Pedro Valls Feu Rosa
Pedro Valls Feu Rosa
Desembargador do Tribunal de Justiça do Espírito Santo desde 1994. Programador de computadores, autor de diversos “softwares” dedicados à área jurídica, cedidos gratuitamente a diversos Tribunais do Brasil. Articulista de diversos jornais com artigos publicados também em outros países, como Suíça, Rússia e Angola.
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Nossa ciência

Dia desses alguém resolveu furtar uma bicicleta. Surgiu daí um processo. Fiz algumas contas: foram 42 servidores, um Delegado de Polícia, um Juiz de Direito, um Promotor de Justiça, três Desembargadores e um Procurador de Justiça, ao longo de dois anos, discutindo o caso – que acabou em uma pena alternativa. Há algum sentido nisso?

Fiquei a recordar-me de um outro acusado, preso em flagrante, que confessou seu crime na delegacia. Todas as testemunhas presentes no local foram ouvidas, e disseram a mesma coisa. O inquérito, uma vez concluído, foi para o sistema judiciário – que, por força de lei, ouviu todos novamente nos dois anos seguintes. Para que, afinal?

Uma pessoa alugou dado imóvel. Terminado o prazo da locação o inquilino decidiu nele permanecer. Se isto tivesse acontecido nos EUA ou no Reino Unido uma simples ida a alguma delegacia de polícia teria sido suficiente. Mas não aqui: o caso foi parar nas mãos da pesada e sobrecarregada estrutura judiciária – que levou alguns bons anos para resolver o problema.

Alguém tem algo a receber do Estado. Temeroso, o administrador de plantão acaba judicializando a questão – afinal, não quer ser responsabilizado posteriormente. Foi assim que certa vez assinei um alvará de R$ 0,54. É assim que constatou-se ser o Estado o maior litigante do sistema judicial.

Os casos acima são comuns. Acontecem aos milhares, todos os dias. Nos termos da lei devem ser processados e julgados. Integram estatísticas. Acarretam cobranças dos órgãos de controle, pois que, afinal, “todos os processos são iguais”. Acuadas, as instituições partem para o aumento de quadros e de despesas – que pouco ou mesmo nenhum efeito terá.

Enquanto isso acaba prejudicada a análise de processos os mais sérios, com imensos prejuízos para a cidadania e economia de todo um país.

Há muitos anos um advogado italiano, de nome Piero Calamandrei, nos alertava para o fato de que a ciência processual estava a cometer o sério pecado de estudar o processo como algo isolado, ao largo da realidade, distante, em uma expressão, da justiça. Contemplo nossos juizados e tribunais, em tempos de tantas e tão importantes reformas, e fico a pensar neste grande profissional. E no sentido de nossas caminhadas pelo mundo das leis. O que temos sido, afinal? De que temos servido?

Pedro Valls Feu Rosa
Pedro Valls Feu Rosa
Desembargador do Tribunal de Justiça do Espírito Santo desde 1994. Programador de computadores, autor de diversos “softwares” dedicados à área jurídica, cedidos gratuitamente a diversos Tribunais do Brasil. Articulista de diversos jornais com artigos publicados também em outros países, como Suíça, Rússia e Angola.

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