Todos os dias caminho sobre uma corda bamba.
Não aquela estendida entre dois prédios, capaz de arrancar aplausos de uma plateia admirada. A minha é invisível. Estende-se entre a mulher que trabalha, a mãe que acolhe, a esposa que tenta permanecer presente, a filha que se preocupa, a amiga que não consegue visitar, e a profissional que carrega para casa histórias que não lhe pertencem, mas que insistem em permanecer.
Sabemos todos, sou promotora de Justiça e, no dia 06 de julho, completo meus 20 anos de carreira!
Na área criminal aprendemos cedo que os processos não são feitos de papel. São feitos de gente. Gente que perdeu o rumo. Gente que perdeu alguém. Gente que perdeu a esperança.
Os autos chegam organizados em pastas, numerados, catalogados. Mas por trás de cada página existe uma vida que, em algum momento, saiu dos trilhos. Há vítimas tentando juntar os pedaços de si mesmas. Há acusados cujas escolhas os conduziram a becos sem saída. Há famílias inteiras soterradas por consequências que se espalham muito além do crime.
É um trabalho estranho. Exige firmeza sem endurecimento. Exige empatia sem ingenuidade. Exige que se enxergue o ser humano sem perder de vista os atos que praticou.
Todos os dias visitamos lugares escuros da alma humana.
E voltamos para casa.
Voltamos para ajudar na tarefa da escola, perguntar sobre a prova de matemática, ligar para a mãe, lembrar do aniversário de alguém, resolver a conta esquecida, organizar a rotina do dia seguinte.
Como se fosse possível atravessar tantas vidas e chegar intacta ao jantar.
Mas não chegamos. Ninguém chega.
Em algum lugar do caminho acumulamos cansaços que não aparecem em exames. Guardamos dores que não cabem em laudos. Aprendemos a sorrir quando a alma pede silêncio.
Ao mesmo tempo, uma voz persistente continua cobrando perfeição.
A boa profissional.
A boa mãe.
A boa esposa.
A boa filha.
Como se houvesse braços suficientes para sustentar todos os mundos ao mesmo tempo.
E então chega o dia em que o HD falha. Não por falta de capacidade. Não por falta de vocação. Mas porque até as máquinas mais resistentes precisam parar para resfriar.
É nesse momento que descobrimos algo curioso sobre certos corredores revestidos de espelhos. Neles, raramente se reflete aquilo que entregamos. As imagens devolvidas costumam ser deformadas pela distância, pela pressa ou pela conveniência de quem observa. O esforço desaparece. As madrugadas desaparecem. Os sacrifícios desaparecem.
Permanece apenas a expectativa de que se faça mais.
Sempre mais. E melhor. E mais rápido.
Talvez por isso tantas pessoas esqueçam o motivo que as trouxe até aqui.
Não o salário. Não os títulos. Não as formalidades.
Mas aquele desejo juvenil e quase ingênuo de transformar alguma coisa no mundo.
Ainda assim, ao final do dia, quando a casa silencia e as luzes se apagam, sobra um encontro inevitável.
Nós e nós mesmas. Nossos medos. Nossas dúvidas. Nossos sonhos.
E, curiosamente, é nesse instante de solidão que a corda bamba volta a fazer sentido.
Porque apesar do peso, apesar das quedas invisíveis, apesar das incompreensões que por vezes nos atravessam, ainda existe um propósito. A crença de que cada vida reconstruída importa.
A esperança de que uma vítima consiga seguir adiante.
A possibilidade de que alguém encontre um caminho diferente daquele que o levou ao banco dos réus.
Talvez seja pouco para alguns.
Mas para quem conhece os escombros humanos de perto, é suficiente para recomeçar a travessia na manhã seguinte.
E seguir caminhando. Um passo de cada vez.









