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29 de maio de 2024
quarta-feira, 29 de maio de 2024
José Cirillo
José Cirillo
José Cirillo é doutor em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), mestre em Educação pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES,) onde é professor titular e coordenador do Programa de Pós-graduação em Artes. Pós-doutor em Artes pela Universidade de Lisboa. Foi Pró-reitor de Extensão da UFES (2008-2014); Diretor do Centro de Artes (2005-2008). Atua como coordenador do Laboratório de Extensão e Pesquisa em Artes (LEENA), desenvolvendo pesquisas sobre a arte e a cultura capixaba.

OUTROS CANTOS E ESTRATÉGIAS: visibilidade indígena na arte pública capixaba

I

19 de abril de 1500:
No horizonte, o mar segue calmo. A lua surge como uma deusa, iluminando a noite e velando sonos, rios e lagos na terra. Majestosa, criou a estrela d’água, flores brancas se abrem nas noites, agradecendo pela vida que lhe foi devolvida. A noite segue. A hegemonia dos povos originais no Brasil dorme.

II

20 de abril de 1500:
O sol, em chamas vermelhas, incendeia os céus na manhã sobre o mar. As águas parecem ferver. O instável assombrava. Chegam as primeiras luzes anunciando o inevitável. Prenúncio. As naus surgem no horizonte. Estranhas montanhas, moventes sobre as águas do mar.

Com a manhã, a mudança nos lugares, nos territórios, na natureza.

III

A paisagem, a fauna e a flora jamais seriam as mesmas.
Todas minadas. Dominadas
Transformadas.
Nações dizimadas.
Línguas silenciadas.
Colonizadas. […]

VI

Os povos originais das terras do pau-brasil resistiram. Poucos ficaram. Sobreviveram,
Ao domínio, à exploração, ao quase extermínio…
Suas vozes, abafadas, não se calaram. Suas culturas seguiram, mesmo que silenciadas. Como o sol, renascendo todo dia

VII

Essa voz chegou à arte contemporânea…e se faz ouvida. Ecoa nas instituições contaminadas pelo sistema colonialista. Como a ferrugem, transforma o mais forte ferro. Persiste.

Esse trecho é parte da introdução de um texto meu na Revista FAROL, no ano de 2022, quando dedicamos um número dessa revista à arte produzida por artistas originários dos povos indígenas. Uma revista que trouxe arte contemporânea da melhor qualidade e que revelam a riqueza criativa desses artistas. Também desse momento, na nossa pesquisa sobre arte pública capixaba, surgiu a necessidade de verificar como era a representação desses povos originários na arte capixaba.

O Espanto…
São poucas, e em sua maioria estereotipadas, ou europeizadas, ou apenas nomeando bairros ou cidades – aliás, como também ocorre com a representação feminina, da qual já falamos aqui. Vogais repetidas lembram o tupi. Sonoridade de uma língua quase impossível. Esquecida como tantas outras. Essas poucas representações de povos indígenas na arte pública capixaba estão concentradas em dois grandes territórios: a região central e a região norte do estado. Ao longo dos 78 municípios e seus variados distritos, apenas cinco deles tem alguma obra ou referência, ainda assim, de forma indireta aos povos originários do Brasil. Em sua maioria, essas representações estão associadas ao processo civilizatório que se instaura no país com o descobrimento português. Muitas delas trabalhando uma iconografia pouco característica da etnia em representação.  Posso inferir que dos 78 (setenta e oito) municípios capixabas, apenas 7 (sete) deles possuem obras em espaços públicos relacionados ao tema indígena; e estas se limitam a 9 (nove) obras, incluindo dois painéis em mosaico e um totem de identificação da municipalidade (única obra que associa texto visual e texto verbal).

OUTROS CANTOS E ESTRATÉGIAS: visibilidade indígena na arte pública capixaba
Representações de povos indígenas na arte pública capixaba. Fonte: CEDOC/LEENA

Mas, nesse horizonte pouco promissor do nosso ecossistema estético urbano, uma obra ainda resiste, apesar de quase ter sido relegada ao esquecimento em um pátio de uma construtora em Linhares. A obra “AsTrês Etnias”, de Nilson Camizão, é esse bálsamo quando pensamos numa possibilidade de representação dos povos indígenas do estado no cenário dos monumentos capixabas.

OUTROS CANTOS E ESTRATÉGIAS: visibilidade indígena na arte pública capixaba
“As Três Etnias”. Nilson Camizão. Bronze, 2011. A presença dos Botocudos na arte pública capixaba. Fonte: CEDOC/LEENA

Nilson Camizão está na contramão da representação tomada por uma gramática visual europeizada ou estereotipada. “As Três Etnias” permite perceber um estudo anatômico que diferencia cada uma das três figuras apresentadas: o português, o negro e o nativo (botocudo).

Esta obra de Camizão é a única representação escultórica que efetivamente procura representar o lugar de poder dos povos originários, evidenciando que o processo de coabitação das etnias deveria ser o caminho para a plenitude social no Brasil – ironicamente, essa peça foi removida pelo poder público alegando ofensa à moral, por estarem nuas as imagens – disseram algumas fontes. Remoção disfarçada de necessidade de reformar a praça que a abrigava.

19 de abril de 2024:

OUTROS CANTOS E ESTRATÉGIAS: visibilidade indígena na arte pública capixaba
Detalhe da figura indígena na obra As Três Etnias, 2011, de Nilson Camizão

Temos ainda algo a comemorar? Sim e não.

Pois, essa obra esteve abandonada em um canteiro de obras, relegada à poeira do tempo. Jogada ao esquecimento, juntamente com os outros corpos étnicos que edificaram o Espírito Santo. Agora, parecem tentar retomar seu lugar no panteão público.

As peças de Camizão retornaram ao seu ateliê para restauro. Quebradas e sofridas. Não mais deitadas no abandono em um pátio de obras, frio esquecimento na cidade que as abrigava.

Esperam voltar a ocupar o lugar que lhes é de direito em Linhares. Como prova de que não estão, os povos originários, submissos na estrutura social capixaba, ou mesmo subjugados ao apagamento de sua importância social, quase esquecida em um único dia do ano.

“As Três Etnias”, de Nilson Camizão, reestruturam-se. Reestabelecem-se, relembrando-nos que nesse dia pouco notado do nosso cotidiano, se reescreve parte da nossa história social. Partes do Espírito Santo originário, que segue construindo a sua própria história, o seu próprio povo.

José Cirillo
José Cirillo
José Cirillo é doutor em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), mestre em Educação pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES,) onde é professor titular e coordenador do Programa de Pós-graduação em Artes. Pós-doutor em Artes pela Universidade de Lisboa. Foi Pró-reitor de Extensão da UFES (2008-2014); Diretor do Centro de Artes (2005-2008). Atua como coordenador do Laboratório de Extensão e Pesquisa em Artes (LEENA), desenvolvendo pesquisas sobre a arte e a cultura capixaba.

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