Escrevi, há algumas semanas, que o todo poderoso presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, estava em perfeitas condições de indicar um candidato do seu partido como alternativa à polarização entre Lula e os Bolsonaro nas eleições que se aproximam. O movimento que ele fez, no início do ano, foi muito inteligente e teve mesmo condições de criar uma candidatura que substituísse a de Tarcísio de Freitas, atropelado por Flávio Bolsonaro. Havia governadores bens avaliados cotados: Ratinho Junior do Paraná, Ronaldo Caiado do Goiás e Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul.
Por vários motivos, a movimento acabou não dando certo. Ratinho Junior, atual governador do Paraná, abriu mão de concorrer, motivos da política local o afastaram da cena nacional. Eduardo Leite também preferiu tomar conta da sua liderança no Rio Grande do Sul. Vingou o nome de Ronaldo Caiado, líder histórico da direita de Goiás. Não me parece que tenha sido um resultado satisfatório por vária razões, cito duas: ele traz um legado de enfrentamento ao crime com muita dureza policial e uma distância muito grande dos maiores centros decisórios do processo eleitoral brasileiro. Tende a ser uma candidatura minúscula, como a de Simone Tebet em 2022.
Há um vazio resultante do fracasso das manobras do Kassab. Nesse momento, quem tenta ocupar esse espaço é o ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema, a partir de sua imagem de um político não extremista e de um governo que tem boa passagem entre segmentos da direita que não quer aderir ao candidato da família Bolsonaro. Não sei se ele consegue emplacar seu nome de forma competitiva. Sei que ele terá, de qualquer forma, projeção nacional e não tem nada a perder.
O mais interessante é que as pesquisas, de uma forma geral, sinalizam que temos cerca de 20% de eleitores vinculados a um bolsonarismo raiz e outros 20% ligados à liderança de Lula, o que significa que temos um contingente superior à metade do eleitorado que não se alinha aos extremos do espectro político. É patente nos meios em que circulamos o desejo de que surja uma terceira via forte, uma alternativa aos dois extremos.
Quanto aos extremos, o que estamos vendo é Lula e Flávio Bolsonaro se movimentando em busca dos eleitores mais moderados e que não gostariam, em princípio, de votar em nenhum dos dois. Existem sinais evidentes de que o candidato do PL está tentando se locomover rumo ao centro: tem dito que é o Bolsonaro que toma vacina, sua esposa gosta de afirmar que o reeducou para os temas mais sensíveis. Afinal, ele precisa se aproximar do eleitorado feminino, em grande parte responsável pela derrota de seu pai.
Lula tenta avançar mais nos segmentos que tradicionalmente votam nele: as mulheres mais pobres, os trabalhadores, os eleitores do Nordeste. Tem grandes dificuldades de lidar com as inovações na sociedade. Parece não entender o que quer a juventude pobre que rala em trabalhos sem garantia trabalhista e que busca, com grande esforço, prosperidade; nem os evangélicos; enfim, os segmentos que emergiram recentemente no campo social. Não tem mais tempo de se reinventar em poucos meses.
Todo esse quadro torna a eleição muito imprevisível. Os movimentos serão difíceis para os dois maiores candidatos e uma terceira via não está instalada. O Zema é o que mais procura esse vazio, mas não dispõe de uma imagem que possa captar os eleitores moderados na mesma intensidade que o governador de São Paulo, mas ainda é muito cedo para saber o que ele conseguirá em termos eleitorais.
Quanto ao Flávio Bolsonaro, temos um governo improvável no Rio de Janeiro, de um desembargador que não quer seu nome nas sujeiras tão típicas daquele Estado. Para quem tem tantas denúncias de rachadinhas, teve tantos milicianos e bandidos rondando seu gabinete na Assembleia Legislativa, é um risco evidente, ainda mais que um adversário do bolsonarismo disputa, como favorito, as eleições para o governo estadual. Vamos esperar o que vai resultar das dezenas de apurações que estão em marcha, isso sem falar dos escândalos de Ciro Nogueira com o Banco Master.
Está claro que para Eduardo Paes, do PSD, adversário da direita em seu Estado e aliado de Lula, que qualquer descoberta de envolvimento com fraudes e escândalos será potencializada. Na minha opinião, é um grande risco da candidatura da extrema direita disfarçada de moderada, tanto pelo impacto eleitoral no berço de Bolsonaro quanto pela repercussão nacional. Isso tudo torna o quadro eleitoral muito confuso e muito difícil de arriscar uma previsão.
Caso o eleitor moderado ache que o menor risco, diante de um quadro confuso, é Lula, a candidatura fica mais viável eleitoralmente. Mas, se ele não encontrar segurança ao votar no petista e Flávio não sair das armadilhas cariocas, um dos candidatos menores pode crescer. Enfim, estão todos os candidatos como o touro grego perdido em seu labirinto, onde o uso da força não basta. Será necessário usar de muita estratégia. Isso em contar que o eleitor de Zema e Caiado no primeiro turno, rejeitaram Lula e Bolsonoro e podem votar em qualquer um dos dois que for para o segundo turno. Uma baita confusão.









