José Cirillo
José Cirillo
José Cirillo é doutor em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), mestre em Educação pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES,) onde é professor titular e coordenador do Programa de Pós-graduação em Artes. Pós-doutor em Artes pela Universidade de Lisboa. Foi Pró-reitor de Extensão da UFES (2008-2014); Diretor do Centro de Artes (2005-2008). Atua como coordenador do Laboratório de Extensão e Pesquisa em Artes (LEENA), desenvolvendo pesquisas sobre a arte e a cultura capixaba.
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O calvário dos esquecidos

Hoje é 27 de dezembro e mais um ano caminha para seu final.

Vivemos momentos de fé em dias melhores; de agradecimento pelas bençãos desse ano que se finda. E fazemos tudo isto iluminados por luzes que serpenteiam a cidade para nos lembrar desse momento. Onde antes eram postes iluminadas, teias criando túneis em ruas, hoje criamos “cidades do Natal”.

Projeções monumentais transformam palácios e catedrais em cenário de renas voadoras, soldadinhos de chumbo, flocos de neve, velhinhos de cabelos e barbas brancos, vestidos de vermelho… milhares de pessoas se esbarram entre batatas fritas, churros, pipocas, espetinhos de carne, sorvetes e uma série de outras comidas em praças de alimentação (algumas improvisadas, outras estruturadas) que celebram uma espécie de clamaria até as noites até o dia 6 de janeiro. Nesse dia, a visita dos Reis Magos ao menino recém-nascido, encerra o ciclo do Natal…

Até lá, a cidade pulsa, como se seus problemas não mais existissem. A segurança pública se desdobra, a limpeza urbana se intensifica – e nos iludimos de que tudo se acertou. Mas, segue o resto da cidade e de seus fenômenos cotidianos… seus apagamentos.

Quando falo em apagamentos me refiro a questões que são, deliberadamente, esquecidas. Esquecimentos são construções simbólicas que visam escrever/reescrever nossa memória coletiva, de modo a fazer desaparecer determinado fatos que não queremos, efetivamente, lidar com eles.

Fazemos de conta que não estão ali.

Aos pés do Palácio Anchieta, onde milhares de pessoas circulam entre as luzes e projeções de Natal, jaz um dos mais expressivos monumentos da cidade: Dona Domingas, de Carlo Crepaz.

A Escultura é um legado para a cidade e uma peça fora da curva no projeto poético deste artista, dado às formas clássicas da escultura pública. Vindo de uma tradição familiar de gerações, Crepaz se dedicou à representação da figura tridimensional novecentista clássica, em especial, as de temática religiosa.

Em documentação, recentemente levantada junto ao Museu Nacional de Belas Artes, no rio de Janeiro, comprovamos que ele tinha um certo fascínio pela estrutura do rosto negroide. A imagem de alguns bustos enviados para uma exposição em 1959 comprova isto.

Mas, o que isto tem a ver com o título dessa nossa reflexão natalina?

O calvário dos esquecidos

Nas noites iluminadas e movimentadas do Palácio Anchieta parecem estar separadas em um mundo paralelo. A parte de cima e a parte de baixo são mundo diferentes. Distantes.

A praça Roosevelt, entre a avenida Jerônimo Monteiro e a rua Nestor Gomes segue totalmente à escuras. Dona Domingas, encoberta pelo manto da noite segue o roteiro do seu calvário. Caminhava à margem do centro da capital. No meio de todos; observada por todos; temida por algumas crianças, adorada por outras… vagava pelo centro a cada caminhada que retornava a Santo Antônio, onde, entre charutos e resmungos, era musa de um escultor que redesenhou os monumentos urbanos do nosso estado.

Domingas, que inspirou Crepaz; seduziu o gosto artístico de colecionador de Chrisógono, prefeito da capital que deu a eternidade à Domingas na escadaria do Palácio Anchieta. Mas, socialmente, Domingas expõe muito do nosso preconceito com as camadas mais populares da nossa sociedade. Mulher e negra, não podia se esconder sobre o brilho dos diamantes que fazia Chica da Silva ser respeitada. Domingas tinha apenas a si mesma e a sua verdade.

Seguia contra a maré do tempo que marcara seu corpo exausto; seu gênio mais rude; sua personalidade forte. Seguiu com seus traços que encantaram o escultor e que se eternizou como monumento público no nosso estado.

Domingas não é apenas sobre ser um monumento, mas é sobre a resistência dos que enfrenta os status quo social. Mas, se ela foi protagonista ao ponto de toda uma remodelação urbana ter sido feita para que ela se elevasse aos pés da Escadaria Barbara Lindenberg, o tempo parece ser rude com ela – ou com o que ela representa.

Domingas é, talvez, o monumento mais expressivo da escultura pública capixaba, não exatamente por sua forma (algo que se aproxima do Balzac de Rodin: um volume que suporta um rosto cujas angústias se expressam em cada relevo, em cada marca do processo escultórico). Se a escultura de Crepaz redesenhou a arte da escultura e da modelagem em solo capixaba, podemos também afirmar que ele não se envergonhava de ter sua assinatura identificável – aliás, muitos escultores tidos como “modernos” em sua época, aceitavam encomendas de bustos e figuras acadêmicas (afinal, dinheiro para contas), mas eles não assinavam essas obras, no máximo, colocavam suas. Iniciais (como podemos ver no Parque Moscoso).

Crepaz tinha orgulho do que fazia; ele vivia a tradição escultórica de seu pai, seu avô… ou porque não dizer, do norte da Itália. Crepaz trouxe um pouco desse amor pela escultura para o Espírito Santo e foi responsável pela cadeira de modelagem e escultura na antiga Escola de Belas Artes e na UFES. Como legado, deixou escultores como José Carlos Vilar, cuja obra, bastante contemporânea, tem uma raiz na tradição escultórica – a qual aprendeu com Crepaz. Gerações posteriores, como Rosana Paste, o tem como mestre. Apenas alguns poucos não lhe reconhecem o valor para a história da escultura capixaba. Mas, estamos aqui para relembrar isto a cada dia.

A existência de Dona Domingas, na penumbra da noite em tempos de muita luz natalina não é apenas o abandono dessa escultura ímpar, é também um retrato do esquecimento que as atuais gerações têm do nosso passado.

Obscurecer Dona Domingas é mais um ato no calvário dos esquecidos!

José Cirillo
José Cirillo
José Cirillo é doutor em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), mestre em Educação pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES,) onde é professor titular e coordenador do Programa de Pós-graduação em Artes. Pós-doutor em Artes pela Universidade de Lisboa. Foi Pró-reitor de Extensão da UFES (2008-2014); Diretor do Centro de Artes (2005-2008). Atua como coordenador do Laboratório de Extensão e Pesquisa em Artes (LEENA), desenvolvendo pesquisas sobre a arte e a cultura capixaba.

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