Luiz Paulo Vellozo Lucas
Luiz Paulo Vellozo Lucas
Luiz Paulo Vellozo Lucas - engenheiro de produção pela UFRJ com cursos de pós graduação em finanças (Arthur Andersen), desenvolvimento econômico(BNDES) e economia industrial (IE-UFRJ), mestrado em Engenharia e Desenvolvimento Sustentável pela UFES. Foi funcionário de carreira concursado do BNDES onde ingressou em 1980, aposentando-se em agosto de 2016. Foi prefeito de Vitória por dois mandatos consecutivos (1997-2000 e 2000-2004), deputado federal pelo Espírito Santo e foi diretor Presidente do BANDES, Banco de Desenvolvimento do Espirito Santo entre 2015 e 2016 e do IJSN-Instituto Jones dos Santos Neves entre 2019 e 2020. Luiz Paulo escreve quinzenalmente, sempre às sextas-feiras.
A opinião dos colunistas é de inteira responsabilidade de cada um deles e não reflete a posição de ES Hoje

A República e a cidade

Comemorar a Proclamação da República não significa desconhecer que o Império foi derrubado mais por suas qualidades do que pelos seus defeitos. As forças econômicas e políticas que resistiram à abolição da escravatura usaram os militares e o movimento republicano para derrubar um governo percebido como sendo contrário aos seus interesses. Não por acaso, a Proclamação da República ocorreu em 1889, um ano e pouco após a abolição.

Ainda assim, abandonar a monarquia europeia instalada no Brasil foi um avanço, mesmo com o exilio forçado de líderes reformistas importantes como Joaquim Nabuco e André Rebouças e o enfraquecimento político da pauta de avanços econômicos e sociais que deveria se suceder ao fim da escravidão.

Em 1989, ao completar 100 anos, a República brasileira realizou eleições presidenciais livres e diretas sem tutela militar, com nada menos que 22 candidatos de todo o espectro político, incluindo Lula, Collor, Brizola, Mário Covas, Ulysses Guimarães, Maluf, Ronaldo Caiado e Roberto Freire.

Parecia que havia se esgotado um longo ciclo de intervenções e golpes. A eleição de Collor indicava a opção nacional por uma agenda de reformas liberais e uma escolha estratégica pela implantação de uma economia de mercado integrada e competitiva.

A agenda executada de abertura comercial e eliminação da reserva de mercado da informática não foi pouca coisa, apesar do desfecho com crise aguda e impeachment.

O Plano Real e os oito anos de governo de Fernando Henrique Cardoso lapidaram a pedra bruta que emergiu na primeira eleição direta depois do regime militar de 1964 e consolidaram a escolha estratégica pela economia de mercado.

A estabilização macroeconômica, a nova moeda, o ambiente de preços livres e estáveis colocaram de pé um sólido sistema financeiro e monetário com padrões internacionais de funcionalidade.

A República brasileira deu mais um passo avançando na confiança de instituições econômicas e políticas a partir da mais importante delas: a moeda estável.

Atravessar o ciclo de radicalização e irracionalidade que polarizou a política brasileira sem retrocesso irreversível tem sido um duro teste para a República hoje.

A operação Lava-Jato foi o pano de fundo da desmoralização da política, da judicialização doentia das disputas pelo poder, sem que se pudesse comemorar avanços institucionais e mesmo morais na vida pública brasileira.

As forças mais motivadas pela agenda econômica de mercado aceitaram a convivência com uma perspectiva antidemocrática e iliberal. Por ironia, coube ao PT, auto identificado desde sua fundação com uma posição política anticapitalista avessa a alianças, liderar uma frente de centro-esquerda vitoriosa.

O ciclo de radicalização e irracionalidade impulsionada pelas redes polarizou a política em diversos países, o Brasil não é exceção. Aqui, essa radicalização vem cavando a própria desmoralização da política, apequenada em meio ao cipoal de conflitos pelos recursos de poder da máquina pública em todos os níveis.

A República tem uma agenda a cumprir junto ao poder local.

A história do Brasil é marcada pela concentração no poder central, o que precisa ser repensado: grandes questões com influência direta nas cidades dependem exclusivamente da União, como o sistema tributário, o financiamento do investimento em infraestrutura urbana, com déficit crônico e crescente, o drama da violência e da desigualdade social nos municípios de todos os tamanhos, a centralização do poder regulatório do governo federal – tudo isso tem reflexo na qualidade de vida do morador da cidade.

Como dizia Ulysses Guimarães, o cidadão mora no município, não na União.

Até para enterrar os fios e acabar com a poluição visual de postes que enfeiam a cidade e comprometem a segurança da rede elétrica dependemos do governo federal, sem mencionar a anacrônica taxa de marinha, do tempo do Império.

No calendário eleitoral brasileiro, temos pela frente eleições municipais em 2024. Uma oportunidade para que o interesse da cidade esteja no centro do debate e seja determinante na escolha dos eleitores, substituindo a guerra cultural e a polarização ideológica que dominaram o ambiente político nos últimos anos.

Renovar as lideranças locais, para que a prioridade seja a capacidade de empreender transformações locais em direção à prosperidade, e resgatar a confiança na política e na democracia só é possível de baixo pra cima, no plano local, nas eleições municipais.

Desde 1889 o caminho é seguir implantando a República.

Luiz Paulo Vellozo Lucas
Luiz Paulo Vellozo Lucas
Luiz Paulo Vellozo Lucas - engenheiro de produção pela UFRJ com cursos de pós graduação em finanças (Arthur Andersen), desenvolvimento econômico(BNDES) e economia industrial (IE-UFRJ), mestrado em Engenharia e Desenvolvimento Sustentável pela UFES. Foi funcionário de carreira concursado do BNDES onde ingressou em 1980, aposentando-se em agosto de 2016. Foi prefeito de Vitória por dois mandatos consecutivos (1997-2000 e 2000-2004), deputado federal pelo Espírito Santo e foi diretor Presidente do BANDES, Banco de Desenvolvimento do Espirito Santo entre 2015 e 2016 e do IJSN-Instituto Jones dos Santos Neves entre 2019 e 2020. Luiz Paulo escreve quinzenalmente, sempre às sextas-feiras.

Você por dentro

Receba nossas últimas notícias em primeira mão.

Escolha onde deseja receber nossas notícias em primeira mão e fique por dentro de tudo que está acontecendo!

Comentários

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Mais Lidas

Notícias Relacionadas

[the_ad_group id="63695"]