José Carlos Chamon
José Carlos Chamon
José Carlos Chamon é empresário do setor de infraestrutura, sócio da RDJ Engenharia, membro do Conselho de Infraestrutura da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes) e Brasinfra – Entidade Nacional da Infraestrutura
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O dia em que um dos meus professores de Engenharia Civil me deu mais uma lição

Conheci o Engenheiro Eudier em 1985. Naquela época eu tinha apenas 27 anos e o Espírito Santo vivia um dos maiores ciclos de investimentos em infraestrutura de sua história, no governo Gerson Camata. Trabalhando na Construtora São Judas Tadeu, executávamos simultaneamente obras extremamente desafiadoras: oito pontes entre Ecoporanga e Mucurici, uma ponte de 135 metros entre Alegre e Muniz Freire e outras duas pontes na rodovia Linhares–Rio Bananal.

Era um tempo completamente diferente. Muitos desses trechos sequer eram asfaltados. As dificuldades de acesso eram enormes, a comunicação praticamente inexistia e, muitas vezes, ao anoitecer, dormir em um barraco de madeira no acampamento da obra era mais seguro do que enfrentar estradas de terra durante a noite. Foi ali que aprendi o verdadeiro significado da palavra “trecho”.

Conheci homens que dedicavam suas vidas às obras públicas e que enfrentavam qualquer desafio para cumprir um cronograma.

Apesar de ter iniciado muito cedo na construção de obras de arte especiais, aos 17 anos, por necessidade causada pelos problemas de saúde de meu pai, minha formação acadêmica era em Engenharia Mecânica. A Engenharia Civil eu aprendi na prática. Meus grandes professores não estavam dentro de uma universidade. Estavam nas obras, usando botas, capacete e carregando décadas de experiência.

Eliziário Gobira me ensinou a cortesia, a alegria e a importância de incentivar os mais jovens. Élvio Sartório mostrou a genialidade da engenharia de estradas e o fascinante universo da estabilização dos solos. Medici ensinou o rigor das composições de custos. José Artur, a organização das medições. Benevides, a precisão da topografia. Betinho, o compromisso absoluto com a qualidade. Serginho, a gestão financeira das obras.

Cada um deles deixou marcas profundas na minha formação profissional. Mas hoje escrevo especialmente sobre um deles: o engenheiro Eudier.

Engenheiro químico, laboratorista, especialista em solos e pavimentação asfáltica e, acima de tudo, um apaixonado pela engenharia. Eudier Antônio da Silva me acompanhou em um dos meus primeiros grandes desafios: entregar uma ponte em Rio Bananal antes do encerramento do governo Camata. Naquela época eu era o único engenheiro da empresa no Espírito Santo. Tinha enorme responsabilidade, pouca experiência e muitas dúvidas.

Foi com Eudier que aprendi uma das maiores virtudes de quem trabalha em infraestrutura: estar presente na frente de serviço. Ele respirava obra.

Mais tarde deixou o DER e tornou-se empresário na área de controle tecnológico de solos e pavimentos, sempre mantendo o mesmo entusiasmo. Em 2022, quando a RDJ Engenharia venceu um importante contrato de revitalização de rodovias do DER-ES, novamente procurei um dos meus antigos professores. Precisávamos organizar diversas frentes de serviço simultaneamente, garantir qualidade e cumprir prazos extremamente rigorosos. Vi renascer o jovem Eudier dos anos 80.

Parecia ter recuperado toda a energia daquela época. Estava em todas as frentes. Orientava equipes. Fiscalizava serviços. Realizava ensaios. Resolvia problemas.

E tinha uma característica muito particular: registrava tudo em fotografias e compartilhava imediatamente com todos os envolvidos.

Há apenas trinta dias surgiu um novo desafio: o Grupo Fortlev precisava desenvolver o projeto e executar aproximadamente 300 mil metros quadrados de pavimentação em apenas 30 a 45 dias. Uma missão que muitos considerariam impossível. Aceitamos o desafio.

Buscamos a parceria da Conteck, montamos uma grande força-tarefa e iniciamos um intenso trabalho de planejamento. Foram reuniões diárias. Discussões técnicas. Estudos de materiais. Definição de processos. Mais uma vez Eudier foi peça fundamental para dar segurança técnica à equipe e tranquilidade ao cliente.

Há apenas quinze dias iniciamos uma movimentação de cerca de 260 mil metros cúbicos de terraplenagem. Mobilizamos mais de cinquenta equipamentos. Ontem começaram as primeiras aplicações de CBUQ. Eudier estava feliz e era impossível não perceber.

O dia em que um dos meus professores de Engenharia Civil me deu mais uma lição
Selfie tirada no dia 27 de julho e Eudier (de boné) estava na ativa

Fazia de tudo um pouco. Era engenheiro residente. Era laboratorista. Era fiscal. Era orientador. Era parceiro. E também era o fotógrafo oficial da obra.

Às 17h52 recebi fotografias enviadas por ele mostrando o andamento dos serviços. Três minutos depois, às 17h55, recebi um telefonema: o engenheiro Eudier havia sofrido um grave acidente. Enquanto registrava fotograficamente a evolução da obra, permaneceu atrás de um caminhão que realizava a manobra de descarga do CBUQ, fora do campo de visão do motorista. Foi atropelado. Foi socorrido rapidamente. Passou por cirurgia durante a madrugada.

Escrevo estas linhas profundamente emocionado. Porque não foi um acidente causado pela falta de experiência. Foi justamente o contrário.

Aconteceu com um dos profissionais mais experientes, mais dedicados e mais apaixonados pela engenharia que conheci. Isso nos deixa uma reflexão muito importante.

Vivemos uma época em que o telefone celular tornou-se uma ferramenta indispensável nas obras. Fotografamos. Filmamos. Respondemos mensagens. Compartilhamos informações em tempo real. Mas nenhum registro fotográfico vale mais do que uma vida. Nenhuma imagem é mais importante do que voltar para casa em segurança.

Em obras, a atenção precisa estar integralmente voltada ao ambiente ao nosso redor. Máquinas pesadas não param. Caminhões possuem pontos cegos. Equipamentos se movimentam continuamente. Um único instante de distração pode transformar décadas de experiência em segundos de sofrimento. Tenho fé de que meu amigo e um dos meus maiores professores vencerá mais este desafio. E espero, sinceramente, vê-lo presente na entrega desta obra dentro de alguns dias. Será a maior fotografia que poderemos registrar: a da superação!

E, talvez, a última grande aula que o Engenheiro Eudier esteja nos dando: segurança nunca pode ser colocada em segundo plano, nem mesmo por aqueles que mais conhecem uma obra.

José Carlos Chamon
José Carlos Chamon
José Carlos Chamon é empresário do setor de infraestrutura, sócio da RDJ Engenharia, membro do Conselho de Infraestrutura da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes) e Brasinfra – Entidade Nacional da Infraestrutura

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