João Gualberto Vasconcellos
João Gualberto Vasconcellos
João Gualberto Vasconcellos é mestre e professor emérito da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Doutor em Sociologia pela Escola de Altos Estudos em Ciência Política de Paris, na França, Pós-doutorado em Gestão e Cultura. Foi secretário de Cultura no Espírito Santo entre 2015 e 2018.
A opinião dos colunistas é de inteira responsabilidade de cada um deles e não reflete a posição de ES Hoje

Um defeito de cor

Nos últimos dias, li, encantado, o romance histórico que tem o título que dei à coluna hoje: Um Defeito de Cor, escrito pela premiada escritora Ana Maria Gonçalves, que ingressou, recentemente, na Academia Brasileira de Letras. É daqueles livros que são uma travessia: chega-se ao outro lado da viagem vendo a vida de forma diferente, em especial nos temas que foram tratados. É considerada uma das obras mais importantes da literatura brasileira contemporânea.

A autora consegue, com maestria, traçar um perfil da escravidão e da vida dos escravizados no Brasil do século XIX, a começar pelo título. Em nosso período colonial, havia uma norma que exigia que pessoas negras ou mulatas, como se dizia na época, que desejassem participar da administração pública, do clero ou do exército precisassem solicitar uma “dispensa do defeito de cor” à Coroa, em ato feito de propósito para humilhar e fortalecer a supremacia branca no Antigo Regime.

A obra narra a longa trajetória de Kehinde, uma mulher africana escravizada no Brasil do século XIX, em busca da afirmação de sua liberdade, e foi baseado na história real de Luísa Mahin, mãe do grande poeta e abolicionista Luiz Gama.  A história se passa desde a sua infância no Daomé, onde nasceu em 1810, passando pela conquista de sua alforria até o seu retorno para a África, onde passa muitos anos até o fim de sua longa vida.

Um recurso narrativo genial é fazer com que Kehinde, ou Luísa, nome que recebeu no batismo cristão, passe por muitas situações diferentes. Chega ao cativeiro aos 6 anos e traz para sempre todos os elementos da religiosidade africana de sua região, acentuados pela adoração que tem pela figura de sua avó, que a acompanha na viagem feita nas imundícies que eram os navios negreiros. Na Bahia, vai morar na Ilha de Itaparica, inicialmente na Casagrande, ou na senzala pequena, como diz, e depois da senzala grande, junto com os demais escravizados. Duas perspectivas.

Depois de violentada pelo Sinhô e ter um filho dele, foi alugada para trabalhar com uma família de ingleses. Aprende a falar a língua deles e entende as diferenças de tratamento daqueles que queriam o fim da escravidão brasileira. Depois, vira escrava de ganho, como se dizia à época, quando consegue comprar a sua alforria. Esse percurso permite à autora descrever de forma muito clara o que se passava nesses ambientes tão diferentes entre si. Podemos dizer que eram escravidões, com nuances e detalhes de cada grupo: africanos, crioulos, mulatos, alforriados ou mesmo os que estavam pagando as prestações de sua alforria, os quase libertos.

É, entretanto, um romance, aliás, um bom romance. Então, não faltam cenas de muita emoção, sobretudo durante a Revolta dos Malês, da qual ela participa. Depois, tem que fugir; foi quando o português, pai de seu filho, o vende como escravizado, e ele deixa a Província da Bahia. Daí se inicia uma longa busca pelo filho, que a leva a São Sebastião do Rio de Janeiro, São Paulo e tem uma passagem pelo Maranhão. Termina indo para a África, onde é uma retornada. Lá convive e torna-se amiga de Domingos José Martins, filho do herói capixaba, um homem riquíssimo com o comércio escravocrata.

O livro cria as situações para a autora exercitar a descrição da enorme perversidade que foi a escravidão brasileira e tangenciar a vida de vários cidadãos ilustres, como Joaquim Manoel de Macedo, autor de A Moreninha, ou Bartolomeu de Gusmão, o padre voador. É aí que vemos com clareza a profundidade da pesquisa realizada ao longo de cinco anos.

No fundo, trata-se de recontar a história brasileira através do olhar de uma mulher negra, inteligente, bonita, destemida. O livro nos dá um outro olhar sobre as bases apodrecidas sobre as quais foram assentados os pilares da nossa sociedade tão desigual, racista, machista e centrada no elemento branco. A intolerância religiosa com os cultos de matriz africana é brutal. Proibidos de acreditar em seus deuses, ficam sem ter uma âncora imaginária para o seu sofrimento, obrigados a crer nos deuses dos que os massacravam.

É preciso contar e recontar essas histórias. É preciso trabalhar contra a tentativa sempre presente de desqualificar tudo que pertence ao mundo africano. O que vemos no livro é a força da cultura que veio daquele continente e que ganhou uma expressão muito especial no Brasil. Há no Brasil uma África que nem em África existe, como tantas vezes nos chamou a atenção o grande africanólogo Alberto Costa e Silva, porque aqui foram forçados a se misturarem e criarem cultos, línguas, celebrações com base nos saberes de seus antepassados, mas recriados nas trágicas condições brasileiras.

João Gualberto Vasconcellos
João Gualberto Vasconcellos
João Gualberto Vasconcellos é mestre e professor emérito da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Doutor em Sociologia pela Escola de Altos Estudos em Ciência Política de Paris, na França, Pós-doutorado em Gestão e Cultura. Foi secretário de Cultura no Espírito Santo entre 2015 e 2018.

Você por dentro

Receba nossas últimas notícias em primeira mão.

Escolha onde deseja receber nossas notícias em primeira mão e fique por dentro de tudo que está acontecendo!

Comentários

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Mais Lidas

Notícias Relacionadas

[the_ad_group id="63695"]