Fui criado no meio de livros. Na minha casa literatura e Direito se misturavam, em não sei qual proporção. Mas estavam todos ali, verdes, vermelhos, Hungria, Clovis Bevilacqua (como era fácil aprender Direito Civil) se misturavam a “O Sr. Embaixador”, “Germinal”, “Cidades Mortas”, “Urupês”, “Voo Noturno”, as obras de Machado de Assis, Eça de Queiroz, Camões…
Uma história que ouvi em casa foi quando um dia papai chegou do Rio, a gente morava em Niterói onde nasci, com um pacote grande para o menino recém-nascido. Empregado assalariado, sem grande salário, mamãe imaginou pacotes de fraldas, roupinhas de neném, essas coisas. Quando abriu o pacote, eram as obras infantis de Monteiro Lobato.
Na escola, com D. Merinha, em São José do Calçado, quando ela pediu (naquele tempo professor não pedia, mandava) uma frase sobre livro eu soltei “meu pai tem um livro de Código Civil” (Rogerio Malheiros e Toinha sabem que é verdade – embora Toinha, depois do 5 x 0 do Fogão no Peñarol deve estar até agora, como eu, sem condições de garantir nada – com certeza)
Mas qual a razão desse texto?
É que outro dia descobri que “Vandalizar livros é a última moda decorativa”.
Li no UOL esse artigo de Sérgio Rodrigues onde ele diz que para driblar a quantidade de cores que os livros trazem em suas capas, os decoradores atuais passaram a usar os tons monocromáticos. Como? Arrancando as capas e deixando só o interior.
“A sacada é tão brilhante quanto simples: por dentro, em seu conjunto de páginas, aquilo que o jargão editorial chama de miolo, livros são quase monocromáticos –vão do branco ao bege, tons que felizmente se encaixam bem em propostas minimalistas, “neutras”, que são tendência nos mais elegantes interiores contemporâneos.
Assim, basta arrancar com cuidado a capa dos bichinhos —o que inclui, atenção, lombada e contracapa— e deixá-los pelados, reduzidos ao seu essencial nude.”
Confesso que não acreditei. Já tinha visto os livros falsos de madeira, lindos, compondo estantes inteiras – e vem, sei lá a razão, a lembrança de Aldir Blanc – “fascínio tenho eu por falsas loiras” -, as bibliotecas feitas só para serem vistas, intocadas, mas arrancar as capas, isso foi a primeira vez que tive notícia. Que cena estranha.
Malatestas, Fredericos Marques, Drumonds, Vinicius, Zolas, todos ali, juntos, numa branquitude só, sem suas vestimentas, capas muitas vezes tão belas. No lugar de capas arrancadas, minha mãe encontrou solução muito melhor. Arrumou a desarrumada biblioteca do meu pai (biblioteca viva é biblioteca desarrumada) e colocou verde com verde, vermelhos todos juntos, azuis…, fazendo com que convivessem pacificamente Direito Civil, Penal, Constitucional, Literatura Russa, Poesia, tudo numa única prateleira, desarmonia de assuntos, mas harmonia de cores.
E falando em livros, qual a razão de não falar em poesia e Vinicius de Moraes, quando voltava ao Brasil e um amigo americano estranhou a razão do poeta querer voltar. Vinicius, em “Olhe aqui, Mr. Buster”, respondeu:
“Mas me diga uma coisa, Mr. Buster
Me diga sinceramente uma coisa, Mr. Buster:
O Sr. sabe lá o que é um choro de Pixinguinha?
O Sr. sabe lá o que é ter uma jabuticabeira no quintal?
O Sr. sabe lá o que é torcer pelo Botafogo?”








