José Cirillo
José Cirillo
José Cirillo é doutor em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), mestre em Educação pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES,) onde é professor titular e coordenador do Programa de Pós-graduação em Artes. Pós-doutor em Artes pela Universidade de Lisboa. Foi Pró-reitor de Extensão da UFES (2008-2014); Diretor do Centro de Artes (2005-2008). Atua como coordenador do Laboratório de Extensão e Pesquisa em Artes (LEENA), desenvolvendo pesquisas sobre a arte e a cultura capixaba.
A opinião dos colunistas é de inteira responsabilidade de cada um deles e não reflete a posição de ES Hoje

“MARCO ZERO DA COLONIZAÇÃO”: uma obra onde nasceu o Espírito Santo

“MARCO ZERO DA COLONIZAÇÃO”: uma obra onde nasceu o Espírito Santo

Esta semana, na sequência de minhas reflexões sobre os 70 anos da universidade no Espírito Santo, fui atravessado pela inauguração de uma obra no Parque da Prainha de Vila Velha, exatamente no Dia da Colonização do Solo Espírito-santense, 23 de maio. Com essa informação, enviada por uma amiga em uma rede social, me dei conta de quanto essa obra, em seu processo, também me toma de assalto.

Ao vê-la, me deparei com um aspecto da temporalidade do ensino superior no estado, não pelo prisma da formação das graduações ou pós, mas pelo viés do trabalho de um egresso dos cursos de artes, e que se estabeleceu no mercado capixaba como artista – e tendo essa profissão, como fonte principal de renda. Depois de 32 anos exercendo a docência na UFES, e pesquisando arte capixaba, tenho acompanhado o fluxo de nossos ex-alunos e tentado mapear como eles têm contribuído para a consolidação de um cenário local e regional profícuo ao trabalho das artes e dos artistas. Algo, aliás, que retoma também os esforços de Jerusa Samu, quando da criação da Galeria de Artes e Pesquisa da UFES (na década de 1970) que tinha como meta colocar o estado em contato com o que havia de mais contemporâneo na produção nacional, mas, sobretudo, evidenciar a qualidade da produção local fazendo-a ser vista por artistas nacionais renomados.

Antes de entrar nessa obra que me encheu os sentidos, é inevitável lembrar de 14 de setembro de 1992, quando pisei como professor no Departamento de Artes Industriais e Decorativas (hoje, Departamento de Design). Lembro de ter sido recebido por uma professora mais velha, com um aspecto de uma figura dos mosaicos bizantinos. Para minha surpresa, ela era mesmo professora da disciplina Mosaico. Freda Jardim foi uma das primeiras professoras do então recém-criado Centro de Artes, assim que a Escola de Belas Artes se integrou à UFES. E ela era a pessoa que, como chefe de Departamento, me recebeu de braços abertos.  Não era daqueles artistas que se fazem isolados em si mesmos.

“MARCO ZERO DA COLONIZAÇÃO”: uma obra onde nasceu o Espírito Santo

Freda era cercada de jovens artistas e professores, que tinham sido seus alunos. Juntos, formavam a Companhia do Mosaico, um coletivo de artistas que fomentavam a arte musiva no Brasil. Freda, posso afirmar,  tinha uma particularidade: era uma artista edificante, não se limitava aos contornos de cada linguagem. Ousada, misturava materiais e procedimentos. Sua inventividade soava contagiante e plural. Lembro de comer (pois ela era pesquisadora também de comidas) mousse de taioba ou de lasanha de peroá – inacreditáveis iguarias. Sua ousadia com os materiais era resultado de toda uma pesquisa de vida sobre a culinária e as pedras brasileiras. Era evidente como sua vida pessoal se misturava com a de artista e professora. Ela era uma mestra. Única.

Freda Jardim tinha como premissa o impossível. Misturava o inusitado. As linguagens da arte eram limites fluidos, contornos permeáveis. Verdades não absolutas que sua criatividade redesenhava constantemente. Como professora, e mentora do jovem grupo de artistas, ela propagava essa ideia de transgredir os limites, em especial o limite dos materiais. Tomá-los para si e domá-los, como quem se apaixona pelo potro selvagem e cavalga depois por novos caminhos.

“MARCO ZERO DA COLONIZAÇÃO”: uma obra onde nasceu o Espírito Santo
Objeto em crochê e cristais (série de mosaico-tapeçarias). Freda Jardim. Acervo pessoal

Nesse momento de celebração e júbilo pela consolidação do ensino superior no estado, e dentro disto a contribuição da escola de Artes da UFES, e tomado pelo admirável da obra na Prainha de Vila Velha, era impossível não retomar essa artista, Freda Jardim, e seu papel formador. Pois, é dela que emerge o artista mosaicista Celso Adolfo – autor da obra que eterniza um marco simbólico da chegada dos portugueses no solo capixaba. Celso é egresso da UFES, mas, antes de qualquer coisa, um dileto discípulo de uma mestra. E como ela, soube tirar proveito e colher frutos de uma data memorável.

A data de 23 de maio nos remete ao ano de 1535, quando a caravela “Glória” atracou em águas capixabas com os portugueses, os quais tinham como missão colonizar a então inexplorada capitania do Espírito Santo. A Prainha, em Vila Velha, foi o ponto de desembarque. Chamo esse local histórico, demarcado pela obra, como marco simbólico dessa chegada porque, ao longo dos anos, a Prainha sofreu inúmeros aterros que mudaram sua configuração original. Então, marcamos apenas mancha geográfica desse local histórico. Não temos mais acesso efetivo ao marco exato.

Segundo o site do Projeto de Requalificação: sítio histórico da Prainha, o local passou

[…] por diversas transformações urbanísticas, a Prainha sofreu o primeiro aterro, em para 1912, para a implantação de um bonde elétrico, o que modificou de forma intensa o traçado local. Com o objetivo de implantar a EAMES (Escola de Aprendizes de Marinheiros), houve o segundo aterro, que se estima que ocorreu por volta da década de 50. Durante o governo de Getúlio Vargas, entre 1951 a 1954, foi realizado o terceiro aterro, para a construção da Avenida Beira Mar. O quarto e último aterro ocorreu na década de 1970, e foi o que causou maior impacto e descaracterização do sítio, destruindo a primitiva Enseada da Prainha.

 

“MARCO ZERO DA COLONIZAÇÃO”: uma obra onde nasceu o Espírito Santo
Imagens da Prainha referente aos aterros dos anos de 1950-1960

Mas, isto pouco importa, pois, o valor simbólico dos fatos culturais é mais importante que os fatos em si. Essa alteração dos contornos não muda isto, apesar de ser necessário lembrarmos dela. Assim, uma vez descaracterizada a enseada primitiva, nos resta afirmar que o local indicado como Marco Zero é, de fato, simbólico. Isto é importante ser dito, embora não afete a qualidade da obra recém-inaugurada. Tenho me colocado no compromisso de trazer um pouco da nossa história nessas colunas.

Os trabalhos atuais de revitalização da Prainha de Vila Velha integram um conjunto de ações da prefeitura municipal para revitalizar o seu centro histórico. Para tal trabalho, a arquiteta Amanda Pelegrini inspirou-se em espaços coletivos urbanos de diversas cidades, em especial, tomou como referência algumas praças com trabalhos do artista catalão Juan Miró – dai o convite ao artista para executar o trabalho comemorativo do marco histórico para a cidade e para o estado, utilizando o mosaico de chão como linguagem. Nesse projeto arquitetônico e urbanista, o Parque da Prainha dialoga com os grandes espaços mundiais de vivência que ressignificam os modos de ocupação e compartilhamento coletivo no espaço urbano contemporâneo.

Celso Adolfo, o autor da obra, como eu já afirmei, era um daqueles jovens estudantes que circulavam junto com Freda Jardim, com quem aprendeu tudo o que lhe permitiu se transformar no mais exímio seguidor daquela professora – bem como, no mais qualificado restaurador de obras de mosaico no nosso estado. Porém, mais que um trabalhador técnico com qualidade e conhecimentos inquestionáveis, Celso Adolfo também é artista. E tem mostrado isto em muitos de seus trabalhos. A obra “Marco Zero da Colonização do Solo Espírito-santense”, 2024, é uma dessas evidências da relevância de seu trabalho. Ressalto aqui que, para esta intervenção urbana, Celso Adolfo teve que se reinventar, pois lhe foi apresentado um material novo e desafiador, com o qual deveria pensar a obra. Seu processo inicial pensava no uso de granito ou outras pedras (tradições do mosaico e da cultura capixaba), mas para esse trabalho foi desafiado a usar uma massa que gerava um piso auto-drenante. Diferente da ideia de usar tesselas de pedras, ele teria que lidar com um material fundido e moldante.

Esse desafio o fez reinventar-se, rever seus procedimentos do mosaico para realizar uma obra de incrustações com outras matérias que não as que ele estava habituado. Ele venceu mais esse confronto, o que acredito dever-se muito aos ensinamentos e à inventividade de Freda Jardim – que compartilhou essa sua ousadia com os jovens que integravam o grupo de mosaicista. Aprenderam a lidar com materiais pouco usuais ao mosaico, mas também a manter a integridade dessa linguagem na arte: atualizar sem descaracterizar. Com essas diretrizes em sua formação como aluno da escola de Artes da UFES e com sua qualidade profissional, Celso foi convidado para desenvolver estudos para demarcar o ponto de início do que conhecemos como o Espírito Santo, a partir, claro, do momento de desembarque dos portugueses.

“MARCO ZERO DA COLONIZAÇÃO”: uma obra onde nasceu o Espírito Santo
Desenho preliminar do artista para pensar a obra

Nos seus estudos preliminares, Celso Adolfo trata com igualdade culturas diferentes, hábitos diferentes, não deixando de valorizar as tecnologias de cada grupo étnico representado. O trabalho parece ter buscado, em seu projeto criativo, funcionar como um ativador de signos que identifiquem os povos originários, os portugueses e alguns processos que se desdobraram a partir do fato histórico inicial.  A forma geral do trabalho é um grande círculo que se forma no centro de um movimento espiralado que define essa parte da praça. O marco zero é o vórtex. Um ponto de energia concentrada.

“MARCO ZERO DA COLONIZAÇÃO”: uma obra onde nasceu o Espírito Santo
Projeto gráfico da obra. Celso Adolfo, 2023-2024. Técnica mista sobre papel. Fonte: acervo do artista

O círculo formado no chão – figura típica em obras musivas -, tem um diâmetro de 10 metros. Apesar da leitura cíclica a que ele nos leva, e do depoimento do artista reforçando a continuidade das figuras circulares como uma narrativa da história cíclica e não linear, meu olhar semiótico me leva a vê-lo de outro modo. O todo da obra me parece estar, involuntariamente, dividido em dois grandes campos, separados por uma mancha negra que se torna uma linha que faz alusão aos mapas do descobrimento, citando os rios no território desbravado. Nessa grande divisão que me salta aos olhos, me atrevo a destacar: de um lado, ligeiramente maior que o outro, o espaço dos povos originários e da paisagem original com ênfase na prainha e no morro onde ficará posteriormente a gruta do Frei Palácios e o Convento da Penha. Nota-se aliás, que Frei Palácios é o único colonizador instaurado no lado em que estão os nativos, os demais jesuítas encontram-se junto com os portugueses na outa parte da imagem. Embora o artista afirme que a forma circular de sua narrativa coloca todos juntos, é visível que a linha preta separa os dois grupos, exceto pela representação do Frei Palácios.

Sim, nota-se do outro lado do círculo (aqui nessa imagem, à nossa esquerda) representações dos colonizadores, com o estandarte da corte e a cruz da catequização, típicos das comitivas reais para os descobrimentos portugueses. Interessante observar que a caravela Glória (no alto da imagem do projeto) se encontra em contraponto com as canoas (lado inferior da nossa imagem). Instrumentos distintos de navegação. Tecnologias distintas, mas modos semelhantes de lidar com o mar e com os rios – indicados os principais por onde a ocupação do nosso solo se deu: Jucu, Reis Magos e rio Doce.  Sem intenção explícita, a mente criadora de Celso nos leva a construir a ideia de que cada sociedade que se encontrou nessa descida em solo capixaba, traz consigo saberes e fazeres distintos. Cada um dando conta dos interesses sociais, culturais e políticos de seu povo. A escolha pela composição apresentada por Celso Adolfo uma afirmativa visual decolonizada, que não coloca o nativo das Terras de Pindorama como ignorantes e totalmente subordinados à natureza. Necessidades ambientais específicas geram tecnologias diferentes para solução de problemas semelhantes.

“MARCO ZERO DA COLONIZAÇÃO”: uma obra onde nasceu o Espírito Santo
Recortes em isopor para modelar a forma das figuras no painel da Prainha. Fonte: acervo do artista.

Durante o processo de execução da obra, Celso Adolfo substituiu as tesselas de pedra perenes por formas em isopor. Esse ato revisita o mosaico, pois as tesselas de Celso são provisórias. Elas irão criar o vazio na modelagem da forma do círculo. Uma vez definido o fundo, essas peças de isopor são removidas para darem lugar à fundição da massa negra que finalizará o desenho. Um processo que aproxima o resultado visual da marchetaria, mas que parte da ideia de mosaico num campo ampliado.

“MARCO ZERO DA COLONIZAÇÃO”: uma obra onde nasceu o Espírito Santo
Figuras em isopor incrustadas na massa de piso auto-drenante. Fonte: acervo do artista

A escolha do tom amarelado do piso decorre da analogia que Celso faz com o desenhar nas areias de nossas praias – aliás, um ato memorável que nos remete ao Padre José de Anchieta. Para o artista, em um depoimento: “[…] então, acho assim… me portei como se tivesse desenhando na areia da Prainha… que a gente brincava enquanto novo…. a areia molhada meio amarelada…”. Ou seja, o acionador é a memória do artista enquanto alguém que cresceu naquele território.

São as relações de afeto que o traz de volta, que retoma de suas lembranças como criança correndo e brincando pela paisagem canela verde que são geradoras da cor; a forma deriva de sua imersão na nossa cultura, em nossa memória capixaba. Em nossa história. Dela, surgem as formas, as cores, os contornos. A imagem mental que se constrói é a que nos une na esfera pública da cidade. O casco histórico de Vila Velha se renova.

“MARCO ZERO DA COLONIZAÇÃO”: uma obra onde nasceu o Espírito Santo

Celso se reinventou para concretizar essa obra. O material o desafiou e, como fiel egresso das experiências com Freda Jardim, ele aceitou o embate. Dessa luta harmoniosa, ele se atualiza, ao mesmo tempo que amplia com esse ato o nosso conceito sobre o uso da linguagem do mosaico na contemporaneidade. Os 70 anos de universidade no estado tem mostrado que muita qualidade se encontra nas marcas deixadas pelos egressos dessa empreitada. Egressos, como Celso, que se reinventa a cada dia.

Ganham a nossa arte e a nossa cultura.

Serviço:

Imagem da capa: Detalhe da obra. Selo central que demarca o Marco Zero na Prainha (2004) Vila Velha, ES. Esse ponto é o vórtex da obra. Fonte: acervo do artista

Obra: ” MARCO ZERO DA COLONIZAÇÃO DO SOLO ESPIRITOSSANTENSE “, Celso Adolfo, 2024. 10m de diâmetro, mosaico em piso auto-drenante Flowin, ferro e bronze. Parque da Prainha, Vila Velha, ES

José Cirillo
José Cirillo
José Cirillo é doutor em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), mestre em Educação pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES,) onde é professor titular e coordenador do Programa de Pós-graduação em Artes. Pós-doutor em Artes pela Universidade de Lisboa. Foi Pró-reitor de Extensão da UFES (2008-2014); Diretor do Centro de Artes (2005-2008). Atua como coordenador do Laboratório de Extensão e Pesquisa em Artes (LEENA), desenvolvendo pesquisas sobre a arte e a cultura capixaba.

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Comentários
  1. Prezado Prof. Dr. José Cirillo
    Gostaria de cumprimenta-lo pela belíssima matéria sobre o “MARCO ZERO DA COLONIZAÇÃO”: uma obra onde nasceu o Espírito Santo.
    Confesso que foi o texto mais delicioso que já li.
    Confesso também que o li várias vezes e não parei mais de refletir sobre suas considerações a respeito do desenvolvimento da cultura mediada pelas Artes.
    Dentre as diversas óticas interpretativa sobre a experiência dos conceitos implementos na construção do Parque da Prainha, que seu texto sugeriu, uma me chamou muito atenção: O olhar para as Artes como um elo entre as diversas ciências como catalisador da interdisciplinaridade e da evolução/ampliação dos conceitos culturais.
    Se a experiência com o Parque da Prainha o despertou para tão belas interpretações, como as que foram explicitas e/ou sugeridas nas entrelinhas de seus escritos, o seu texto nos desperta para ricas e novas reflexões.
    Esperamos que a Faculdade de Artes do estado do Espirito Santo continue a nos presentear com pérolas como a experiência prática do Parque da Prainha e com novas reflexões brilhantes como do texto do Senhor.
    Muito obrigado.
    Prof. Dr. Ronaldo Teixeira Pelegrini (UFSCar – São Carlos – SP)

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