José Cirillo
José Cirillo
José Cirillo é doutor em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), mestre em Educação pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES,) onde é professor titular e coordenador do Programa de Pós-graduação em Artes. Pós-doutor em Artes pela Universidade de Lisboa. Foi Pró-reitor de Extensão da UFES (2008-2014); Diretor do Centro de Artes (2005-2008). Atua como coordenador do Laboratório de Extensão e Pesquisa em Artes (LEENA), desenvolvendo pesquisas sobre a arte e a cultura capixaba.
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A VIDA É GRAVIDA DE MORTE, ou sobre servir coxinha em um restaurante de luxo

Fui acordado de madrugada – 3 horas da manhã – com ecos dessa da voz de Lucia Santaella nos dizendo: “A vida é grávida de morte”.

Nunca pensei que isto pudesse ser resumido tão perfeitamente. Vivemos acreditando que devemos deixar uma marca no mundo; mas, o silêncio da madrugada me sussurrou que o devemos sim é deixar marcas nas pessoas.

Devemos viver cada momento como se o parto da morte estivesse a acontecer.  E nesse caminho não se pode surpreender apresentando sempre o mesmo, por melhor que ele seja. Se o viver é gestar o próprio fim, então que o percurso seja admirável.

A VIDA É GRAVIDA DE MORTE, ou sobre servir coxinha em um restaurante de luxo
Frame de Blade Runner (1982)

Nessa semana, arriscamos. Corremos o risco de errar; de colocar em crise o nome de um evento acadêmico reconhecido nacionalmente pela sua qualidade e profundidade; pela sua capacidade de reunir pesquisadores das artes, nacionais e outros de língua portuguesa e espanhola. Arriscamos, quase como um ato político, o desenvolvimento de um congresso, cuja força se consolidou desde 2008.

Era um modelo que funcionava: seriedade; pontualidade; flexibilidade; profundidade nos debates; além de assegurar o que nenhum outro da área de arte no país conseguia: entregar suas atas e conferências impressas na abertura do evento.

O ‘Poéticas, ES’ até este ano era como ser um restaurante com estrelas Michelin, com uma boa equipe de cozinha e com “pratos” competentes. Tudo funcionava bem e tínhamos credibilidade. Ai, a pergunta: por que arriscar outros modos nesse percurso? Por que servir outro prato?

Tudo parecia tranquilo e seguro, mas assombrava-me algo que eu não tinha sequer ouvido os sinais – talvez a voz distante de um dos fantasmas da criação que a artista portuguesa Isabel Sabino comentou em sua fala. Ecoava-me a ideia de que não há surpresa se se repete uma fórmula que dá certo. Embora, com qualidade se tem mais do mesmo.

Mantem-se as estrelas? Vale a pena a imutabilidade do movimento? Não me parecia ter outra saída. As estrelas Michelin não compensam se o custo é permanecer inerte, esperando o fio da vida seguir.

Daí, o segundo fantasma das madrugadas, antecipado da fala de Sabino, sussurrava-me como um mantra: “é preciso servir coxinha…” (aliás, eu amo coxinhas)

A VIDA É GRAVIDA DE MORTE, ou sobre servir coxinha em um restaurante de luxo

Com a inevitável decisão o risco se instaurou; vamos servir coxinha em um restaurante com estrelas Michelin. A equipe do ‘Poéticas’ paralisou. O pânico entre os sous-chefs era evidente. Suas praças na cozinha estrelada não tinham mais o que era necessário para esse outro formato.

O risco assusta. Acostumados, repetiam-se em formas e modelos. Mas, ao fim, trocamos a sofisticação dos pratos seguros por um salgado popular e o servimos onde o eu-individual foi temperado pelo eu com o outro. Qual as conversas no rabo do fogão de lenha quando éramos crianças na casa de minha vó.

O fogo primordial em torno do qual o mito da vida seguia seu fluxo nas noites estreladas do viver. Sem medo do parto da morte inevitável. ‘O que levamos dessa vida é a vida que levamos’, me sussurra agora minha vó. E só levamos uma, portanto, que seja significativa.

A crítica “gastronômica” precisa ser surpreendida ou resgatada de seus castelos em nuvens que não se sustentam mais em tempos tão líquidos. Esse outro movimento é tomado da vida, mais que de malabarismos da academia para manter suas estrelas Michelin. Só seria possível esse outro modo servir, se apresentado algo do mundo trivial… e caprichar no tempero daquilo que nos faz humanos: nossas incertezas.

Assim, esse ‘Poéticas de 2025’ é sobre olhar para si e se entender-se na completude com o outro. É sobre ouvir, mais que falar. É sobre despir-se de medos e vaidades.

O salgadinho popular, o lugar de afeto, a mesa e as cadeiras que lembram jardim da casa das nossas vós; retomaram-se nossas memórias dos tempos que não tínhamos vergonha de perguntar e errar.

O aconchego da proximidade, dos beija-flores, das orquídeas mil florescendo ao nosso lado. O sol nos abençoando, até que a primeira chuva rompesse a noite. Mas, os deuses do tempo nos deram uma outra manhã de sol para ouvirmos de Santaella sobre nossos medos e sobre o inevitável processo que nos levou das máquinas orgânicas (que são nossos próprios corpos) à maquinas neurais que expandem nossa mente com uma capacidade de armazenamento infinita.

Por enquanto, como afirma Santaella, essas inteligências externas ainda não são mais humanas que nós. Não porque não têm capacidade de sê-lo, mas porque nós humanos somos imperfeitos e paradoxais, e não ainda nos reduzimos a algoritmos lógicos… Por enquanto, ainda me parece que somos insubstituíveis – pelo menos por enquanto.

Foi assim a edição do ‘Poéticas, ES 2025’. Nada de palcos ou auditórios; nada de palanques e malabarismos acadêmicos; nada do que se encena no meio científico. Tomamos outro caminho, enquanto almas prenhas, pois nos resta seguir nossa linha de tempo, como grávidos de nossa própria morte.

A VIDA É GRAVIDA DE MORTE, ou sobre servir coxinha em um restaurante de luxo
Palestrantes e equipe de apoio do Poéticas, ES 2025. Hostel Canela Verde, Vila Velha

Falamos sobre trocas muito mais do que sobre vaidades acadêmicas autocentradas; falamos sobre afetos; falamos sobre ser humano com todas suas dicotomias; sobre sua necessidade de tentar melhorar seu corpo-máquina, o qual agora amplia-se e edifica simulacros de partes de sua capacidade neural em processos artificiais de geração de dados.

Mas, a sempre presente tecnologia que nos atravessa, parece ser o instrumento que poderá nos afastar do momento em que iremos ao encontro do barqueiro sinistro que transporta nossas almas através dos rios que podem nos levar à outra ponto do fio da vida.

A VIDA É GRAVIDA DE MORTE, ou sobre servir coxinha em um restaurante de luxo
Lucia Santaella e José Guilherme Abreu em sua presença na nossa residência teórico-artística de 2025

O ‘Poéticas, ES 2025’, segundo Celina e Jose Guilherme, fez o que os gregos antigos chamavam de συμπόσιον (sympósion), retomamos a ideia de que vida e produção de conhecimento não se separaram; nos reunimos da beber e comer e discutir ideias artísticas, críticas, filosóficas, dentre outras simplicidades do percurso nosso. Me parece que que acendemos novamente as tochas, apagamos as luzes, vimos o esplendor que a noite estrelada nos oferece, ao som da boa conversa, aliás, não só entre os gregos, mas tal qual as comunidades de nossos povos originários: estamos talvez reaprendendo a conversar? A vida segue e os compartilhamentos se dão iluminados pelas fogueiras da partilha sensível.

Mas, vida segue sobre a incerteza de quando pariremos a nossa própria morte. É, portanto, uma questão de escolha: paramos para esperar, na certeza de nossas falsas boias salva-vidas e nossas estrelas Michelin; ou nos atiramos em movimentos, riscos e afetos.

Vamos nos atirar em novos modos de habitarmos nós mesmos e  esse mundo.

Quem sabe retardamos nosso encontro com Caronte?!

José Cirillo
José Cirillo
José Cirillo é doutor em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), mestre em Educação pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES,) onde é professor titular e coordenador do Programa de Pós-graduação em Artes. Pós-doutor em Artes pela Universidade de Lisboa. Foi Pró-reitor de Extensão da UFES (2008-2014); Diretor do Centro de Artes (2005-2008). Atua como coordenador do Laboratório de Extensão e Pesquisa em Artes (LEENA), desenvolvendo pesquisas sobre a arte e a cultura capixaba.

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