José Cirillo
José Cirillo
José Cirillo é doutor em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), mestre em Educação pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES,) onde é professor titular e coordenador do Programa de Pós-graduação em Artes. Pós-doutor em Artes pela Universidade de Lisboa. Foi Pró-reitor de Extensão da UFES (2008-2014); Diretor do Centro de Artes (2005-2008). Atua como coordenador do Laboratório de Extensão e Pesquisa em Artes (LEENA), desenvolvendo pesquisas sobre a arte e a cultura capixaba.
A opinião dos colunistas é de inteira responsabilidade de cada um deles e não reflete a posição de ES Hoje

SOBRE OS RITUAIS DE UNIÃO: a catarse da memória coletiva

Hoje, quando escrevo, é o primeiro domingo depois da Páscoa.  Novamente em Minas. E um grupo de jovens, ainda não adolescentes, mas também não mais crianças finalizaram seu período de iniciação ao cristianismo católico. A primeira comunhão.

A entrada na igreja desta vez estava um pouco diferente. Para além dos coroinhas, diáconos e o padre, um grupo de catequistas seguem no cortejo. Vestidos de branco, são conduzidos pela fumaça alva que emana do turíbulo. “O aroma e a fumaça incensam o altar, a cruz, o padre e a assembleia, simbolizando a purificação e a consagração da comunidade e das ofertas a Deus”. Era um rito de iniciação.

SOBRE OS RITUAIS DE UNIÃO: a catarse da memória coletiva

Sempre que estou em Minas, vou à missa com meu pai. Mas esta tem uma memória afetiva, e me tomou de assalto quando o padre Ernani, ao iniciar a missa, falou daquelas crianças e avisou para a comunidade que todas elas haviam se confessado, haviam pedido perdão a Deus por seus pecados e estavam livres de qualquer mácula para iniciarem sua nova vida em Cristo.

Me afastei do presente e me deitei no passado. No meu passado. Tomado pelo cheiro do incenso que me reconduziu à aquela manhã de 1971.

SOBRE OS RITUAIS DE UNIÃO: a catarse da memória coletiva

Era um domingo de 1971 quando, aos sete anos de idade, depois de um ano de catequese, tive que confessar meus pecados para me preparar para minha própria primeira comunhão. Eu, como uma criança que era, ainda não entendia bem o conceito de pecado. Mas o ritual pedia que antes da primeira comunhão nos confessássemos. Era como um filhote que não sabe bem sobre as regras de sua manada, nem das regras sociais…

Na época eu não entendia o porquê do ritual, apenas seguia o roteiro que nos foi dado, como em um espetáculo de teatro na escola.

Um padre me esperava no confessionário; na fila com alguns colegas, eu tinha que confessar. Esse era o roteiro da purificação. Logo, para me confessar, eu tinha que ter pecados. Embora eu não os entendesse. Vivia na inocência infantil que nos completa e nos deixa sempre felizes com a vida, em especial, aos sete anos. Não sabemos ainda das dores da vida.

Ai, lembrei das aulas da catequese nos domingos anteriores; recordei dos possíveis pecados que nos ensinaram, para além do original, que eu nunca entendera o porquê de eu ter um pecado que antecedia meu nascimento (hoje sei que é um dogma). Eram os Dez Mandamentos que eu decorara, então, pensei na minha ingenuidade pueril: bastava-me lembrar deles e ver qual eu poderia ter negligenciado…

Reitero que mesmo sabendo deles, não compreendia exatamente atos infantis como algo que pudesse ser tão grave a ponto de receber algum tipo de punição divina. Eu havia matado algumas formigas, colocado sal em uns sapos, cozinhado algumas minhocas como se fossem macarrão…, mas não entendia que isto ferisse o “não matarás!”. Então, enquanto a fila andava em direção al calvário da minha culpa, segui tentando criar lista, a qual desde sábado eu tentava construir.

Não mentirás. Eu não mentia para meu pai e nem para minha mãe; aprendi, aliá, eu e minha irmã, aprendemos muito cedo que mentir para eles nos fazia ser castigados pelo erro cometido e pela mentira… então a punição era dupla. O e engraçado é que nossa mãe nos ensinava essas coisas não nos punindo, mas contando histórias da própria infância dela com minha avó… eu e minha irmã não queríamos que aquilo acontecesse conosco; ai não mentíamos para eles. Hoje, entendi que aquilo era coerção psicológica, mais eficiente que qualquer punição física.

Mas, eu havia contado uma pequena mentirinha para minha avó. Esse era, então, um possível pecado, o primeiro da minha lista de confissões. Ele encabeçava minha lista, na medida que me aproximava do confessionário…

Me coloquei então a pensar outras possíveis infrações divinas, com base nos Mandamentos que estudamos por um ano. Então minha lista de atos que poderiam ser lidos como pecado foi sendo construída… Mesmo que eu não os sentisse como atos de culpa.

Observei quando outra criança saiu calada de uma daquelas duas caixas que parecia ser nossa câmara de tortura. Meu colega dirigiu-se aos bancos da igreja, pôs-se de joelhos em silêncio… ele permaneceu por um bom tempo, enquanto a fila andava… pensei quais teriam sido os pecados dele…

Lembrei de mais um meu, que me pareceu sério: eu furtei uma mexerica no mercadinho na outra esquina e a trouxe escondido em baixo da minha camiseta… minha mãe, quando chegamos em casa, me viu com aquilo, me fez voltar imediatamente lá com ela. “Você vai devolver e pedir desculpas”; e eu morri de vergonha. E para eu aprender, ela não comprou outra para mim… então cheguei ao meu segundo pecado, NÃO ROUBARÁS! Esse mandamento ecoou para sempre na minha vida.

Fui tentando encontrar outros possíveis delitos infantis. Não vou lembrar toda minha lista. Mas devo ter lembrado de ter desejado a bicicleta do meu colega, e cobiçar as coisas alheias era mais um deles… mas todos, hoje, me parecem ter sido muito inocentes. Se eu posso advogar a meu favor!

De posse dessa minha lista, não que eu ainda a entendesse o que era pecado, fui naquele domingo de 1971 ao confessionário. Tremia de medo e de ansiedade. Tínhamos dois confessionários: um com o padre da nossa igreja, que nos acompanhou a catequese toda, e outro com o bispo. Eu orava para ir no nosso padre. Mas, parece que a vida gosta de me pregar peças e colocar desafios que testam meus limites…

Na minha vez, fui direcionado para o Bispo. Eu gelei e engasguei quando ele me pediu para fazer o sinal da Santa Cruz… parei de respirar – meu coração disparou e um branco na minha mente se instaurou: não lembrava qual sinal era…

Ele insistia… eu não conseguia… olhei pela fresta a moça que nos acompanhava na catequese, em pé no inicio da fila. Ela ouvira o Bispo, que agora lhe perguntava:  “Vocês ensinaram o que a este menino?” Rapidamente, ela gesticulou curto, fazendo uma cruz rápida no peito. Ai eu lembrei, “era o em nome do pai” que ele queria. Era assim que eu tinha nomeado aquele sinal, que rapidamente fiz. A saga, quase tortura na mente daquele menino, seguiu.

“Conte-me seus pecados, meu filho”. Essa era a voz que ecoava, meio sem paciência (imagino hoje o porquê), naquela caixa emoldurada por uma densa cortina (acho que era roxa). A voz que avaliaria meus pecados infantis preenchia meus sentidos e me  fazia tremer o corpo frágil de criança.

Não me lembro se saí com a sensação de ter sido perdoado, apesar de ele dizer: “Eu te perdoo, meu filho”. Minha penitência me pareceu leve. Um pai nosso e dez Ave Marias… foi bem menos, me pareceu do que a do meu colega que eu via sair e se ajoelhar por minutos. Talvez não tenham sido tão graves os meus pecados imaginários.

Mas, penso hoje, o que poderia ser grave numa criança de sete anos que sempre foi criada com regras claras em casa. Enfim, a parte seguinte foi reunir-me com os demais que também confessaram suas máculas.

Nos dirigimos para nosso lugar na missa. Acompanhamos a homilia. Recebemos nossa primeira hóstia. O cordeiro de Deus que tirava os pecados do mundo e que, agora, tinha piedade de nós. Ele nos absolveu.

Agora fazíamos verdadeiramente parte daqueles com que Cristo compartilha sua vida, e por quem dera sua vida.

SOBRE OS RITUAIS DE UNIÃO: a catarse da memória coletiva

O padre Ernani seguia seu ritual quando minha mente retornou para aquela local onde apenas meu corpo esteve por instantes.

Meu pai, com suas dificuldades de locomoção – um homem religioso do tipo raiz, espera a fila acabar para tomar sua hóstia. O ajudei a se locomover até a ministra da eucaristia com a âmbula. Ela lhe ofertou a hóstia. As lembranças foram mais fortes enquanto eu ajudava meu pai a receber sua hóstia Em seguida, a ministra a ofertou a mim.

Minhas lágrimas desceram em silêncio, enquanto o sabor seco da hóstia se dissolvia de novo em mim. Eu já comunguei inúmeras outras vezes, mas esta teve um outro significado.

O pão da vida. O pão da última aliança.

SOBRE OS RITUAIS DE UNIÃO: a catarse da memória coletiva

O silêncio de todos, nos instantes seguintes falavam de fé. Cimentava a lembrança que me fez rever os 55 anos que separam esses dois domingos.

Hoje sigo, talvez com pecados que aquela criança que não conhecia a maldade de si nem do mundo. Sai desse domingo com a certeza de que o poder da fé, dos ritos e da catarse da coletividade ocupam um lugar preciso na ordem social e no conforto espiritual.

José Cirillo
José Cirillo
José Cirillo é doutor em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), mestre em Educação pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES,) onde é professor titular e coordenador do Programa de Pós-graduação em Artes. Pós-doutor em Artes pela Universidade de Lisboa. Foi Pró-reitor de Extensão da UFES (2008-2014); Diretor do Centro de Artes (2005-2008). Atua como coordenador do Laboratório de Extensão e Pesquisa em Artes (LEENA), desenvolvendo pesquisas sobre a arte e a cultura capixaba.

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