José Cirillo
José Cirillo
José Cirillo é doutor em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), mestre em Educação pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES,) onde é professor titular e coordenador do Programa de Pós-graduação em Artes. Pós-doutor em Artes pela Universidade de Lisboa. Foi Pró-reitor de Extensão da UFES (2008-2014); Diretor do Centro de Artes (2005-2008). Atua como coordenador do Laboratório de Extensão e Pesquisa em Artes (LEENA), desenvolvendo pesquisas sobre a arte e a cultura capixaba.
A opinião dos colunistas é de inteira responsabilidade de cada um deles e não reflete a posição de ES Hoje

Do Fonte (1917), de Duchamp, ao Porco (1966), de Nelson Leirner: o poder do sistema

O ano era 1917 e um artista anônimo chamado R. Mutt encaminhou uma exposição um urinou industrial como uma escultura chamada “A Fonte”. A peça era um urinol branco de porcelana que Duchamp inverteu e renomeou. Processo que vai ressignificar toda a arte a partir do final primeira década do século XX. Duchamp sabia que a peça seria recusada, mas ele queria questionar o sistema das artes e os valores da percepção.

Ai enviar um mictório invertido, Duchamp parece ter tido a intenção de questionar, ou pelo menos provocar, o conceito de arte e o papel das instituições e do sistema das Artes. A peça, enviada a um salão de artes que pretendia aceitar todas as modalidades de obra, foi enfrentado por esse objeto industrial ressignificado. A obra foi rejeitada e passou a ser um marco divisor para o que seria a arte contemporânea posteriormente.

Duchamp sabia que a obra seria desclassificada. Porem, a mostra se vangloriava de aceitar “tudo” que fosse apresentado; então, como resolver. A colocaram atras de uma cortina, não podendo ser vista. Não pode ser recusada formalmente, mas não a exibiram de fato.

Ele conhecia o poder do sistema das artes e da cultura naquele início do século XX.  Enviou a peça com um codinome para trafegar entre os artistas desconhecidos e não ser aceito apenas por sem quem ele era. Mas, para não contrariar o propósito da mostra, os organizadores encontraram uma solução técnica, a cortina. Duchamp sabia, e provocava reações, mas as coisas caminham, desde aquele tempo, como os detentores do poder querem que fosse.

Eles constroem narrativas que tentam desmontar as evidências. Narrativas que não apenas ocultam a verdade por trás dos fatos estéticos ou sociais, querem calar as divergências porque o sistema precisa continuar.

Solução de Duchamp?  Alimentar a arte a seguir com uma perspectiva nova: a arte conceitual. Algo que propunha ao artista que mais que dar conta dos fazeres e saberes da manualidade, era preciso inserir uma nova dimensão na produção artística: a reflexão conceitual, as amaras filosóficas, sociais, políticas e culturais que atravessam o fenômeno da obra de arte.

Essa precisa de Marcel Duchamp, mas que tornar-se uma tendencia em sua obra, está desenhando a produção artística ao longo de todo o século XX.

Mas, isto mudou a história dos equipamentos de cultura e da arte, mesmo com ares de contemporaneidade?

Vou tomar aqui outra obra, produzida 50 anos depois da Fonte de Duchamp. O Porco, de Nelson Leiner, de 1966, praticamente 50 anos depois. A obra trata-se de um porco empalhado, encaixotado em um engradado de madeira.

Do Fonte (1917), de Duchamp, ao Porco (1966), de Nelson Leirner: o poder do sistema
O Porco, 1966. Nelson Leirner. Porco empalhado em engradado de madeira
Fonte: acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo/Brasil

Eu conheci e trabalhei com Nelson Leiner. Era ele orientador de uma artista e amiga que trabalhávamos juntos nos anos de 1990. Leiner, na sua conhecida irreverência, dizia para mim e para a Lucrécia: “Vocês são sérios demais. Precisam relaxar mais e serem mais irreverentes”.

Nunca esqueci as palavras dele. E o acompanhei na Vila Rubim, no mercado, onde ele ficou encantando com a quantidades de peças relacionadas a religiões de base africana. Comprou centenas delas que depois foram usadas em trabalhos pelo mundo.

Do Fonte (1917), de Duchamp, ao Porco (1966), de Nelson Leirner: o poder do sistema
Obra de Leiner com objetos do sincretismo religioso brasileiro

Mas, nem sempre esse brilhante artista brasileiro tinha a liberdade poética de produzir e revelar sua plena irreverencia ao sistema das artes. E aí, o Porco, em 1966, nos joga na cara que mesmo com a reflexão proposta por Duchamp, ainda no início do século XX (1917), o sistema, para se manter como sistema, precisa de suas narrativas para se mante. De construir narrativas próprias para se manter como tal. E usa todos os seus braços para fazer isto, machuquem ou eliminem que for, desde que o sistema siga como sempre foi.

Por que digo isto?

Em 1967, Leiner tem duas ações que visam seguir o caminho de expor o sistema, suas dualidades, mesmo que não aparentes. Segundo Julia Lima (2020), nesse ano, dois dos episódios mais marcantes da carreira de Leiner se realizam: a “Exposição-Não-Exposição”, um tipo de performance, e a submissão de uma obra que consistia em um porco empalhado ao 4o. Salão de Arte Moderna de Brasília.

O primeiro, organizado para encerrar as atividades do Grupo
Rex, foi um happening muito curioso: quase como uma feira livre
de arte, Leirner estabeleceu que todas as suas obras poderiam
ser levadas gratuitamente da exposição, o que deixou a galeria
completamente vazia em oito minutos. Os trabalhos estavam
bloqueados, amarrados, presos, acorrentados e travados, e as
ferramentas para “libertá-los” estavam à disposição do público,
que se debatia e acotovelava para tentar conseguir garantir o seu.

Essa atitude jocosa de Leiner já revela que a obra deixava de ser os objetos em si e passava a ser a atitude do público querendo ter o seu quinhão. De fato, todos querem seu quinhão na disputa por território, ou em especial, poder (ter uma obra dele que poderia ter valor financeiro no futuro), como se a obra de Nelson fosse os objetos em si…

Mas, é no seu segundo ato que ele de fato cria um problema ao sistema da arte e cultura brasileiros. Já sabendo que seria recusado, por conhecer as regras do sistema, Leiner envia um obra acima do que se esperava, mesmo dele. Segue Julia Lima em seu texto de 2020:

[…] Já o segundo episódio foi tão notável quanto inesperado.
Com a expectativa de ter sua obra rejeitada, Leirner submeteu ao
júri do 4o. Salão de Arte Moderna de Brasília um porco
empalhado dentro de um engradado de madeira. Para
sua imensa surpresa, a obra foi admitida, o que o levou a
questionar publicamente, em um artigo publicado no Jornal da
Tarde, as razões pelas quais o júri havia incluído aquela peça no
salão, pedindo esclarecimentos e justificativas concretas, assim
como explicações sobre os critérios de admissão.

A obra encaminhada por Leiner certamente colocou a comissão julgadora, formada por especialista validados pelo sistema, em xeque: rejeitar seria dar o palco que sabiam que ele esperava, tendo em vistas sua filiação conceitual ¡a obra de Duchamp, mas aceita-lo era uma afronta ao demais artistas. Mas a segunda opção poderia calar Leiner. Uma espécie de ameaça velada para que ele se calasse e não criticasse o sistema.

Ledo engano, Leiner não se detinha fácil!

A atitude de Leiner foi enviar documento questionando que critérios o júri usou para aceitar aquela obra dele. Ele queria saber “as razões pelas quais o júri havia incluído aquela peça no salão, pedindo esclarecimentos e justificativas concretas, assim como explicações sobre os critérios de admissão.” Colocava o sistema em xeque!!

Nelson Leiner. Fonte: internet
Nelson Leiner. Fonte: internet

Em anos em que se seguiram, Leirner vinha se posicionando, como o fez comigo e Lucrécia, sobre a seriedade e frieza como os artistas contemporâneos tratam a arte. Mas também levantando em dúvidas sobre o mercado e os artistas, suas idiossincrasias, “apontando para a crescente pasteurização da produção atual e afirmando a impossibilidade do florescimento da crítica dentro de um contexto extremo de consumo.”

Ele declarou em uma de suas últimas entrevistas, durante a mostra “AI-5: Ainda não terminou de acabar” (Instituto Tomie Ohtake, 2018):

 “Estamos na grande época do consumo e das notícias pelo Instagram, Facebook… Hoje, a coisa real mesmo, colocada com inteligência, vai ser apenas vista por um grupo que já está a par”.

E o sistema segue vivo, fazendo suas vítimas e erguendo seus heróis quixotescos!

José Cirillo
José Cirillo
José Cirillo é doutor em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), mestre em Educação pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES,) onde é professor titular e coordenador do Programa de Pós-graduação em Artes. Pós-doutor em Artes pela Universidade de Lisboa. Foi Pró-reitor de Extensão da UFES (2008-2014); Diretor do Centro de Artes (2005-2008). Atua como coordenador do Laboratório de Extensão e Pesquisa em Artes (LEENA), desenvolvendo pesquisas sobre a arte e a cultura capixaba.

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