Hoje, voltando da escola do meu filho, parei na faixa de pedestres. Uma moça atravessava, distraída, os olhos mergulhados no celular. Não percebeu que eu havia parado para que ela passasse em segurança. Nenhum gesto, nenhum olhar. E, ainda assim, lá estava eu — atenta, cuidadosa, zelando por alguém que nem imaginava minha existência.
Naquele instante simples, senti algo me atravessar. Pensei em quantas vezes também caminhei distraída, cega de mim mesma, ocupada demais com as urgências pequenas da vida — e, mesmo assim, fui protegida. Quantos livramentos recebi, sem sequer notar. Quantas vezes um desvio no tempo, um atraso inesperado, um silêncio imposto pela vida foram, na verdade, mãos invisíveis me guardando do que eu nem saberia nomear.
Chame de destino, acaso, energia ou Deus. Eu chamo de cuidado de Deus.
Cuidado que age no silêncio, que não exige reconhecimento, que apenas acontece — como o freio que se aciona a tempo, o telefonema que adia um encontro, a chuva que impede uma viagem. Cuidado que, às vezes, chega disfarçado de frustração, de perda, de dor.
A fé, percebo, é esse fio que nos liga ao invisível. Não é uma certeza tranquila, mas um gesto de confiança no escuro. É seguir acreditando mesmo quando o coração está cansado, mesmo quando as tempestades fazem doer até o que parecia sólido. É saber que, ainda que a fé falhe, o cuidado permanece. Que há algo maior que não nos abandona, mesmo quando não conseguimos orar.
Hoje, o que me move é a gratidão por esses cuidados que não se anunciam. Pelas mãos que seguram as nossas sem que saibamos de onde vêm. Pelas vezes em que fomos poupados de dores que jamais conheceremos. Pelos livramentos que não aparecem nas fotos, pelos anjos que não têm asas, pelos gestos que não recebem aplausos.
Que nossa gratidão seja mais atenta do que nossa pressa.
Que possamos perceber o amor que nos envolve, mesmo quando o mundo parece distraído. E que, nos dias de dor e incerteza, a fé — ainda que pequena — seja suficiente para reconhecer que o cuidado divino continua agindo. Invisível, mas constante.
Hoje, enquanto a moça terminava de atravessar a rua, senti vontade de sorrir. Ela não sabia, mas aquele breve instante era uma prece. Uma lembrança de que o amor verdadeiro não se mostra — apenas cuida.
Ótimo dia, meus amigos!









