O troco da federação: escanteada na vice, União Progressista avisa que “o jogo zerou”

O xadrez eleitoral do Espírito Santo sofreu um abalo sísmico nos últimos dias. A relação entre a federação União Progressista (PP/União Brasil) e o projeto de sucessão liderado por Ricardo Ferraço entrou em uma zona de turbulência severa. O motivo central é a sensação de preterimento: o espaço na chapa majoritária — especificamente a indicação da vice — que parecia aprazado com a federação, passou a ser negociado pelo Palácio com outros grupos políticos.

Para além da majoritária, o PP sofreu uma baixa com a desistência de Marcus Vicente da disputa por uma vaga na Câmara dos Deputados, alegando razões de saúde. Trata-se de um nome de peso histórico e capilaridade eleitoral relevante, sobretudo na Grande Vitória e no Norte do Estado. No entanto, no cálculo partidário interno, a perda de Vicente é contornável. A chapa proporcional do PP dispõe de densidade e conta com nomes de projeção — a exemplo do vereador de Vitória, Camillo Neves, que vinha cotado para a vice e pode ser remanejado para sustentar o coeficiente da federação.

O problema real e de grande impacto estrutural não está nas nominatas proporcionais, mas no tabuleiro majoritário.

Do Compromisso ao “Jogo Zerado”

A federação União Progressista chegou ao bloco governista como a maior força política em termos de tempo de TV, fundo eleitoral e peso parlamentar a declarar apoio à reeleição de Ricardo Ferraço. A contrapartida exigida não era considerada fora da curva para o tamanho do bloco: presença garantida e de destaque na chapa majoritária.

A partir do momento em que a vaga da vice entrou no balcão de negociações com novos atores, a liderança da federação reagiu com dureza. Em conversas reservadas com a coluna Bastidores, o diagnóstico interno é de ruptura iminente se os termos não forem revistos.

“Ele fechou a porta, fizeram bagunça. A federação não voltou não, está para decidir. Nós estamos fora do processo ainda. Podemos sair sozinhos, soltos. Podemos ir com Pazolini ou continuar com Ricardo, mas isso o Ricardo já sabe: o jogo zerou.”

A declaração em OFF expõe que a aliança palaciana deixou de ser uma certeza e virou uma interrogação. O recado é claro: a federação não aceitará o papel de mera coadjuvante nem aceitará decisões de cúpula tomadas sem a sua validação.

O fator Republicanos e o risco de migração

O racha abre margem para o cenário de maior risco para o Palácio Anchieta: o fortalecimento da oposição. O presidente do Republicanos-ES, Erick Musso, já formalizou convites para atração da União Progressista para o palanque de Lorenzo Pazolini.

Se a migração se concretizar, o prejuízo para a candidatura de Ricardo Ferraço será duplo:

  1. Perda de substância: Privatização de tempo de propaganda e capilaridade no interior.

  2. Transferência de musculatura: Encorpamento direto do principal polo de oposição, alterando o equilíbrio de forças da disputa estadual.

Retorno ao ponto de partida

Interrogado sobre o que Ricardo Ferraço precisa fazer para reatar os nós e garantir a federação de volta ao seu palanque, o dirigente sinalizou que a solução passa pela reconstrução da confiança e do peso político do grupo:

“O que ele precisa fazer é demonstrar o respeito e dar a segurança de que, mesmo sendo um governo de sucessão, este será um novo governo.”

A fala explicita a exigência de garantias reais de poder e espaço decisório. O recado à mesa de negociações palaciana foi dado: a União Progressista não se considera dependente da candidatura governista para existir no pleito e está disposta a esticar a corda até que o respeito ao seu tamanho proporcional seja restabelecido.

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