José Carlos Chamon
José Carlos Chamon
José Carlos Chamon é empresário do setor de infraestrutura, sócio da RDJ Engenharia, membro do Conselho de Infraestrutura da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes) e Brasinfra – Entidade Nacional da Infraestrutura
A opinião dos colunistas é de inteira responsabilidade de cada um deles e não reflete a posição de ES Hoje

RDC, matriz de riscos e a conta inevitável dos contratos rodoviários

O Regime Diferenciado de Contratações Públicas (RDC), instituído pela Lei nº 12.462/2011, surgiu sob a justificativa de conferir maior eficiência e celeridade às contratações públicas. A lógica parecia irrefutável: simplificar procedimentos, reduzir entraves e acelerar empreendimentos estratégicos. Entretanto, a experiência acumulada em contratos de implantação rodoviária evidencia um problema estrutural que transcende a técnica jurídica e alcança diretamente a racionalidade econômica dos contratos.

A ampliação da contratação integrada e semi-integrada alterou substancialmente a tradicional alocação de riscos nos contratos administrativos. O contratado passou a assumir obrigações historicamente vinculadas ao poder público, muitas delas associadas a variáveis cuja governabilidade é, por natureza, limitada: desapropriações, licenciamentos ambientais, interferências institucionais e riscos geológicos.

A transferência de riscos não é, em si, uma distorção. Trata-se de mecanismo amplamente utilizado em modelos contratuais contemporâneos. O ponto crítico reside na aderência entre risco transferido, capacidade de gestão e mecanismos efetivos de recomposição.

Desapropriações e licenciamentos ambientais configuram processos essencialmente administrativos, dependentes de múltiplos agentes institucionais, decisões regulatórias e condicionantes externas ao controle direto do contratado. Riscos geológicos, por sua vez, apresentam natureza probabilística, frequentemente marcada por incertezas relevantes mesmo em cenários tecnicamente investigados.

Nesse contexto, a Lei nº 14.133/2021 estabeleceu diretrizes inequívocas. O artigo 22 dispõe que o edital deverá conter, sempre que cabível, matriz de alocação de riscos, com definição clara das responsabilidades das partes. Não se trata de recomendação, mas de comando normativo voltado à estabilidade da equação econômico-financeira.

De igual modo, o artigo 124 assegura o reequilíbrio contratual diante de eventos imprevisíveis, previsíveis de consequências incalculáveis ou fatos do príncipe, reafirmando princípio historicamente consolidado no direito administrativo brasileiro: a preservação da equação econômico-financeira do contrato.

A jurisprudência do Tribunal de Contas da União reforça essa diretriz. O Acórdão 1.977/2013-Plenário enfatiza que a adequada alocação de riscos constitui elemento central da modelagem contratual, advertindo que riscos não gerenciáveis pelo contratado não podem ser transferidos de forma automática ou irrestrita.

O fundamento é econômico antes de ser jurídico. Riscos de elevada imprevisibilidade não desaparecem por disposição normativa. São precificados, absorvidos ou materializados.

Quando a matriz de riscos não encontra aderência prática à dinâmica dos fatos, os efeitos tornam-se inevitáveis:

* Incorporação de prêmios de risco elevados nas propostas
* Pleitos recorrentes de reequilíbrio
* Litígios prolongados
* Paralisações contratuais
* Deterioração da atratividade dos certames

Observa-se, na prática, uma assimetria recorrente: amplia-se o espectro de responsabilidades do contratado enquanto se mantêm estruturas de preço rígidas, margens comprimidas e cronogramas frequentemente desconectados da realidade dos processos administrativos.

A tentativa de acelerar empreendimentos mediante transferência extensiva de riscos produz, não raramente, uma ilusão de eficiência. A conta não é eliminada — apenas deslocada no tempo e na forma.

Desapropriações, licenciamentos ambientais e eventos geológicos não constituem externalidades residuais. São variáveis estruturantes em contratos de implantação rodoviária. Ignorar sua natureza estocástica compromete a consistência dos orçamentos, fragiliza cronogramas e amplia a instabilidade contratual.

A questão central permanece incontornável:

quando a conta não fecha para o contratado, o sistema inevitavelmente absorve o desequilíbrio — seja por reequilíbrios, aditivos, litígios ou frustrações contratuais.

Eficiência contratual não decorre da simples transferência de responsabilidades, mas da construção de matrizes de risco tecnicamente defensáveis, juridicamente consistentes e economicamente sustentáveis.

***

José Carlos Chamon
Empresário – Setor de Infraestrutura
Conselheiro COINFRA / FINDES
Conselheiro BRASINFRA
Ex-Presidente do Sindicopes-ES

José Carlos Chamon
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José Carlos Chamon é empresário do setor de infraestrutura, sócio da RDJ Engenharia, membro do Conselho de Infraestrutura da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes) e Brasinfra – Entidade Nacional da Infraestrutura

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