O Brasil conheceu recentemente situações no mercado financeiro que deveriam provocar uma reflexão muito maior do que simplesmente discutir quem ganhou e quem perdeu dinheiro.
Não sou especialista em finanças. Minha visão é a de empresário, de quem passou a vida convivendo com empresas, investimentos, financiamentos, produção, empregos, impostos e, principalmente, com uma regra muito simples: no mundo real, alguém precisa produzir riqueza para que a conta seja paga.
É exatamente por isso que algumas contas do mercado financeiro me causam perplexidade.
O dinheiro tem um custo — mas também precisa ter uma origem
Os títulos públicos talvez sejam a referência mais elementar dessa lógica. O Estado capta recursos, paga juros e, em última análise, possui sua capacidade tributária e, no caso do governo central, todo o sistema monetário por trás de sua dívida.
Os grandes bancos, por sua vez, operam em inúmeras frentes. Captam dinheiro e o aplicam em crédito, títulos públicos, empresas, cartões, cheque especial, financiamento, operações estruturadas e tantos outros produtos.
Existem atividades com margens pequenas e outras com taxas de juros extremamente elevadas.
Portanto, quando entregamos dinheiro a uma grande instituição financeira, estamos colocando nossos recursos dentro de uma estrutura gigantesca de ativos, receitas, riscos e garantias.
Mas o mercado foi muito além do banco tradicional.
Criou fundos, debêntures, fundos de crédito, produtos estruturados e inúmeras formas de intermediação entre aquele que possui o dinheiro e aquele que efetivamente precisa dele.
E é justamente aí que surge uma pergunta simples:
quem fica com o risco quando a conta não fecha?
O caso 2W e Rio Alto
Um caso recente ajuda a dimensionar essa questão.
Segundo apuração divulgada pelo Valor Econômico, a área de special situations do BTG Pactual adquiriu duas carteiras de debêntures emitidas pela 2W Ecobank e pela Rio Alto Energias Renováveis, que estavam concentradas em fundos estruturados pelo Credit Suisse e distribuídos a clientes de alta renda.
O preço inicial das aquisições teria sido equivalente a aproximadamente 2% do valor de face dos créditos. Segundo a mesma reportagem, cotistas estimam perdas acumuladas próximas de R$ 1,7 bilhão. (LinkedIn)
É preciso fazer uma ressalva importante: comprar um crédito por 2% do valor de face não significa que definitivamente somente 2% serão recuperados.
Quem compra um crédito problemático assume riscos jurídicos, empresariais e financeiros e aposta justamente na possibilidade de recuperar, no futuro, valor superior ao desembolsado.
Isso é uma atividade legítima do mercado.
Mas os números provocam uma pergunta inevitável.
Como um ativo chega de 100 a 2?
Se um crédito de valor nominal equivalente a R$ 100 passa a ser negociado por aproximadamente R$ 2, estamos falando de um deságio próximo de 98%.
Alguma coisa extraordinariamente importante aconteceu entre a originação daquele investimento e sua negociação como crédito estressado.
E não estamos falando de uma aplicação feita informalmente entre particulares.
Estamos falando de debêntures que integraram estruturas financeiras destinadas a investidores de alta renda.
A 2W Ecobank entrou em recuperação judicial em abril de 2025, fato registrado inclusive pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica — CCEE. (CCEE) A crise também atingiu outras empresas do segmento de energia renovável, em um ambiente marcado por restrições de transmissão, curtailment, juros elevados e dificuldades financeiras no setor.
Portanto, não se pode simplesmente afirmar que os 98% desapareceram ou que alguém se apropriou desse dinheiro.
Mas podemos — e devemos — perguntar:
Qual era o valor econômico real desses ativos quando foram oferecidos aos investidores?
Qual era o risco efetivamente existente naquele momento?
Esse risco estava adequadamente refletido na rentabilidade oferecida?
As garantias eram suficientes?
Quem analisou o crédito?
Quem estruturou a operação?
Quem recebeu taxas pela estruturação, distribuição e administração desses investimentos?
E, principalmente:
quem ficou efetivamente com o prejuízo quando tudo deu errado?
A assimetria que precisa ser discutida
Esse talvez seja o ponto mais importante.
No mercado financeiro existe uma extensa cadeia de participantes.
Existe quem estrutura.
Quem distribui.
Quem administra.
Quem gere.
Quem avalia risco.
Quem presta consultoria.
Quem intermedeia.
Quem recebe taxas.
Quem empresta.
E, finalmente, existe o investidor — aquele que colocou o dinheiro.
Quando a operação funciona, praticamente todos são remunerados.
Mas quando ela fracassa, precisamos verificar quem efetivamente absorve a perda.
Porque, se as taxas de estruturação, administração, distribuição e gestão já foram recebidas enquanto o risco econômico permaneceu concentrado no capital do investidor, temos uma assimetria que merece ser compreendida pela sociedade.
Não estou afirmando que houve irregularidade no caso 2W/Rio Alto.
Estou fazendo uma pergunta econômica.
E perguntas não podem ser proibidas simplesmente porque envolvem instituições sofisticadas.
O empresário conhece uma regra diferente
Na economia produtiva, quando um empresário erra, normalmente o patrimônio dele responde pelo erro.
Uma indústria que compra uma máquina errada sofre o prejuízo.
Uma construtora que calcula equivocadamente uma obra perde dinheiro.
Um comerciante que compra estoque que não consegue vender arca com a consequência.
Uma fazenda que produz abaixo do custo tem prejuízo.
No mercado financeiro, entretanto, determinadas estruturas tornam muito mais difícil para o cidadão comum identificar quem efetivamente assumiu cada parcela do risco.
É por isso que transparência é fundamental.
Não basta dizer ao investidor que determinado produto poderá render CDI mais alguma coisa.
É preciso que ele compreenda de onde virá esse rendimento adicional.
Porque existe uma regra econômica que nenhuma engenharia financeira consegue eliminar:
Rentabilidade maior somente existe de maneira sustentável quando alguém produz riqueza suficiente para pagá-la — ou quando alguém aceita assumir um risco maior.
Não existe mágica.
O dinheiro não produz riqueza sozinho
O capital é indispensável.
Sem crédito não há infraestrutura, indústria, agricultura, comércio, habitação ou desenvolvimento.
O sistema financeiro tem papel essencial justamente porque aproxima quem possui recursos de quem possui capacidade de produzir.
O problema começa quando confundimos intermediação da riqueza com produção da riqueza.
Uma empresa produz energia.
Outra constrói uma estrada.
Outra produz alimentos.
Outra fabrica máquinas.
Outra desenvolve tecnologia.
O mercado financeiro financia essas atividades e deve ser remunerado por isso.
Mas a riqueza necessária para pagar principal, juros, taxas e rentabilidade precisa, em algum ponto da cadeia, ser produzida pela economia real.
Se a atividade econômica financiada não produz recursos suficientes para pagar tudo aquilo que foi prometido, a conta inevitavelmente chegará para alguém.
O caso das debêntures da 2W e da Rio Alto oferece uma imagem quase didática dessa realidade:
um crédito que nasceu valendo 100 sendo negociado, em situação de estresse, por aproximadamente 2.
Não devemos simplesmente perguntar quem teve competência para comprar por 2 e poderá ganhar recuperando 10, 20, 30 ou mais.
Essa é apenas uma parte da história.
A pergunta socialmente mais importante talvez seja anterior:
Como o 100 virou 2?
Onde estava o risco?
Quem o avaliou?
Quem foi remunerado para avaliá-lo?
Quem ganhou dinheiro durante o caminho?
E quem terminou pagando a conta?
Enquanto essas perguntas não forem respondidas de maneira simples e transparente, continuará existindo uma conta no mercado financeiro que, para quem produz, trabalha, investe e assume riscos na economia real, simplesmente não fecha.









