre a exposição de uma tradição filosófica que encontra em Levinas a afirmação da alteridade como fundamento da experiência ética. Antes de qualquer definição sobre si, o sujeito encontra o rosto do outro. Principalmente quando conversava com Rosana, não pude ignorar uma trilha lacaniana, na qual a imagem do eu depende de um espelho que nunca pertence inteiramente ao indivíduo. Não seria de se estranhar que esse mesmo caminho seria fundamental para abarcar as cerâmicas de Lando. A identidade surge por reconhecimento, mas esse reconhecimento contém um equívoco inevitável: aquilo que pensamos ser coincide apenas de forma parcial com aquilo que vemos e com aquilo que os outros devolvem. Em Eu é o outro, ambos transformam essa condição em experiência sensível. Bronze, cerâmica, fotografia, instalação, pintura e objetos deixam de funcionar como suportes para se tornarem testemunhas de existências fragmentárias.
A Série Cabeças, de Lando, condensam esse problema. Nenhuma delas parece desejar a estabilidade do retrato. Cada rosto conserva uma diferença suficiente para impedir qualquer tentativa de classificação definitiva. As peças existem como uma população de sujeitos possíveis; não representam personagens específicos, mas estados da consciência que se alternam entre memória, imaginação e desejo. A cerâmica preserva vestígios da manipulação manual e da ação do fogo. O barro registra decisões, acidentes e resistências. A forma final não corresponde ao domínio absoluto do artista sobre a matéria. Ela resulta de um acordo instável entre intenção e acontecimento.
Parece inevitável recair em Bachelard, que compreendeu que a imaginação não nasce somente das e para as imagens, mas também dos elementos materiais primordiais e de tudo o que eles aludem. Terra, água, fogo e ar oferecem regimes distintos de pensamento. Nas cabeças de Lando, a terra cozida preserva algo dessa origem elementar. O rosto humano tende a retornar para uma condição primeira e disforme. O indivíduo perde contornos biográficos para adquirir duração. Essa permanência, contudo, não elimina a transformação. Cada cabeça apresenta uma identidade provisória, como se qualquer definição permanecesse aberta à possibilidade de outra forma.

A psicanálise permite ampliar essa leitura, com o infamiliar freudiano como aquilo que parece reconhecível e comum, mas torna-se inquietante com um pouco mais de atenção. O encontro com essas esculturas produz efeito semelhante. Os rostos são conhecidos sem pertencer a ninguém. O observador procura uma identidade que nunca se fixa. Seria o reconhecimento da própria multiplicidade? Jung descreveu o sujeito como convivência entre persona, sombra e inúmeras figuras interiores. Essa série de Lando transforma tal hipótese em presença concreta. Nenhuma cabeça esgota a figura humana porque nenhuma identidade consegue conter a experiência inteira do ser em devir.
Essa multiplicidade reaparece em Margem Sul, agora por meio da fotografia. A paisagem deixa de funcionar como descrição geográfica para assumir valor existencial. A margem representa uma condição de permanência diante do fluxo. Existe apenas porque um curso de água estabelece sua diferença. A fotografia registra esse intervalo entre estabilidade arquitetônica e passagem de cores. Nem paisagem, nem cenário, mas superfície onde registro (memória) e tempo (repetição) se acumulam.
Mas, isso não deve nos atirar para a duração bergsoniana. Merleau-Ponty escreveu que a percepção constitui nossa primeira forma de conhecimento do mundo. Aqui, não devemos tratar a duração como uma “multiplicidade de fusão” (em que o passado se dissolve continuamente no presente). A temporalidade trabalhada tanto por Rosana quanto por Lando exige uma estrutura mais articulada, na qual passado, presente e futuro coexistem na nossa experiência consciente.
Nesse tempo entrelaçado de percepção e memória, não existe separação absoluta entre sujeito e espaço.
Noutra linha de pensamento, cada sujeito incorpora estruturas sociais sob a forma do habitus (Boudieu). O corpo aprende gestos, percepções e maneiras de existir antes mesmo de refletir sobre elas. As margens fotografadas por Lando podem ser compreendidas como espaços-superfícies dessa sedimentação. A fotografia torna visível a espessura temporal que nos permite reconhecer sem recorrer ao documento explícito.
Se Lando investiga a instabilidade da identidade por meio do rosto e da paisagem, Rosana Paste aproxima essa investigação da memória corporal. Em suas esculturas, o metal conserva a lembrança de experiências que permanecem frágeis mesmo após adquirirem consistência física. A matéria transforma acontecimentos íntimos em presença compartilhável, sem eliminar a distância entre aquilo que foi vivido e aquilo que pode ser visto. Essa lógica alcança um ponto decisivo em Cabeça Oca. O vazio inscrito na escultura poderia corresponder à ausência, mas pode ser encarado como possibilidade. A cabeça, tópico símbolo do pensamento soberano, torna-se receptáculo daquilo que ainda não possui forma, ou que divide a forma-corpo que se acreditava estável. Rosana desloca essa tradição escultórica da estabilidade ao apresentar um espaço aberto entre elementos contidos. O vazio converte-se em condição do encontro e tensão.
Winnicott compreendeu que a constituição do sujeito depende da existência de um espaço potencial, região intermediária entre mundo interno e realidade compartilhada. Os processos de Rosana estão ali, nesses movimentos emocionais o eu e o ambiente, tanto em sua materialidade quanto na presença do outro. A criação nasce dessa zona de passagem. Em Cabeça Oca, o bronze delimita esse intervalo sem preenchê-lo. O metal fixa um contorno enquanto preserva uma cavidade que pertence à imaginação do observador.
Todas as pessoas projetam suas lembranças, seus medos e suas perdas no que estiver “à mão”. Rosana Paste dá atenção a esse processo e permite-se construir objetos, ambientes e situações para suas projeções. Ao serem reveladoras sobre seu íntimo, suas propostas nos desconcertam e nos fazem encarar o que nos falta.
Essa mesma relação entre presença e ausência reaparece em Corpo Ilha. O título aproxima duas imagens que costumam permanecer separadas. O corpo pressupõe contato. A ilha sugere isolamento. Reunidos, esses termos descrevem uma existência que nunca alcança autonomia completa. Toda ilha depende de um corpo de água muito mais extenso do que seu território. Todo corpo depende da rede de relações que lhe permite existir. A obra aproxima geografia e anatomia para recordar que nenhuma individualidade se sustenta fora da experiência coletiva. Mas que isso não elimina a individualidade, que se faz forte a cada afirmação “eu estou aqui e este é o meu corpo”.
Se o título da mostra referencia a alteridade rimbaldiana, podemos recorrer a outro francês para pensar essa sociabilidade da memória. Halbwachs observou que a memória nunca pertence exclusivamente ao indivíduo. Toda lembrança encontra apoio em grupos sociais, vínculos familiares, espaços compartilhados e práticas culturais. Os trabalhos de Rosana Paste materializam essa hipótese. O bronze conserva a aparência de permanência, mas seu sentido permanece ligado aos encontros que moldaram aquele corpo. A escultura apresenta uma forma singular sem romper com aquilo que a constitui e o isolamento aparente revela uma trama invisível de pertencimentos.
Essa dimensão coletiva alcança outra intensidade em Rosaninha. As pequenas esculturas, sobretudo quando aparecem em conjuntos, entregam as multiplicações do eu. Cada elemento preserva autonomia, mas adquire novo significado quando se aproxima dos demais. A repetição, certamente, não elimina diferenças, pois é o que nos permite perceber pequenas variações de si que o sujeito autocentrado é incapaz de considerar.
A escolha desse procedimento encontra paralelo na própria experiência social. Georg Simmel compreendeu que a vida coletiva nasce do encontro entre singularidade e repetição. Nenhum indivíduo existe fora das formas sociais que compartilha com outros. Cada pessoa ocupa uma posição irrepetível, embora participe de estruturas comuns. As sucessivas Rosaninhas transformam essa condição em imagem, enquanto continuam a nos remeter à artista. O conjunto recorda uma genealogia, uma comunidade ou uma sucessão de gerações. Cada escultura mantem sua existência própria, mas é o conjunto que permite compreender a extensão da experiência evocada.
Essa noção também alcança Cipó. A instalação cresce no espaço. O bronze assume características vegetais enquanto o vidro introduz transparência, luz e fragilidade. A matéria rígida aproxima-se da matéria orgânica. Em Rosana, a linha e a vida são o sinônimo da continuidade instável. O cipó existe porque encontra apoio em outras estruturas. Seu crescimento depende do contato. Ele sobe, contorna, envolve e modifica aquilo que toca. A imagem oferece uma metáfora precisa para compreender a constituição do sujeito. Ninguém cresce isoladamente. Toda existência incorpora marcas provenientes da linguagem, da família, da história e das relações afetivas. Aquilo que chamamos identidade corresponde ao acúmulo dessas aderências.
O diálogo entre as obras de Rosana Paste e Lando vem nos dizer que a alteridade não constitui um tema entre outros. Ela corresponde a um fundamento. Em Eu é o outro, o sujeito existe porque incorpora presenças que jamais controla por completo. Cada lembrança modifica as anteriores; cada encontro altera a percepção de quem acreditávamos ser; cada corpo guarda marcas cuja origem já não pode identificar. Nesse sentido, Eu é o outro apresenta a existência como processo de composição contínua entre matéria, memória e convivência. Ao final do percurso, permanece a percepção de que conhecer a si mesmo nunca significa alcançar um núcleo imóvel, mas reconhecer a quantidade de vidas, vozes e tempos que permanecem inscritos em cada corpo.
Revisão: Alana de Oliveira


















