Hoje meu filho chegou em casa com uma vitrola. Trazia nos olhos um brilho antigo, desses que atravessam o tempo. Com sorriso maroto, descobriu o gosto pelas coisas que se podem tocar, cheirar, guardar. O gosto da eternidade em meio ao efêmero.
Saindo do trabalho, me vi compelida a ir a uma loja de discos de vinil. Ali, entre prateleiras e silêncios, comprei dois tesouros: Nelson Gonçalves e Chico Buarque. Meus dedos tateavam as capas como quem acaricia um passado adormecido, prestes a despertar.
Nossa família à mesa do jantar, a vitrola girava o mundo de volta. Chico e Nelson cantavam, e dentro de mim um vulcão de lembranças explodia em pequenas bolhas de chiclete — aquelas que estouravam na boca da menina que fui.
Senti novamente a brisa das primaveras de Colatina. Vi as sextas-feiras familiares em festa, as pizzas da minha mãe, meu pai cantando, todos nós dançando em volta da fogueira invisível da vida. Recordei a mangueira frondosa diante da nossa casa, suas folhas mais verdes ao luar, o sussurro vibrante de seu chacoalhar embalando a noite.
Enquanto Nelson entoava sua voz grave, o tempo suspendeu-se numa bolha. Era só nosso, intocado, como se a vida inteira coubesse naquele instante entre o ontem e o agora.
Pensei: é disso que precisamos, voltar aos velhos bons hábitos.
Numa era em que tudo corre pelas veias digitais e se dissipa como fumaça, é urgente reaprender o gesto da presença. Numa época em que a IA é a sensação do momento, reaprender a olhar nos olhos, faz acender a chama humana dentro de nós.
Nossos antepassados conheciam o segredo — o valor da roda de conversa, do pão repartido, da escuta sem pressa, das cadeiras a beira da calçada, das conversas no final de tarde.
Hoje, quando a vida se esfarela em pixels, resistir é sentar-se à mesa, rir de uma mesma história, dividir o silêncio sem medo. É guardar no corpo a música que atravessa gerações. É fazer da convivência um altar invisível onde o humano se reconhece inteiro.
Voltar aos bons hábitos não é nostalgia, mas sobrevivência afetiva. É costurar o tempo com linhas de memória e presença. É lembrar que, no fundo, somos feitos do gesto simples de estar juntos.
Talvez o futuro se salve assim: equilibrando a pressa líquida do mundo digital com a serenidade das raízes. Entre um clique e outro, que nunca nos falte o vinil, a mesa farta, a árvore frondosa, o luar a nos lembrar que viver é, sobretudo, partilhar.










Lendo esse seu texto me vieram algumas questões: se no passado era tão bom compartilhar a vida com outras pessoas, viver coisas reais como ouvir música, ler livros e enxergar ao redor, por que deixamos de fazer isso? Será que era mesmo tão bom?
Será que vida e o mundo se tornaram tão difíceis de viver a ponto de preferirmos fugir para o digital do que conviver com outras pessoas? Será que hoje estamos dispostos a abrir mão do entretenimento que a internet às proporciona para retomar os hábitos simples?