Maria Tereza Samora
Maria Tereza Samora
Especialista em performance cognitiva emocional. Psicopedagoga Clínica com formação neuromudalação, mentora de vestibulandos e acadêmicos, educadora parental, treinadora de inteligência emocional para crianças e adolescentes, mãe, palestrante e empreendedora.
A opinião dos colunistas é de inteira responsabilidade de cada um deles e não reflete a posição de ES Hoje

Será que estamos entregando o celular cedo demais?

Há alguns anos, a pergunta dos pais era: “Com quantos anos meu filho pode atravessar a rua sozinho?”

Hoje, uma nova pergunta aparece cada vez mais cedo: “Com quantos anos meu filho pode ter um celular?”

E, para ser sincera, talvez estejamos fazendo a pergunta errada.

Recentemente tive contato com um estudo publicado no Journal of Adolescent Health que investigou famílias que optaram por adiar a entrega do smartphone aos filhos adolescentes.

O resultado chamou atenção.

Ao contrário do que muitos imaginam, os adolescentes não ficaram isolados socialmente. Pelo contrário. Pais e filhos relataram mais tempo para atividades offline, maior participação em esportes, brincadeiras, leitura, criatividade e fortalecimento dos vínculos familiares.

Isso me fez refletir sobre uma realidade que observo diariamente.

Vivemos em uma época em que o celular passou a ser visto quase como um item obrigatório da infância. Muitas crianças sequer chegam à adolescência sem possuir um aparelho próprio.

Mas será que elas realmente precisam? Ou nós, adultos, estamos cedendo à pressão social?

Muitas famílias dizem: “Todo mundo da sala tem” ou “Meu filho é o único sem celular”. Tem ainda “Tenho medo dele ficar excluído”

E existe uma frase que escuto com frequência: “Mas é o único momento de sossego que eu tenho.”

E eu compreendo esse sentimento.

A rotina é corrida. Trabalhamos, cuidamos da casa, resolvemos problemas e, muitas vezes, estamos exaustos. O celular acaba se tornando uma solução rápida para entreter os filhos e garantir alguns minutos de tranquilidade.

Mas precisamos refletir: qual é o preço desse sossego?

Porque, enquanto ganhamos alguns minutos de silêncio hoje, podemos estar perdendo oportunidades valiosas de convivência, diálogo, criatividade e desenvolvimento.

Nenhum pai ou mãe faz isso por mal. Pelo contrário. A maioria está apenas tentando dar conta de tudo.

Mas talvez seja hora de nos perguntarmos se estamos oferecendo aos nossos filhos aquilo de que eles realmente precisam ou apenas aquilo que é mais fácil no momento.

Nenhum pai quer que seu filho se sinta diferente.

Mas talvez precisemos fazer uma pergunta ainda mais importante: O que ele deixa de viver quando passa horas conectado?

Quando entregamos um smartphone, não entregamos apenas um aparelho. Entregamos acesso ilimitado a redes sociais, vídeos, notificações, influenciadores, jogos e estímulos que disputam atenção a todo momento.

E o cérebro infantil e adolescente ainda está em desenvolvimento.

A região responsável pelo autocontrole, pela tomada de decisões e pela capacidade de avaliar riscos ainda não está madura. Por isso, esperar pode ser uma escolha de proteção, não de punição.

E esperar não significa isolar. Significa oferecer outras oportunidades de crescimento. Como brincar, ler, criar, conversar e praticar esportes.

Aprender a lidar com o tédio. Desenvolver autonomia no mundo real antes de mergulhar no mundo digital.

O estudo também mostrou algo muito interessante: muitas famílias optaram por uma exposição gradual à tecnologia.

Ou seja, não é uma discussão entre “ter” ou “não ter” celular.

A questão é: como, quando e de que forma essa tecnologia será introduzida.

Essa reflexão também me faz olhar para dentro da minha própria casa.

Minha filha completou recentemente 12 anos e ainda não possui um smartphone próprio. E, sinceramente, ela não sente falta. Quando precisa usar a tecnologia para assistir algo, pesquisar ou conversar com alguém, utiliza meu celular ou o do pai. Ela mesma costuma colocar um tempo limite de uso e, ao terminar, devolve o aparelho. Esse processo foi construído naturalmente ao longo dos anos.

Com meu filho foi parecido. Hoje, aos 16 anos, ele tem mais autonomia, mas isso foi acontecendo de forma gradual. Durante muitos anos utilizamos aplicativos de controle parental e limites de tempo. Apenas mais recentemente flexibilizamos algumas configurações devido às demandas escolares, trabalhos e pesquisas. Ainda assim, acompanhamos os relatórios de uso e mantemos conversas frequentes sobre equilíbrio digital.

Compartilho isso não porque exista uma fórmula pronta, mas porque muitas famílias acreditam que é impossível estabelecer limites. E eu gostaria de deixar uma mensagem de esperança: é possível.

Quando os combinados são construídos desde cedo, quando existe diálogo e coerência, a tecnologia deixa de ocupar o centro da vida e passa a ser apenas mais uma ferramenta.

Eu sei que cada família tem sua realidade. Algumas precisam que os filhos tenham acesso ao celular por questões de segurança, deslocamento ou comunicação. E está tudo bem. A questão não é demonizar a tecnologia.

A questão é não terceirizar para ela o papel que é nosso.

Talvez o desafio não seja decidir quando entregar um celular. Talvez o desafio seja ensinar nossos filhos a viver bem mesmo quando ele não está nas mãos.

Porque a infância passa rápido.

E uma vez perdida, não existe botão para voltar.

E como eu sempre digo: Mentes saudáveis criam um mundo melhor.

Referência científica: Vaterlaus, J. M., Carney, T., & Kroemer-Spiess, P. (2026). Delaying adolescent smartphone ownership: A qualitative dyadic study with parents and adolescents. Journal of Adolescent Health.
Maria Tereza Samora
Maria Tereza Samora
Especialista em performance cognitiva emocional. Psicopedagoga Clínica com formação neuromudalação, mentora de vestibulandos e acadêmicos, educadora parental, treinadora de inteligência emocional para crianças e adolescentes, mãe, palestrante e empreendedora.

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