A contenção do sublime em Fayra Moreira

Essa primeira individual de Fayra Moreira é uma oportunidade para falarmos sobre as visadas da pintura contemporânea. Pode parecer estranho dizer isso, mas falamos pouco sobre questões atuais da pintura. Quando falamos, costuma ser de modo rarefeito ou com retomadas históricas e repetições de confrontos amaciados pelas décadas. Dizemos da narratividade, da abstração x figuração, da teatralidade, da autonomia, das camadas da superfície e do fuzuê dos anos 1980 (texto, imagem, mídia de massa, colagem, apropriação). Não sei bem se isso nos ajudaria em uma aproximação dos trabalhos de Fayra Moreira apresentados em A linguagem do transe, na Galeria Homero Massena.

Poderíamos, certamente, falar sobre elaboração do Eu ou sobre as condições simbólicas do gesto pictórico, que parecem seguir interesses explícitos da artista. Noutro sentido, das muitas possibilidades para se discutir o cenário da pintura contemporânea, a performatividade e o sublime talvez nos ajudem. Minha percepção, por enquanto, é de que Fayra Moreira realiza uma espécie de contenção do sublime pela força performativa de suas pinturas.

Aplicada à pintura, a noção de performatividade não diz respeito à teatralidade nem ao registro de uma ação corporal, mas à capacidade da imagem de determinar uma situação perceptiva. Escala, matéria, textura, ritmo e cor participam dessa experiência ao orientar a distância do observador, o tempo de permanência diante da obra e o modo como o corpo percorre o espaço expositivo. Ou seja, isso diz respeito a como a presença de uma pintura afeta nosso comportamento diante dela. A pintura não comunica apenas um conteúdo. Ela estabelece condições específicas para o olhar. Esse é um tipo de pintura que redefine a tela como um campo de ação, um rastro de um acontecimento corporal e uma força ativa que afeta o espectador no tempo e no espaço. Abraçada essa condição, as pinturas de Fayra Moreira, aliadas ao seu discurso, me direcionam para um caminho paralelo.

Desde Edmund Burke e Immanuel Kant, o sublime descreve uma experiência que emerge diante daquilo que ultrapassa a medida habitual da percepção. Na pintura moderna, Barnett Newman reivindicou essa tradição ao afirmar que “o sublime é agora” e transferir para a abstração uma experiência antes associada às paisagens românticas. Jean-François Lyotard retomou essa formulação ao compreender a arte desse tempo como a tentativa de apresentar aquilo que escapa à representação. Ao longo desse percurso, a escala tornou-se um elemento decisivo. Das paisagens de Caspar David Friedrich às pinturas de Newman e Mark Rothko, a monumentalidade frequentemente serviu como condição para essa experiência.

A linguagem do transe reúne pinturas de dimensões distintas e distribui a experiência do espectador entre aproximação e afastamento. Em A linguagem do transe, esse jogo de escalas não parece obedecer às decisões compositivas. Ele organiza diferentes formas de presença da pintura. “Mãe” constitui o momento em que essa relação aparece de maneira mais evidente. A pintura acompanha a dobra entre duas paredes da galeria e impede uma visão única do conjunto. A dimensão da obra exige deslocamento. O visitante recompõe lentamente a superfície enquanto campos vermelhos, violetas e negros modificam sua percepção da arquitetura. É um trabalho que simbolicamente não oferece um centro compositivo nem conduz o olhar por uma sequência. A experiência depende do tempo de permanência.

Newman compreendia a pintura abstrata como experiência imediata, capaz de produzir uma intensidade que dispensava qualquer referência figurativa. O interesse de Fayra Moreira, entretanto, segue outra direção. A dimensão da obra não produz um efeito de grandeza nem de choque. A condição afetiva impede essa leitura. A memória permanece inscrita na espessura da matéria pictórica, nas sobreposições de tinta, nas áreas de transparência e na lentidão exigida pela observação.

A contenção do sublime em Fayra Moreira
Foto: Fabíola Fraga

Já a contenção torna-se mais nítida na série “Ele vem me visitar nos meus sonhos de vez em quando”. A distância exigida por Mãe dá lugar à aproximação. O olhar passa a acompanhar pequenas diferenças de textura, oscilações cromáticas e marcas discretas da superfície. A série interrompe a circulação acelerada característica de muitas exposições.

Esse aspecto toca uma questão recorrente nas discussões sobre o sublime contemporâneo. Abigail Ascenso observa que grande parte da produção recente mantém uma associação entre essa experiência e a escala monumental, seja pela dimensão física das obras, seja pela ocupação do espaço arquitetônico. Fayra Moreira sugere outra possibilidade. A intensidade da experiência não depende exclusivamente da nossa relação de apequenamento diante do insondável. Ela pode surgir da concentração do olhar e da duração da observação.

A diferença entre “Mãe” e “Ele vem me visitar nos meus sonhos de vez em quando” não corresponde a uma oposição entre grande e pequeno formato. Cada conjunto produz uma modalidade distinta de performatividade. Uma pintura solicita deslocamento contínuo pelo espaço. A outra exige aproximação e suspensão do ritmo habitual da visita. Em ambos os casos, a experiência nasce da relação física estabelecida entre corpo e imagem.

Essa escolha também interfere na compreensão da abstração presente na exposição. A trajetória da artista, marcada por investigações dos atritos e condensações em suas experiências autorreflexivas, ainda que com extensões coletivas, não conduz a uma iconografia reconhecível. A abstração preserva essas experiências e não se nega como representação. Ou seja, a memória encontra permanência na matéria da pintura, não na ilustração de acontecimentos. Cor, rasura, saturação e textura constituem formas de elaboração dessas experiências.

O transe designa um estado de passagem que atravessa memória, sonho e presença. A pintura oferece uma forma para essa experiência sem encerrá-la em um significado determinado. A aproximação proposta por Lyotard entre o sublime e a apresentação do inapresentável encontra aqui uma formulação discreta. Não há qualquer esforço para transformar a pintura em alegoria do indizível. Como era de se esperar, os trabalhos preservam zonas de indeterminação que permanecem abertas à experiência do espectador.

Essa contenção também impede que o gesto pictórico seja interpretado como exteriorização espontânea da subjetividade. A superfície evidencia decisões materiais com certo rigor. Sobreposições de tinta, campos de cor e pequenas interrupções do gesto organizam uma construção lenta, incompatível com a ideia de improviso e inocência frequentemente associados à abstração gestual, ainda que não sejam elementos referências ao cálculo compositivo.

Uma formulação de Simon Morley contribui para compreender esse aspecto da exposição. Para o autor, o sublime permanece relevante na arte contemporânea porque designa situações em que a percepção encontra algo que resiste à plena compreensão, sem depender da monumentalidade ou de qualquer referência ao transcendente. Sua relevância está sustentada na capacidade da arte de produzir situações em que o espectador reconhece a insuficiência de seus esquemas habituais de percepção. Trata-se menos de um excesso espetacular do que de uma suspensão do entendimento.

Torna-se evidente que o aspecto mais consistente da pesquisa de Fayra Moreira não reside na retomada da abstração nem na atualização do sublime como categoria histórica. Sua contribuição está na maneira como aproxima essas questões por meio da performatividade da pintura. A grandiosidade de “Mãe” e a contenção de “Ele vem me visitar nos meus sonhos de vez em quando” constituem respostas diferentes para um mesmo problema: como a pintura produz presença.

A contenção do sublime em Fayra Moreira
Foto: Fabíola Fraga

Essa hipótese também aponta um caminho para os desdobramentos futuros de sua produção. A convivência entre imagens que ocupam arquitetonicamente o espaço e imagens que se infiltram silenciosamente no olhar abre uma investigação sobre escala jamais esgotada na pintura contemporânea.  Pinturas que se expandem e se contraem, que abraçam os espaços e pulsam em ritmos cardíacos quase musicais. É justamente nessa contenção do sublime, construída pela performatividade da pintura, que Fayra Moreira encontra sua contribuição mais singular.

Revisão de Alana de Oliveira

Rodrigo Hipólito
Rodrigo Hipólito
Mestre e doutorando pelo Programa de Pós-graduação em Artes da Universidade Federal do Espírito Santo. Escritor, historiador da arte, crítico e podcaster. Professor do Departamento de Teoria da Arte e Música (DTAM-UFES, 2015-2020), do Departamento de Comunicação (DEPCOM-UFES, 2023-2025) e dos cursos de Pedagogia e Psicologia da Faculdade Europeia de Vitória (FAEV, 2015-2023). Editor da Revista do Colóquio e redator do site Nota Manuscrita.

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