Comemorar a Proclamação da República não significa desconhecer que o Império foi derrubado mais por suas qualidades do que pelos seus defeitos. As forças econômicas e políticas que resistiram à abolição da escravatura usaram os militares e o movimento republicano para derrubar um governo percebido como sendo contrário aos seus interesses. Não por acaso, a Proclamação da República ocorreu em 1889, um ano e pouco após a abolição.
Ainda assim, abandonar a monarquia europeia instalada no Brasil foi um avanço, mesmo com o exilio forçado de líderes reformistas importantes como Joaquim Nabuco e André Rebouças e o enfraquecimento político da pauta de avanços econômicos e sociais que deveria se suceder ao fim da escravidão.
Em 1989, ao completar 100 anos, a República brasileira realizou eleições presidenciais livres e diretas sem tutela militar, com nada menos que 22 candidatos de todo o espectro político, incluindo Lula, Collor, Brizola, Mário Covas, Ulysses Guimarães, Maluf, Ronaldo Caiado e Roberto Freire.
Parecia que havia se esgotado um longo ciclo de intervenções e golpes. A eleição de Collor indicava a opção nacional por uma agenda de reformas liberais e uma escolha estratégica pela implantação de uma economia de mercado integrada e competitiva.
A agenda executada de abertura comercial e eliminação da reserva de mercado da informática não foi pouca coisa, apesar do desfecho com crise aguda e impeachment.
O Plano Real e os oito anos de governo de Fernando Henrique Cardoso lapidaram a pedra bruta que emergiu na primeira eleição direta depois do regime militar de 1964 e consolidaram a escolha estratégica pela economia de mercado.
A estabilização macroeconômica, a nova moeda, o ambiente de preços livres e estáveis colocaram de pé um sólido sistema financeiro e monetário com padrões internacionais de funcionalidade.
A República brasileira deu mais um passo avançando na confiança de instituições econômicas e políticas a partir da mais importante delas: a moeda estável.
Atravessar o ciclo de radicalização e irracionalidade que polarizou a política brasileira sem retrocesso irreversível tem sido um duro teste para a República hoje.
A operação Lava-Jato foi o pano de fundo da desmoralização da política, da judicialização doentia das disputas pelo poder, sem que se pudesse comemorar avanços institucionais e mesmo morais na vida pública brasileira.
As forças mais motivadas pela agenda econômica de mercado aceitaram a convivência com uma perspectiva antidemocrática e iliberal. Por ironia, coube ao PT, auto identificado desde sua fundação com uma posição política anticapitalista avessa a alianças, liderar uma frente de centro-esquerda vitoriosa.
O ciclo de radicalização e irracionalidade impulsionada pelas redes polarizou a política em diversos países, o Brasil não é exceção. Aqui, essa radicalização vem cavando a própria desmoralização da política, apequenada em meio ao cipoal de conflitos pelos recursos de poder da máquina pública em todos os níveis.
A República tem uma agenda a cumprir junto ao poder local.
A história do Brasil é marcada pela concentração no poder central, o que precisa ser repensado: grandes questões com influência direta nas cidades dependem exclusivamente da União, como o sistema tributário, o financiamento do investimento em infraestrutura urbana, com déficit crônico e crescente, o drama da violência e da desigualdade social nos municípios de todos os tamanhos, a centralização do poder regulatório do governo federal – tudo isso tem reflexo na qualidade de vida do morador da cidade.
Como dizia Ulysses Guimarães, o cidadão mora no município, não na União.
Até para enterrar os fios e acabar com a poluição visual de postes que enfeiam a cidade e comprometem a segurança da rede elétrica dependemos do governo federal, sem mencionar a anacrônica taxa de marinha, do tempo do Império.
No calendário eleitoral brasileiro, temos pela frente eleições municipais em 2024. Uma oportunidade para que o interesse da cidade esteja no centro do debate e seja determinante na escolha dos eleitores, substituindo a guerra cultural e a polarização ideológica que dominaram o ambiente político nos últimos anos.
Renovar as lideranças locais, para que a prioridade seja a capacidade de empreender transformações locais em direção à prosperidade, e resgatar a confiança na política e na democracia só é possível de baixo pra cima, no plano local, nas eleições municipais.
Desde 1889 o caminho é seguir implantando a República.









