Moema Giuberti
Moema Giuberti
Moema Giuberti. Promotora de Justiça há 17 anos. Mestra em Direto pela PUC/SP. Poetisa nas horas vagas.
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Os silêncios incômodos

Meus amigos, minhas amigas, dia desses, eu e minha família fomos a um restaurante conhecido, em um bairro nobre de uma grande cidade. Atendimento impecável, ambiente sofisticado, pratos bem executados. Tudo parecia funcionar com precisão. Tudo… exceto a diversidade. Em pouco tempo, uma pergunta se impôs em silêncio: por que todos os garçons eram brancos? E por que não havia nenhuma mulher entre eles?

A única mulher visível era a maître — elegante, séria, discreta. Ao redor, uma engrenagem de homens brancos circulava com eficiência pelas mesas. Nenhuma mulher servindo. Nenhuma pessoa preta. Nenhum corpo gordo, velho, deficiente, fora do padrão. Aquela ausência gritava mais alto do que a música ambiente. Não era apenas um detalhe. Era um sintoma.

É preciso nomear o que salta aos olhos, ainda que cause desconforto: racismo estrutural e sexismo institucional. Porque não há como acreditar que em uma cidade com uma maioria de pessoas negras e tantas mulheres competentes, nenhuma delas tenha se candidatado ou sido considerada para os cargos ali. A ausência não é acaso. É política — mesmo que inconsciente.

Talvez alguém diga que é apenas coincidência. Que no dia em que fomos, justamente, não havia mulheres escaladas. Ou que nenhuma pessoa preta apareceu para a seleção. Mas até quando vamos tratar como “coincidência” a repetição exaustiva de exclusões? Até quando fingiremos que a vitrine social de certos espaços reflete apenas mérito, e não filtros racistas e misóginos que operam silenciosamente?

E se o motivo da não contratação de mulheres estiver relacionado à possibilidade de gravidez, às licenças-maternidade, às cólicas da menarca ou às alegadas “emoções” femininas? Estaríamos diante de justificativas biológicas para a manutenção da desigualdade. Nada novo sob o sol: o velho patriarcado ainda se apoia em supostas fragilidades femininas para nos tirar do jogo — mesmo quando não há regras explícitas.

Essa visita ao restaurante virou, para mim, uma visita ao espelho. Um lembrete de que o racismo e o machismo não se mostram apenas em atos violentos, mas também nas escolhas cotidianas, nas ausências repetidas, nas composições “naturais” que se tornaram normais. Precisamos reaprender a olhar para os ambientes e nos perguntar: quem falta aqui? Por que falta? E o que isso diz sobre nós?

Nem todo silêncio é neutro. Às vezes, não poucas, ele é conivente.

Moema Giuberti
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Moema Giuberti. Promotora de Justiça há 17 anos. Mestra em Direto pela PUC/SP. Poetisa nas horas vagas.

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