Que tenho amores e paixões, todos sabem.
Ligia e Laura são “hors concours” e isso digo sempre, pois são mesmo. Ligia me lembra “Ela”, pelos versos de Gil: “Minha música/ musa única, mãe dos meus filhos / ilha de amor. Ela / Ela que me faz um navegador.” Laura é fruto, raiz, que pinta (literalmente me pinta), faz com o pai o que quer, me transforma, transborda, canta o hino junto comigo e sozinha.
Mas tenho paixões outras. Cuba, Havana e, desde que me entendo, sou “Carlos Roberto e Gerson, Rogerio, Roberto, Jairzinho – meu grande ídolo e que me fez mais ainda torcer pelo Glorioso – e Paulo Cesar”, sou Botafogo, sou Glorioso, fui Marinho, fui o melhor goleiro do Brasil no seu tempo (Jeferson, óbvio), vesti a Celeste Alvinegra de Loco Abreu numa Copa do Mundo, sou do time que (até hoje) deu mais jogadores para a Seleção Brasileira quando a seleção era a Seleção Brasileira e não esse catado de agora, sou Garrincha, Nilton Santos e Didi.
Fui Heleno de Freitas, fui Manga, um dos melhores goleiros da história do futebol brasileiro em todos os tempos e com Manga gastei o bicho contra o Flamengo na véspera dos jogos, fui Quarentinha, Amarildo e Zagalo, fui Biriba, cachorro mascote, e carrego comigo todas as superstições, a ponto de não ver os jogos da Libertadores, porque não vi o começo e deu certo, então não vi mais nenhum. Já pensou se eu vejo a final e o Fogão perde? A culpa ia ser minha. “Bobagem, cara, isso não existe.” Eu sei. Racionalmente eu sei. Tenho certeza que não existe. Mas sou Botafoguense desde antes de nascer e Botafoguense é assim, não é mesmo Toinha?
De repente, começamos a ganhar de novo e agora os invejosos, os que não conhecem nossa história nos chamam de bairro, sem conhecer nossa alma, a verdadeira alma alvinegra e nossa história, nós que em 62, com Garrincha, ganhamos a Copa, quase que sozinho, que Pelé machucou e Garrincha levou a seleção nas costas, fazendo gol de todo jeito.
Os que dizem que somos poucos, não sabem é que, na verdade somos discretos. Estamos em todos os pontos, guardando a estrela solitária. E onde quer que nos procurem, vão nos encontrar, curtindo a delícia de ser botafoguense.
“Tu és o Glorioso”, cantamos em nosso hino, como ninguém mais pode cantar.
Nossas crônicas de vitória? Foram e serão escritas por João Saldanha, Sandro Moreyra, Armando Nogueira, Clarice Lispector, nossos versos vêm de Vinicius de Moraes e nossa música tem Beth Carvalho, Agnaldo Timóteo e Zeca Pagodinho. Problema jurídico? A gente convoca Evandro Lins e Silva.
Ser botafoguense é ser diferente. Não é sair ganhando títulos a todo instante, a qualquer hora, que assim fica banal. Isso nós deixamos para os comuns, para quem não sabe o que ser cantado em verso por Vinicius de Morais: “Me diga sinceramente uma coisa, Mr. Buster: / O Sr. sabe lá o que é um choro de Pixinguinha? O Sr. sabe lá o que é ter uma jabuticabeira no quintal? / O Sr. sabe lá o que é torcer pelo Botafogo?”
Sofreram muito, falam os que não nos conhecem! Que nada.
Curtimos cada título, vivemos cada momento de nossas muitas glórias, saboreando-as, especiais que são.
Se a alegria foi nossa com Garrincha e Marinho Bruxa, a rebeldia nós a inauguramos com Heleno, a tornamos definitiva com Afonsinho e a perpetuamos em Paulo César, cada um a seu modo denunciando as dores de seu tempo.
Somos hoje Campeões da Libertadores. E domingo poderemos ser, ou não, o campeão do Brasil. E daí? No fundo, pouco importa.
O que importa mesmo é ser Botafogo e sentir como Armando Nogueira:
“O Botafogo é bem mais que um clube – é uma predestinação celestial. Seu símbolo é uma entidade divina. Feliz da criatura que tem por guia e emblema uma estrela. Por isso é que o Botafogo está sempre no caminho certo. O caminho da luz. Feliz do clube que tem por escudo uma invenção de Deus.”
“Foste herói em cada jogo, Botafogo
Por isso é que tu és e hás de ser nosso imenso prazer
Tradições aos milhões tens também
Tu és o glorioso
Honrando as cores do Brasil de nossa gente
Na estrada dos louros, um facho de luz
Tua estrela solitária te conduz
Botafogo, Botafogo.”








