Moema Giuberti
Moema Giuberti
Moema Giuberti. Promotora de Justiça há 17 anos. Mestra em Direto pela PUC/SP. Poetisa nas horas vagas.
A opinião dos colunistas é de inteira responsabilidade de cada um deles e não reflete a posição de ES Hoje

As chagas da minha tela

Em uma manhã, por esses dias, acho que era quarta, não sei ao certo, acordei com aquele bipe insuportável. Intuitivamente, levantei-me e fiz aquela via dolorosa até o banheiro só para pegar meu celular. Depois que inventaram isso de higiene do sono, o bipe da manhã começou a vir de longe, corre sempre o risco de não acordar.

Como sempre, abri o whatsapp, o X (ainda precisa falar antigo Twitter?), o TikTok, só pra acender os infinitos foguinhos – que nem sei como arranjei-, e o Instagram. Lá, ao abrir o direct, não tinha nenhuma mensagem. Claro que não, afinal, porque alguém me mandaria algo entre 21:00 e 6:30? Mas, no canto inferior direito da tela, tinha uma caixinha. Uma caixinha parcialmente exposta. O que seria aquilo? Bem, eu nunca havia visto. Cliquei. E, quando cliquei, um mundo novo se abriu naquela caixinha quadrada parcialmente exposta no canto inferior direito.

Tinham fotos, céus, quantas fotos. E para chegar na próxima bastava um clique, literalmente, só um clique. “Qual a necessidade daquilo se já existem os stories?”, pensei. Ah, sim, não tinham vídeos, só fotos. Fui passando rápido, não sabia direito o que que era aquilo e queria ver onde daria. E fotos seguiam: fotos da cara, do cachorro, de um livro, uma garota estava estudando química, eu acho; um outro passeava com o cachorro, tinha até uma moça regando planta também… enfim… era uma variedade tão grande de momentos que parecia que eu tinha sido o mais atrasado pra chegar naquela festinha no canto inferior direito do meu direct.

No fim, depois de rolar, apareceu uma tela, muito parecida com a da câmera. Como assim? Era pra eu tirar uma foto também? Pera aí, mas eu não terminei de ver! Eu queria olhar o livro que o garoto estava lendo! Qual era a planta que a menina estava regando? A ligação na apostila de química era iônica ou covalente? Como assim eu não poderia voltar?!  Como assim eu nunca mais veria aquilo? Testei, a imagem foi instantaneamente enviada! Era só tirar que estava na rede. Apaguei, claro, era uma foto do chão, mas com dificuldade! (dica: no canto superior direito, com os quatro quadradinhos, demorei para achar)

E ali, na “tela da câmera”, me encarava, me julgava, me culpava: “novo Instant”. Era isso, não eram stories, não eram posts… eram instantes. Naquele ambiente, no qual me acostumei e, inevitavelmente, nos acostumamos, pelo menos todos aqueles que se sujeitam a compartilhar suas histórias, se fazia tudo, menos mostrar o instante.

O instante é um piscar de olhos, um clique de tela, infinitamente superior à noção do que é efêmero. O instante é o estado de ser que, por pouco, não escapa ao estar. Por isso, inevitavelmente, representa aquilo que há de mais real! E, de fato, nos “instants”, representa-se a realidade de forma crua, pelo menos no momento em que ela se encontra. Claro, não há um único ser que deseje compartilhar com o mundo, ou ao menos seu próprio mundo, seus piores instantes, assim, não se capta o total, mas ao menos uma parcela do real.

São inimagináveis as intenções da meta por trás de desenvolver mais um meio para expor-se. Manter-se conectado, em todo instante, por mais um instante -do outro, claro- é uma delas. Outros, um pouco mais… pessimistas… argumentam que pode até ser a entrada na era da hipervigilância, na qual todos expectam, incansavelmente, ver o instante do outro, e o outro, por sua vez, espera, ciclicamente, que todos compartilhem seus instantes.

Porém, apesar da motivação, ou talvez até do passo no plano maligno, a Meta, ironicamente, me apresentou, por meio do “novo Instant”, a natureza inescapável daquilo que desaparece sem a gente perceber. Aquela piscada, aquele bip, aqueles instantes que circundavam minha rotina matinal, são estalos irreplicáveis. O irreplicável é raro, o irreplicável é precioso, e por mais que se repita, já não será o mesmo. O meu instante era raro, era precioso. E assim era também o instante da planta, do livro, do cachorro e até da química, para seus autores, unicamente por serem, talvez, meramente memoráveis.

O instante deles, assim como o meu, era o mais real que se pode ser no momento em que estava. Porém o meu pertencia somente a mim (agora também a você), já o deles tornou-se parte do meu.  E, claro, muito se fala sobre mediarmos nossas relações interpessoais com imagens idealizadas nas redes sociais.

Naturalmente, o “Instant”, apesar de revelar apenas um recorte positivo de uma realidade por vezes negativa, torna as imagens menos celestiais, e, por isso, ele pode ser aplaudido! Mas será que vivemos efetivamente nosso Instante quando, ao invés de pertencermos a ele, e fazermos dele nosso, estamos ocupados entregando-o ao mundo?

As chagas da minha tela

Claro, não há problema em compartilhar um momento devidamente vivido com os que nos são queridos, mas, sinceramente, o quão necessário, e, mais que isso, útil, é compartilhar com o mundo seu (raro) instante?

***
Esta coluna foi escrita por João Vitor Giuberti Coradini

Moema Giuberti
Moema Giuberti
Moema Giuberti. Promotora de Justiça há 17 anos. Mestra em Direto pela PUC/SP. Poetisa nas horas vagas.

Você por dentro

Receba nossas últimas notícias em primeira mão.

Escolha onde deseja receber nossas notícias em primeira mão e fique por dentro de tudo que está acontecendo!

Comentários

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Mais Lidas

Notícias Relacionadas

[the_ad_group id="63695"]