João Gualberto Vasconcellos
João Gualberto Vasconcellos
João Gualberto Vasconcellos é mestre e professor emérito da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Doutor em Sociologia pela Escola de Altos Estudos em Ciência Política de Paris, na França, Pós-doutorado em Gestão e Cultura. Foi secretário de Cultura no Espírito Santo entre 2015 e 2018.
A opinião dos colunistas é de inteira responsabilidade de cada um deles e não reflete a posição de ES Hoje

A magia do segundo voto

Durante todo o período democrático, que se estendeu de 1945, com a queda de Getúlio Vargas, até 1964, ano do Golpe Militar, a política do Espírito Santo esteve polarizada entre o PSD – Partido Social Democrático – e os seus rivais, organizados na Coligação Democrática, com a presença marcante da UDN – União Democrática Nacional. Sem dúvida alguma, Carlos Lindenberg dividia com Jones dos Santos Neves o protagonismo eleitoral do PSD, partido que permaneceu mais tempo no poder.

Jones foi interventor em 1943 e, depois, governador eleito em 1951, além de senador da República. O grande articulador dos votos, a grande liderança do interior, era Carlos Lindenberg, duas vezes governador e outras duas vezes senador, além de deputado federal. Dr. Carlos terminou seu último mandato como governador em 1962, ano em que renunciou para candidatar-se ao Senado.

Nessa eleição de 1962, Dr. Carlos caiu numa pegadinha da eleição ao Senado com dois votos. Ele, a liderança mais importante da política capixaba daquela época, perdeu, para a surpresa de todos, a eleição. Mas, por quê? Como era o candidato mais forte, pediu o seu voto e deixou o eleitor escolhesse o seu segundo candidato. Os mais populares eram Raul Giuberti e Eurico Rezende, que não queriam fortalecer a candidatura de Lindenberg e pediram o segundo voto entre si. Resultado: os dois se elegeram, deixando a candidatura favorita para trás. Quem já havia escolhido Lindember dividiu seu segundo voto, e quem tinha um dos dois outros candidatos como primeiro voto não destinou voto a Lindenberg.

Esse antigo caso da política capixaba me ocorreu agora, em função da eleição que se aproxima, que também permitirá dois votos. Por todas as evidências, o candidato favorito na corrida senatorial é o ex-governador Renato Casagrande, e uma questão importante para os demais postulantes é saber quem o eleitor que já escolheu Casagrande escolherá como segunda alternativa. Pela lógica da política brasileira, entre os candidatos já lançados, os eleitores mais à esquerda devem escolher o já senador Contarato. Os de direita têm mais opções: Marcos Do Val, Sérgio Meneguelli, Rose de Freitas, entre os mais alinhados com a candidatura de Casagrande.

Enquanto isso, do lado da chapa de Pazolini, saíram dois candidatos que, até o momento, estão 100% alinhados ao bolsonarismo: Maguinha Malta, filho do atual senador Magno Malta, e Evair de Melo, deputado federal com bons serviços prestados ao estado, mas fã absoluto de Jair Bolsonaro e ativista do impecheament do Ministro Alexandre de Moraes, do STF. Parece que as duas candidaturas de extrema-direita estão fechadas numa dupla bem firme.

Caso a dupla bolsonarista não faça movimentos em direção ao eleitor de Casagrande no primeiro voto e se feche contra a centro-esquerda, corre o risco de afugentar o eleitor moderado de Casagrande na primeira escolha. Se isso acontecer, esses votos vão se destinar a Sérgio Meneguelli, à direita, e a Contarato, à esquerda, como já assinalei, derrotando os dois direitistas.

Não estou querendo afirmar que isso ocorrerá. Quero, antes, chamar a atenção dos meus leitores para o fato de que existe uma aritmética eleitoral bem simples nas candidaturas que disputam o segundo voto do eleitor já definido por Renato no primeiro. Penso que isso deve ser levado em conta nos planejamentos de campanha, que agora começam a se materializar em panfletos, publicações nas redes sociais, discursos e outros elementos que compõem a construção de imagem de um candidato.

Claro que não estou dizendo que alguém que vem batendo em Casagrande de forma sistemática há muitos anos, ou mesmo que tenha uma defesa intransigente do impeachement dos ministros do supremo, deva mudar agora de postura. Não se trata disso, até porque o eleitor não costuma ser bobo e percebe bem esses oportunismos de última hora. É outra a minha tese, e bem mais simples.

É a tese da compreensão das razões do voto dos eleitores. As complicadas ilações ideológicas não pertencem ao universo das pessoas simples; elas, antes, fazem raciocínios mais imediatos no campo da simpatia pessoal ou nos benefícios que recebeu do governante. Como o atual governo do estado teve muito tempo – afinal, foram três mandatos – para distribuir favores, existem muitos a serem retribuídos. O alinhamento com esses favores pode ser de várias ordens, desde emendas parlamentares até o reconhecimento da importância de obras e outras ações governamentais.

Enfim, há uma magia no segundo voto de qualquer um dos candidatos quanto ao destino do segundo voto. Usei exemplos para justificar essa mensagem, só isso.

 

João Gualberto Vasconcellos
João Gualberto Vasconcellos
João Gualberto Vasconcellos é mestre e professor emérito da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Doutor em Sociologia pela Escola de Altos Estudos em Ciência Política de Paris, na França, Pós-doutorado em Gestão e Cultura. Foi secretário de Cultura no Espírito Santo entre 2015 e 2018.

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